FENÔMENO ESPÍRITA OU ESPIRITUAL?

Os fenômenos de natureza espiritual são parte da natureza. Kardec estudou os fenômenos mediúnicos com a mesma naturalidade que se estuda os fenômenos da meteorologia, pois, ambos fazem parte dos fenômenos naturais. Tais fenômenos acompanham a humanidade em todas as suas etapas do seu desenvolvimento, sendo comuns para o homem das cavernas da mesma forma que o são hoje. Pode-se dizer que em ternos de uma lógica rigorosa, não existem fenômenos espíritas e sim, fenômenos espirituais. Os espíritas e o Espiritismo não são proprietários de tais fenômenos, embora, os expliquem de forma racional e baseados na própria fenomenologia com que se apresentam.

Se os cientistas tivessem se debruçado sobre os fenômenos espirituais sem isenção de ânimo, sem preconceitos, teriam chegado às mesmas conclusões à que chegou a codificação espírita. Infelizmente, a ciência e seus representantes deixaram-se encantar por uma visão materialista e, portanto, incompleta da realidade. O Espiritismo explica os fenômenos mediúnicos, não os criou ou subordinou a uma visão preconcebida dos mesmos. Kardec reformula opiniões e conceitos ao longo de seus estudos e pesquisas, de forma que o Espiritismo surge deste amadurecimento e da orientação dos espíritos superiores.

Afirma-se no movimento espirita que a época da fenomenologia espiritual já passou, pois, tais fenômenos já não se fazem necessários. Teríamos alcançado um nível de esclarecimento suficiente para deles não precisarmos. Mas pergunto: nós, quem? Será que os fenômenos espirituais foram feitos somente para os espíritas? Se juntarmos todos os espíritas do mundo teremos não mais que dez milhões de almas. Será este número suficiente para o esclarecimento da humanidade? Certamente que não. No máximo podemos dizer que nós, os espíritas, não precisamos mais deles para nos convencer da realidade espiritual e nunca que o mundo deles também não precise. Mas o fenômeno espiritual não tem somente o objetivo de demonstrar a realidade do espírito, tem inúmeras outras finalidades como a orientação espiritual e a consolação.

O intercâmbio com os espíritos é algo natural, não objetiva apenas a demonstração da realidade da imortalidade da alma. Os espíritos superiores poderiam se materializar com frequência se estivéssemos aptos para aproveitar seus ensinos. Conversar com parentes e amigos falecidos é antes fonte de consolação, não um espetáculo para os descrentes. Acredito que no futuro, quando a sociedade for constituída em sua maioria por espíritos moralmente adiantados e intelectualmente dispostos a aproveitar os ensinos de natureza superior, nesta etapa da evolução humana, será muito mais frequente o intercâmbio ostensivo com os espíritos superiores. É inútil um espírito superior se materializar para ensinar para aqueles que não estão dispostos a aproveitar seus ensinos.

É necessário a sublimação dos sentimentos e uma reformulação do comportamento social a fim de que a fenomenologia espiritual possa se ampliar de forma ostensiva na sociedade. Futuramente teremos aparelhos capazes de materializar os espíritos, de permitir a comunicação visual e sonora com os mesmos. Atualmente, se tais aparelhos existissem, seriam utilizados para o intercâmbio com espíritos inferiores que melhor retratam os anseios de expressiva parcela da humanidade.

A época dos fenômenos espirituais não passou, apenas nós é que não fomos capazes de merecer o intercâmbio mais ostensivo com os bons espíritos. É indispensável reavaliar à nós mesmos para não nos colocarmos como porteiros do intercâmbio entre os dois mundos. Emmanuel revela que, na etapa em que a humanidade se encontra, somente dois fatores justificam a materialização dos espíritos: a pesquisa científica e o trabalho de cura espiritual. Observemos que Emmanuel é prudente e revela: na etapa atual da humanidade e isto significa que, o que impede a abundância de fenomenologia “espírita” é a dureza de nossos corações.

Conversar com os espíritos, evocar os espíritos, materializar os espíritos. Nada disso é coisa do outro mundo. Nenhum desses fenômenos é propriedade dos espíritas. Se Allan Kardec conseguia comunicar-se com grandes personalidades da história universal, tal se deve, não à abundância ou preparo dos médiuns europeus, mas à seriedade e o amor que dedicou à codificação espirita. Se tivéssemos tal seriedade ou preparo intelectual, se a sociedade estivesse realmente interessada em se preparar para a vida que sucede a vida, se tivéssemos a fé do tamanho de um grão de mostarda, então, teríamos uma abundância de fenômenos espirituais e nada nos seria impossível, como nos ensinou Jesus.

João Senna
Salvador, 31/072016

POR QUE CRER EM DEUS?

Percebemos que não se vive sem crenças. Não se trata apenas de uma questão de gosto ou um hábito social, crer é algo inevitável porque faz parte da nossa estrutura mental. Acordamos e dormimos por acreditar que o mundo estará nos aguardando na próxima manhã. E assim vivemos fundamentados na fé em nós mesmos ou no mundo que acreditamos ser regido por uma ordem e que o mundo permanecerá o mesmo, pelo menos, para nossos propósitos existenciais.

O fato de crer, entretanto, não estabelece a realidade. Podemos crer em verdades ou mentiras, em coisas possíveis ou estabelecidas, em fatos ou suposições, podemos confundir opinião com a realidade e esta com desejo. O nosso mundo mental não estabelece a realidade, mas nos faz ver a realidade da forma que a vemos, forma esta que nem sempre corresponde à realidade real, mas a “realidade” que a mente imagina. Existem, portanto, crenças falsas e verdadeiras. Trabalhos científicos bem conduzidos ou mal conduzimos onde utilizamos a estatística para amenizar as incertezas inerentes à atividade da ciência. Da mesma forma existem religiões verdadeiras e falsas religiões, como existem bons hospitais e hospitais ruins, boas escolas e escolas deficientes ou notoriamente de pouco ou nenhum valor. Devemos, portanto, estabelecer se e quando nossas crenças são verdadeiras ou falsas.

A crença em Deus é a mais importante de todas, pois, dessa crença irá depender todas as outras crenças e a mais importante crença: quem acreditamos ser? O pessimista acha que nada irá ser bom, nem ele mesmo. Quem somos, a forma de nos relacionar com o mundo, com as pessoas e o que pensamos à respeito de nós mesmos dependerá, fundamentalmente, se acreditamos ou não na existência de Deus e qual o Deus que acreditamos. Voltaire pronunciou em discurso que fez na Maçonaria: eu não acredito no Deus criado pelos homens, mas acredito no Deus que criou os homens.

Se você e eu somos seres destinados à imortalidade ou se somos destinados ao cemitério. Se nossas vidas tem um significado a ser descoberto e realizado ou se somos seres circunstanciais e contingentes, se o caminho do bem e do mal são caminhos diferentes ou não passam de criações, de convenções sociais, tudo dependerá da existência de Deus. Se Deus não existir, continuaremos a viver, mas da forma que desejarmos, pois, não haverá finalidade para a existência, exceto, a finalidade que inventarmos. Hitler possuía a finalidade de exterminar tudo o que julgava nocivo ao bom futuro da humanidade, madre Teresa acreditava que todas as vidas possuíam uma finalidade, pois, todas foram criadas por um ser de inteligência suprema e causa de todas as coisas. Percebamos que não basta acreditar em Deus, é indispensável saber interpretar a vontade de Deus e se o Deus que acreditamos é o Deus dos vivos e não o Deus dos mortos como ensinou Jesus.

Percebemos que nem todas as coisas são perfeitas ou parecem ter utilidade. Existem pessoas com retardo mental severo e que passam a existência sorrindo sem motivo e nunca conseguirão
formar um frase mais longa e que tenha sentido. Se você acredita em Deus, irá intuir que suas vidas tem valor para si mesmas e para aqueles que dela se responsabilizam. Mesmo que você não acredite na reencarnacão e na lei do carma, ainda assim você compreenderá que Deus sabe a finalidade da vida desta pessoa. Que esta pessoa é de vital importância para a sociedade. Acreditará que seus cuidadores não fazem um favor ao cuidar dessa pessoa, mas que ao cuidarem dela, estão trabalhando para o próprio aperfeiçoamento espiritual. Certamente que os cuidadores, quando a cuidam com amor, tem inestimáveis méritos e virtudes, mas não se trata jamais de um simples favor o ato de amar.

As nações onde o materialismo e sua descrença em Deus são mais prevalentes como Holanda, Bélgica e Suíça, aprovaram em lei a eutanásia para doentes graves ou que se tornarão graves em futuro, às vezes, distante. Estabeleceram em lei a possibilidade do o aborto não terapêutico baseados na opinião da mãe sem necessidade de outra justificativa. A primeira nação a aprovar o aborto foi a Alemanha nazista e, certamente, não foi evocando o nome de Deus. A ausência de Deus nos sentimentos e nos pensamentos ou um pensamento contrário à realidade de Deus, conduzem a funestas consequências.

Acreditar em Deus oferece à alma expectativas grandiosas. Percebemos à nós mesmos como seres destinados à felicidade e não a uma vida efêmera que se sujeita as circunstância da vida como doenças, dificuldades financeiras e emocionais. Em Deus estamos seguros para poder sonhar e viver uma vida em abundância, não apenas um projeto de vida destinado ao fracasso da morte. Não somos estranhos uns aos outros e, tampouco, uma aventura inútil da existência, somos filhos de um mesmo Pai e, naturalmente, irmãos. A natureza não é estranha à nós, fomos feitos para viver em harmonia com a natureza. No Eclesiastes está escrito: a natureza canta as glórias de Deus e contempla a sua face e, nesse Deus acreditamos.

O MÁXIMO DO AMOR

É difícil definir aquilo que nasceu para ser sentido. Não importa o quanto venhamos a compreender o amor, essa perspectiva jamais será comparável ou substituirá a experiência do amor. Mas, se é verdade que nunca definiremos o amor com a mesma grandiosidade com que podemos senti-lo, nem por isso defini-lo será sem proveito. É necessário que, pelo menos, saibamos o que não é o amor a fim de não nos confundirmos. É um empreendimento difícil, porque quase sempre temos falado do amor, sem ao menos vivência-lo em sua plenitude.

Todos amam? Sim, pois, não se pode viver sem amor, sua ausência absoluta reduziria o homem e a mulher mais inteligentes a simples objetos de uso pessoal. Somente os seres cujo psiquismo não alcançou a aurora da razão e da sensibilidade, não amam. Amar é doar-se e todos se doam. Alguns se oferecem ao trabalho e sacrificam saúde, alegria e mesmo a família ao mergulharem na vida profissional. Oferecem todo seu amor ao trabalho e ao se aposentarem, perdem a alegria ao se afastarem do seu amor. Outros se entregam à fama, ao poder político ou econômico, diferentemente de outros que o entregam a si mesmos como Narciso o fez ao se olhar no espelho que as águas do lago refletiam. Pode mesmo o ser amado apresentar-se na forma de objetos inanimados. Assim, o ser mais vil, o ser mais abjeto tem amor por objetos, animais e plantas, mesmo odiando os seres humanos, como nos ensina O Evangelho Segundo O Espiritismo.

Ao analisarmos o amor ficamos maravilhados com a sua grandiosidade e tanto nos encantamos na sua presença que acreditamos ser o amor algo integral, absoluto e que nasceu pronto. O amor, entretanto, como todas as coisas não nasceu pronto, não é igual em todos e possui gradações que sucessivamente progridem: amor simpatia, amor amizade, amor abnegação e, por fim, amor sacrifício da própria vida. Apenas sabemos o grau do amor quando ele se revela em plenitude e, felizmente, não precisamos demonstrar todo o seu poder. Nossa existência não é uma guerra constante, um permanente heroísmo, mas é nessas horas que o amor, quando existe, se revela em plenitude. Ficamos satisfeitos com indícios indiretos do amor. Mas existe uma exceção nesta realidade: o amor de nossas mães, ele se revela em plenitude por não exigir nada em troca e, geralmente, pouco ou nada recebe.

De onde nasce o amor? Nasce de Deus, pois, algo tão grandioso somente poderia surgir de algo igualmente grandioso. Pelos efeitos remontamos às causas. Certamente, Deus poderia não ter nos criado ou nos criado perfeitos para que pudesse contemplar de uma só vez a plenitude de sua obra. A questão é que Deus não nos criou por uma necessidade da razão, mas por ato de seu amor. A vida, portanto, é uma graça divina como nos ensina a teologia católica, espírita e protestante. Se fôssemos criados perfeitos, nunca teríamos a alegria de sermos perfeitos, pois, perceberíamos a perfeição como algo trivial. Quando admiramos alguém que participa de uma maratona, por que fazemos isso? Certamente, pela dificuldade. A mesma admiração não teríamos quando alguém participasse de uma corrida de trinta metros. O mérito e a admiração está associado ao sacrifício.

Quais os tipos de amor? Há gradações e tipos de amor? O amor é único em sua essência porque sua fonte é única, sua origem é Deus. A questão surge quando o amor passa a fazer parte da nossa existência. Somos estruturalmente criados para evoluir, para atingir a plenitude da razão e do sentimento. O amor é a sublimidade do sentimento, seu ápice evolutivo, sua conquista maior. O amor, ao se transportar para nossa realidade, reveste-se de nossa roupagem espiritual, da mesma forma que um belo traje pode vestir um corpo disforme. Sendo imperfeitos, não se pode esperar que o amor em nós se manifeste em sua plenitude. O nosso amor reflete nosso entendimento do que seja o amor, limita-se à nossa capacidade de amar. Surge o amor mesclado ao egoísmo e à vaidade, à precipitação e aos preconceitos que tão bem nos revelam.

Percebemos em nós mesmos as gradações do amor. Na adolescência temos o amor escandaloso, o amor que tudo quer enfrentar, mas que se desvanece ao sopro das primeiras dificuldades. São os beijos e abraços que não podem ser contados, mas apenas calculados, os bilhetes de amor cor de rosa e perfumado, as ligações intermináveis e as juras de amor eterno que, dificilmente, duram doze meses. O amor pegajoso e desconfiado, as pequenas e intermináveis discussões por bobagens e os risos sem grande motivo. É o amor infantil, o amor paixão que quer apenas receber e que se consome ao apagar das luzes da empolgação. Certamente existem exceções, mas não são comuns.

Na maturidade, quando o ser espiritual consegue desvencilhar-se da adolescência, temos o amor um pouco mais equilibrado. Ainda não temos a plenitude do amor, mas um pouco mais de discernimento. Nessa fase existe, em muitos casos, o uso da reflexão, a análise um pouco mais demorada em relação ao ser que se deva amar. Claro que o amor tem suas surpresas, mas já temos um controle melhor daquilo que desejamos e daquilo que devemos querer. O amor já não reina como um rei despótico que tudo põe abaixo para alcançar seus objetivos. Sabemos que nem tudo que queremos podemos ter, nem tudo que agrada aos olhos faz bem ao coração. Em uma visão otimista, o homem e a mulher adultos não esperam o príncipe encantado ou a mulher maravilha, mas tampouco se satisfazem com o homem das cavernas ou a bruxa de plantão.

Amar é compreender o outro sem abdicar das próprias convicções. É dar tudo de si, sem violentar a consciência. É ser parceiro, sem diluir-se no outro. É conquistar o direito de entregar-se sem economia, mas sem fazer loucuras. Caminhar juntos, mas na direção do que for justo. É não preocupar-se em medir o amor, porque o amor que se mede é também o amor que se irá cobrar. E sentir-se preso voluntariamente, estar vazio para preencher o outro e sorrir sem motivo. É fazer da alegria do outro a sua própria alegria e esconder a tristeza de si mesmo se for necessário para que o amor não seja diminuído.

A expressão máxima do amor é o amor das mães que nada pedem e quando esperam o fazem em silêncio. É um pouco do amor de Deus transportado para o mundo, é o futuro do amor. Um elo de natureza espiritual une todas as coisas, governa os mundos e dirige os seres. O amor das mães é um ensaio bem sucedido desta força espiritual. Em Jesus alcançamos a gradação máxima do amor, amor capaz de dividir a história e inspirar santos e heróis e transformar criminosos em homens de bem.

Em Cristo alcançamos o máximo do amor. Sua simples presença curava as doenças do corpo e da alma e o Reino de Deus era transportado das regiões celestes para o coração dos que o viam e ouviam. Não possuía técnicas especiais ou talismãs, poderes secretos ou recursos econômicos, não comandava soldados e, tampouco, possuía heróis ao seu serviço. Era a luz dos séculos sem fim, o filho do Deus vivo, não o Deus dos homens, o Deus acanhado. Era o filho que alcançara a plena comunhão com seu Pai, que o revelara, não com palavras, mas com a cruz do calvário e o sacrifício da própria vida.

TRANSE MEDIÚNICO: CONTROLE DO ESPIRITO OU DO MÉDIUM?

 

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Foto: rede amigo espírita

O Transe Mediúnico é um estado alterado da consciência onde a mente de um espírito desencarnado entra em contato mais acentuado com a mente do escarnado (médium). A despeito da interação mental entre espíritos ser algo constante, pois, a mente pode ser comparada a uma estação receptora e transmissora de pensamentos, chamaremos o transe a um aprofundamento desta interação. Este fenômeno é conhecido como incorporação ou psicofonia.

Ao conjunto de fatores que estabelecem a ligação entre médium e espírito comunicante denominamos sintonia mediúnica. Não se trata apenas de uma capacidade orgânica de assimilação de fluidos espirituais que permitam a interação. Apesar do processo ser orgânico, suas causas são inteiramente espirituais. Sintonizamos com os espíritos que se assemelham com nosso forma de sentir, pensar e agir. Se gostamos de filosofar atraímos espíritos de filósofos ou mais filosóficos, se preferimos temas místicos,  teremos a companhia de místicos. Muitos preferem ter a bebida alcoólica como companhia e atrairão, naturalmente, espíritos vinculados ao álcool. Ao praticar a caridade, atrairemos espíritos vinculados ao bem, se preferimos a maledicência e outros vícios, estaremos em companhias que se afinam a tais tipos de comportamento. Nas reuniões mediúnicas, os mentores do trabalho direcionam os espíritos para determinado médium na dependência dos recursos que este médium ofereça às necessidades do espírito que irá manifestar-se.

O momento do transe mediúnico é aquele em que o intercâmbio espirito-médium se dá da forma mais intensa. Podemos dizer que o espírito comunicante, por momentos, passa a vivenciar a vida de encarnado. O mergulho nos fluidos do médium pode se apresentar como recurso terapêutico favorável à estruturação do perispírito e das emoções daquele que se comunica. Poderá ainda favorecer que o espírito possa visualizar outros espíritos que o queiram ajudar. O restabelecimento de seu equilíbrio emocional pela atuação terapêutica dos fluidos do médium amplia, automaticamente, o seu campo perceptivo e assim poderá visualizar amigos e parentes no plano espiritual. Esse expediente apresenta-se de inestimável valor no seu reequilíbrio espiritual.

Até que ponto médium deverá  “entregar-se” à comunicação mediúnica? Certamente até o ponto em que isto for favorável ao processo que se realiza. A função da comunicação mediúnica não é permitir que o espírito faça o que desejar, mas que seja feito o que for favorável ao seu equilíbrio. O médium tem, portanto, o papel de controlar o processo, afinal, é ele que deve estar em equilíbrio emocional, não o espírito que irá ser auxiliado. Poderá o doente submetido a um procedimento cirúrgico ter o controle sobre o cirurgião, sobre a equipe cirúrgica e o sobre a própria cirurgia?  O médium, como o cirurgião, deve ter o controle do processo. O espírito deve expor sua emoção, mas o médium não precisa assimilar a emoção desequilibrada do espírito como se fosse o seu desequilíbrio, porque se o fizer passará ele mesmo ser outro espírito em desequilíbrio. Muito menos o médium fará parceria com o espírito que se comunica passando ambos a viverem em identidade de propósitos. O médico não necessita ficar doente para cuidar do doente e o mesmo se aplica ao médium. Linguagem vulgar, reações motoras intempestivas ou gestos obscenos deveram ser impedidos pelo médium que, afinal, deve ter um equilíbrio emocional melhor do que o do espírito que se comunica, da mesma forma que o cirurgião deve estar em melhor situação que o paciente que vai operar, sobretudo, quando o paciente se encontra em grave estado.

O médium não necessita mimetizar nos mínimos detalhes os sentimento, as palavras  e o modo de ser do espírito comunicante. Não se trata de uma peça teatral onde o melhor ator é o que melhor representa o personagem. Não é a comunicação de auxílio aos espíritos sofredores   um expediente para a identificação de espíritos ou para se provar a imortalidade através das características exatas do espírito que se comunica. Não é uma competição o ato mediúnico, mas um ato de amor. O amor exige disciplina acima de tudo. Deverá o médium ajudar o doutrinador, não fazer uma parceria com o espírito comunicante. Aumentar a força de um espírito perturbado intelectualmente e doente emocionalmente nada mais é que concordar e fortalecer seu desequilíbrio.

Em relação à comunicação dos mentores do médium e da equipe espiritual que coordena o trabalho, a comunicação poderá se processar de forma diversa. Idealmente, o médium deverá permitir que tais espíritos se expressem com a máxima desenvoltura a fim de que a comunicação se dê com máxima fidelidade. Quanto melhor o espírito se comunique, quanto mais livre for para expressar pensamentos, gestos e linguagem, tanto mais bela e proveitosa será a comunicação. É a situação diametralmente oposta à comunicação de espíritos necessitados de orientação e amor, porque no caso dos bons espíritos que se comunicam, é a emoção do médium e seus fluidos que serão equilibrados e não os do espírito comunicante que já se encontra plenamente harmonizado.

Perceba-se que sempre o médium deverá ter o controle da comunicação. No caso dos bons espíritos permitindo que nos auxiliem e favoreçam a harmonia do médium e do ambiente e no caso dos espíritos necessitados, permitindo que uma comunicação controlada favoreça que o equilíbrio espiritual desses espíritos seja restabelecido. Devemos usar o bom senso e a racionalidade em todas as situações. O Livro dos Médiuns deverá ser estudado e refletido por todos os médiuns que queiram fazer da comunicação mediúnica um elemento de amor e aprimoramento espiritual. Nele encontraremos a diretriz segura para nossa conduta diante da complexidade do fenômeno mediúnico, complexidade esta que não poderá ficar totalmente à mercê da experiência pessoal de médiuns, dirigentes, opiniões ou divagações de toda espécie, em que pese o respeito e consideração que devamos ter por pessoas e instituições.

POR QUE A CRIANÇA NÃO MENTE?

É senso comum que as crianças não mentem e quanto mais nova é a criança, mais isso é verdadeiro. Aparentemente a criança começa a mentir na medida em que começa a deixar de ser criança. Existe a fase da fantasia onde a criança inventa histórias em que acredita ou passa a acreditar na medida em que as repete. Mas fantasiar não é mentir e sim uma forma de tentar compreender o mundo ao redor e o mundo de si mesmo. Aos poucos a criança percebe que o mundo nem sempre atende a seu desejo e que uma forma de modificar isso é mentir. A mentira ,entretanto, surge bem depois da verdade na vida infantil.

Por que a criança não mente? Uma explicação é devido a característica da verdade. Ser verdadeiro é fazer parte da estrutura universal, é ser compreensível à razão. Podemos dizer que a verdade impõe-se ao intelecto como a luz se impõe à visão. Jesus disse: se tivésseis olhos de ver, veríeis, se tivésseis ouvido de ouvir, ouviríeis. A realidade é amiga da verdade. Em um universo criado para a evolução do ser espiritual, seria incoerente que a verdade fugisse da razão e fosse de difícil acesso ou impossível de ser alcançada.  René Descartes foi questionado sobre a suficiência da razão para alcançar a verdade e o mesmo respondeu: se a razão não fosse suficiente, Deus não a teria dado ao homem.

Aprendemos nas universidades que a verdade não existe ou se existe é relativa e, por ser relativa é pessoal e por ser pessoal não é universal. Não podemos buscar a verdade, somente inventa-lá para uso pessoal. Nem todas as universidades ensinam isso, só as melhores. Diferentemente da criança que não sabe mentir, a universidade ensina ao aluno e a toda sociedade que a verdade é uma invenção social. No fundo a verdade é uma convenção agradável a muitos. Nos cursos de filosofia, antropologia, psicologia e pedagogia é ensinado o relativismo moral e do conhecimento. Creio que nos cursos de física, matemática e engenharia a verdade ainda existe. Em medicina também quando nos deparamos com a verdade nua e crua como se costuma dizer. Saímos preparados para ter um melhor salário, ter sucesso profissional e até mesmo podemos nos tornar especialistas em torcer a lei e o código penal para que o nossos interesses prevaleçam. Também podemos usar o relativismo cultural para legitimar qualquer comportamento.

É interessante como o adulto pôde se diferenciar tanto da criança. Se nos lembrarmos dos aspectos emocionais que contribuem para formar a personalidade, talvez, a complexidade se torne menor e possamos compreender o problema. Se o indivíduo adulto buscar o prazer, o poder, a segurança pessoal no aspecto financeiro, o status social e se estes aspectos prevalecerem em sua vida, não é difícil entender por que a verdade pôde ser tão desprestigiada. Nem todos são amigos da verdade, embora, a verdade não seja inimiga de ninguém.

Se você é um péssimo artista e quer ter sucesso profissional ou se você vende quadros de artistas e que ganhar muito dinheiro. O que você pode fazer? Creio que se você possuir um quadro de Renoir ou Rembrant não precisará fazer nada, basta anunciar e venderá por alto preço. Se você é um grande pintor poderá fazer propaganda de si mesmo e terá chance de obter sucesso. O problema é quanto você não é um bom pintor ou tem que vender quadro de artistas ruins. O que você poderá fazer? Basta dar o nome de moderno ou que o pintor faz crítica social ou que o quadro revela um significado que transcende o gosto estético comum. Pinte um ponto branco numa tela de fundo preto e diga que isto significa a solidão humana, é o artista que esquece de pintar para vender filosofia.

O mesmo se pode dizer em relação aos valores espirituais. Se o espírito encarnado se recusa a harmonizar-se com as leis universais ou tem medo de modificar hábitos ou não quer libertar-se de vícios que lhe dão prazer. Qual a solução esperada que este espírito dará? Uma delas é dizer que a verdade não existe ou que é muito relativa ou que cada um tem o direito de escolher uma “verdade” entre as milhares disponíveis no bazar da vida. Não é que cada um não possa “escolher” uma verdade adequada ao seu nível evolutivo, o problema é quando não se quer escolher a verdade, quando não se acredita que ela exista e que, por isso, não devemos buscar viver em conformidade com a verdade.  Se Jesus nos ensinou que a verdade nos libertária é porque a verdade existe, é indispensável e acessível a todos nós.

Compreendemos que o erro e a inverdade são construções sociais derivadas da fuga da realidade ou de uma visão distorcida e incompleta da mesma. Nós criamos a fábula da mentira e   passamos à chamá-la de “nossa verdade”. A verdade não precisa ser criada, pois ela existe e basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir como ensina o Evangelho. O homem adulto é muitas vezes a criança que aprendeu a mentir. Se você ouvir que o certo e o errado não existem, que não existe verdade ou que tudo é relativo… Lembre-se da criança que um dia você e eu já fomos e que “se não vos fizerdes como essas crianças, de forma alguma entrareis no Reino dos Céus”

Não podemos permitir que especialistas formados na cultura materialista, que muitas vezes distorce o senso de realidade, sejam nossos instrutores. Não é razoável esquecer a própria realidade do mundo que nos rodeia, desprezar nossa experiência pessoal. Em nossas vidas vemos pessoas fazerem coisas certas e coisas erradas. Vemos isso em nós mesmo e com razoável frequência. Pessoas que dizem a verdade e outras que mentem. O cristianismo manda que devemos compreender o nosso irmão, mas nunca abandonar nossas convicções ou desprezar a realidade que nos cerca. O que você acredita deve realizar em sua vida e ensinar a seu filho e amigo o que você sabe e que, por isso acredita. Se eles acreditarão em você ou o acharão “careta” e ultrapassado, isto é problema que diz respeito a eles e não a você. Todos os caminhos acabarão por levar a Deus, mas o caminho da mentira e do erro é um caminho desastroso para se seguir. Não desejo este caminho para ninguém.

João Senna
Salvador, 7/06/2016

EXPLICAR NÃO É JUSTIFICAR

EXPLICAR NÃO É JUSTIFICAR

Existe uma certa confusão entre explicar e justificar. Muitos acreditam que a explicação de algo é a justificativa desse algo, tal visão pode ser mostrar inadequada em muitas situações. Primeiramente explicar algo é dar os motivos desse algo. Os motivos podem ser morais, culturais, estéticos, ontológicos e mesmo transcendentais. Justificar, por outro lado, é expor não apenas os fundamentos, mas os objetivos para que algo seja ou deva ser de um jeito e não de outro. Explicar é mais simples porque implica em descrever algo que existe ou aconteceu sem precisar aprofundar as circunstâncias desse algo. Posso dizer que cheguei atrasado ao trabalho porque acordei tarde ou posso dizer que aconteceu uma paralisação na rodovia devido a uma  manifestação contra o pedágio.

Se digo, por exemplo, que Mariazinha estuda muito e, por isso tira boas notas, estou dando uma explicação, não justificando as boas notas de Mariazinha. Talvez se a prova fosse mais difícil, Mariazinha tivesse se “dado mal”, assim como toda classe. Na verdade, ela estuda muito, talvez porque goste de estudar, dê valor ao estudo. Eu não posso dizer que ela estuda muito porque gosta de tirar boas notas, porque se fosse assim, todos seriam estudiosos. E mesmo estudando muito Mariazinha poderia tirar uma nota ruim por ser muito burra ou ter tirado boa nota estudando pouco, por ser um gênio. Podemos perceber que justificar algo é mais complexo do que, simplesmente, explicá-lo.

Escrevi o que esta acima para compreendermos de forma mais justa certas colocações de natureza religiosa e filosófica. A lei do carma e a reencarnacão, por exemplo, não procuram justificar o mal ou o sofrimento, mas explicar a sua origem. Uma explicação, muitas vezes, é suficiente para não colocarmos em dúvida a justiça de Deus ou o valor da nossa própria existência. Pode ser necessária para proporcionar a fé aos que não a possuem ou mantê-la em outros. Você pode achar que a fé é uma graça de Deus oferecida sem que as criaturas precisem se esforçar para isso. Certamente, poderia ser assim, mas não entendemos porque Deus não a distribuiria a todos, pois, quando a distribuiu não levou em consideração o mérito de cada um, segundo a crença em uma fé gratuita.

Podemos mesmo dizer que muitos têm fé sem precisarem de grandes explicações. Acredito que isso seja ótimo, muito louvável mesmo. O problema é que nem todos são iguais e o importante é ter fé, seja por um motivo ou por outro. Se você está com fome, não faz muita diferença se a sua fome terminou com feijão ou com arroz. Prefiro a fé com motivo a fim de não enganar a mim mesmo ao acreditar em coisas impossíveis, mas cada um tem o direito de ter a fé do jeito que bem entenda. Observe a importância de analisarmos com cuidado muitas coisas que afirmamos por acreditarmos em nossas crenças.

Recentemente alguém comentou que um menino de dez anos foi assassinado por roubar carros e e já estar envolvido em muitos eventos criminosos de outra natureza. Aos dez anos já havia não “apenas” roubado carros, mas se envolvido em outras atividades ilegais demonstrando que antes dos dez já possuía um comportamento inadequado. Certamente, que uma sociedade mais fraterna, mais justa e com mecanismos de proteção social mais adequados poderiam diminuir tais acontecimentos de onde os jornais retiram os seus leitores. Não há boas razões para se duvidar que a sociedade tem, algumas vezes, sua cota de culpa nos problemas que enfrenta. A pergunta, porém, é: problemas sociais estão relacionados com a criminalidade, mas podem explicá-los totalmente? Podem justificá-los?

Falamos das favelas, por exemplo,  como se elas fossem o local principal onde as maldades e desgraças ocorrem. A inflação pode matar mais pessoas que todas as armas. Se você não tem dinheiro para a compra do remédio adequado para uma doença grave, você não somente pode morrer, como provavelmente morrerá. Se faltam verbas ou se as mesmas foram desviadas para fins ilícitos, então, o saneamento que não foi feito matará muito mais crianças e adultos com doenças infecciosas do que a violência mata. Isso não sai nos jornais e não passa na maioria das cabeças pensantes do país. Não se imagine que a inflação foi criada nas favelas, onde os produtos costumam ser mais baratos. A criminalidade existe em abundância, independente do meio social, diferindo apenas em seus aspectos exteriores.

O trânsito mata sessenta mil pessoas no Brasil todo ano. Você acredita que o trânsito é assim devido a injustiça social? As pessoas que mais roubam neste Brasil são as com maior nível de escolaridade e que tiveram excelentes pais e mães. Em uma favela a esmagadora maioria trabalha por um salário ruim, pega ônibus lotado, cria seus filhos honestamente. Podem não ter a educação que temos, podem não frequentar os melhores restaurantes ou nunca ter ido à Paris, mas tem mais gentileza que muita gente bem vestida e instruída que anda em belos carros e saíram de excelentes faculdades.

Em um engarrafamento observamos milhares de motoristas seguindo lenta e resignadamente na estrada, enquanto alguns trafegam rapidamente pelo acostamento. Muitas pessoas dizem: o brasileiro é desonesto, olhe aí o pessoal pelo acostamento. Estas pessoas esquecem que o brasileiro em sua maioria esta no engarrafamento e que uma minoria trafega pelo acostamento. Podemos falar que um povo é desonesto quando a maioria trafega pela estrada, acorda cedo, paga suas contas? Devem existir em termos percentuais mais pessoas desonestas no Brasil que na Suíça ou pode ser que os desonestos no Brasil encontraram leis e outras condições mais favoráveis ao pleno desenvolvimento de suas habilidades desonestas. Deixo essa resposta aos professores e mestres.

O carma não justifica a indiferença ou injustiça social, a reencarnacão não justifica a maldade extrema existente em muitos espíritos. Um espírito maldoso não é apenas um espírito atrasado do ponto de vista evolutivo, mas alguém que desequilibrou a si mesmo durante muitas encarnações. Os espíritos são criados simples e ignorantes, como acredita o Espiritismo. Não foram criados com maldade ou cinismo.Uma pessoa que demonstra inadequação para viver em harmonia com outros, mesmo na primeira infância, é alguém que já nasceu com esta condição. Certamente, a sociedade poderia e deveria contribuir de forma mais intensa para a harmonização desta pessoa, mas é simplório querer explicar e justificar tudo colocando sempre a sociedade como sendo o problema do ser humano, quando na verdade a sociedade é melhor entendida como a ação desse homem atormentado e infeliz que vivendo juntos, não poderiam deixar de expressar aquilo que são.

Chico Xavier ficou órfão aos cinco anos, apanhava de sua madrasta, lambeu ferida, foi traído por amigos, considerado louco por toda sociedade, acusado de embusteiro pelos próprios espíritas e, no entanto, foi Chico Xavier. Este é um exemplo conhecido, mas todos podem se lembrar dentro da própria família exemplos de dignidade e nobreza onde esperaríamos encontrar um adulto desajustado se levássemos em consideração as condições de sua história de vida. O contrário também é verdade ao observarmos jovens e adultos bem criados se envolvendo ou produzindo eventos lamentáveis.

As coletividades receberão espíritos mais evoluídos quando, por esforço próprio, melhorarem as condições sociais e emocionais de seus membros. A sociedade é o próprio homem ou mulher que nela vivem, somos nós. A sociedade ou a civilização não são uma  engrenagem misteriosa que tem consciência e age por si mesma. Espíritos perturbados ou cruéis reencarnam em sociedades semelhantes a eles mesmos ou onde suas presenças se façam necessárias para que o homem perceba a inadequação do mal e, mais rapidamente, se decida pelo bem.

Transformar o indivíduo em mero produto do meio é algo agradável para os espíritos desonestos e cruéis, mas é desmerecer a própria humanidade que cada um representa, é desmerecer a obra de Deus que existe em cada um de nós. É uma ficção acadêmica ou simples resultado da ignorância em relação ao ser espiritual que somos. É preciso ficar atento para não aceitar idéias que, no fundo, são contrárias as nossas convicções mais profundas ou que desmereçam a nossa capacidade de pensar.

João Senna.
Salvador, 9/06/2016

O PAPEL DO GRUPO ESPÍRITA NA FORMAÇÃO DO ESPÍRITA

O centro espirita, por se vincular à codificação espirita, apresenta-se como inestimável local  transformado em genuína escola de almas. Resultado do ensino dos espíritos superiores, possui inigualável fonte de verdades espirituais e roteiro insuperável para a evolução dos espíritos. Não apresentando hierarquia, líderes carismáticos ou gurus, permite o livre intercâmbio de opiniões e experiências, enriquecendo cultural, emocional e moral a todos os que dele participam.

Nesta escola de almas é onde se aprende a arte de viver, em uma vivência espiritualista que, embora vinculada ao mundo por imperativo de nossas existências, não se prende ao mundo, pois, percebe que a vida na Terra é um meio e nunca um fim em si mesmo. Aprende-se a utilizar o corpo e dele se libertar quando for necessário, valoriza-se as aquisições materiais apenas quando estas auxiliam a evolução moral e intelectual de quem dela sabe utilizar-se.

Neste local onde as almas se reúnem para melhor evoluírem, é natural que ocorram divergências de opiniões na troca benéfica de experiências. De onde surge esta divergência, sendo o Espiritismo um só e claro em suas afirmações? Por que ocorrem interpretações diversas e opiniões muitas vezes contrárias sobre o mesmo tema? Primeiramente, surge da liberdade que se tem de pensar com “a própria  cabeça” e andar “com as próprias pernas” como se diz popularmente. Doutrina sem casta sacerdotal, sem hierarquia e dogmas, todos possuem o direito à livre interpretação da codificação espírita. Mas não é apenas este o motivo de tantas discordâncias, que nos fazem até imaginar a existências de vários Espiritismos, em vez de apenas um, como de fato ocorre. Analisemos abaixo alguns destes motivos e vamos enumerá-los para melhor compreensão.

1- Capacidade de reflexão

Sabemos que a capacidade de refletir profundamente um tema varia consideravelmente de pessoa para pessoa. Alguns possuem uma grande capacidade de entendimento sobre temas variados, enquanto outros são menos felizes em fazê-lo. Esta capacidade variada é compartilhada entre diferentes palestrantes e no público que ouve suas colocações. É comum o mesmo público ouvir opiniões contrárias sobre o mesmo tema devido a diferentes opiniões expostas por diferentes palestrantes. É causa comum de confusão e erro no ambiente espirita, mas plenamente compreensível quando compreendemos os diferentes níveis evolutivos dos espíritos, como nos ensina o Espiritismo.

2- Ausência ou insuficiência de estudo

Entre pessoas esclarecidas e mesmo palestrantes, percebe-se algumas vezes a pouca familiaridade com livros fundamentais como O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo O Espiritismo. O Espiritismo é profundamente filosófico e exige reflexão demorada sobre um mesmo tema a fim de se obter algum grau de entendimento que, ainda assim, irá se aperfeiçoar com o passar dos anos. Não é hábito comum o estudo regular das obras da codificação, prefere-se os romances ou a repetição do que se ouviu dizer. É o Espiritismo “de ouvido” ou “de romance” como costumo chamar. Não está errado aprender assim, o erro surge em querer aprender apenas desta forma, atribuindo ao outro a responsabilidade que cabe a cada um. Não podemos emprestar o nosso cérebro e deixar que pensem no nosso lugar. O palestrante e o nosso amigo podem estar imbuídos da melhor intenção, mas estarem profundamente errados em algumas de suas convicções. Assim como erramos, eles também erram.
3- Preconceito e orgulho

A maioria de nós ou provavelmente todos nós, levamos preconceitos para nossos estudos e convicções. Deturpamos o que lemos, inconscientemente, para que o texto confirme idéias erradas que nos habituamos a cultivar. Gostamos de nos comportar de determinada forma e tanto gostamos que “não conseguimos” ver algo além do que queremos ver. O orgulho e o preconceito alteram o nosso entendimento de forma desastrosa e comprometem o nosso desenvolvimento moral e intelectual. Um exemplo é quando dizemos que julgamos à nós mesmos no tribunal da consciência, embora o Espiritismo nunca tenha feito tal afirmação. Em O Livro Dos Espíritos está escrito: as leis de Deus estão na consciência. Muitos interpretaram apressadamente e concluíram que nós mesmos julgamos a nós mesmos, não tendo DEUS nenhuma participação. Colocamo-nos como seres autônomos e capazes de tal realização, pois, é gratificante pensar assim, é um mecanismo de auto-reivindicação para estar independente do julgamento de Deus. Certamente as leis de Deus estão na consciência para não alegarmos desconhecimento da lei quando desrespeitamos a lei de Deus, mas entre conhecer uma lei e julgar a si mesmo existe uma grande distância.

4- Reducionismo cultural

É tendência frequente reduzirmos a realidade ao nosso campo de conhecimento. O psicólogo tenderá a interpretar todas as coisas a partir de fatores inconscientes, arquétipos, figuras parentais e outros aspectos na dependência da escola psicológica a que se filia. O médico tenderá a interpretar a felicidade como o resultado de substâncias liberadas no cérebro e tenderá justificar a caridade baseado no fato de que o amor libera substâncias que dão prazer, como se a caridade fosse justificada pelo prazer e que deveria ser abandonada caso nos trouxesse desprazer. Assim o sociólogo, o advogado e outras profissionais tendem a reduzir a concepção espirita ao seu campo de atuação. Evidentemente, a doutrina espírita se encontra na codificação e não nas especializações, embora, possamos usar nosso conhecimento para melhor entender o Espiritismo, mas nunca explicá-lo. O Espiritismo explica a si mesmo. É um corpo doutrinário completo, harmônico, racional e com evidências experimentais.

4- Idolatria

Evidentemente, o movimento espirita possui grandes exemplos de fidelidade doutrinária, fortaleza moral, desenvoltura cultural e intelectual. O problema surge quando se tornam ídolos seguidos por seus fãs. Neste momento compromete-se a reflexão, abandona-se o estudo e o movimento espirita compromete-se parcial ou totalmente num atavismo compreensível a muitas religiões, mas nunca à religião espirita que não possui ídolos ou fãs, embora, existam exemplos dignos de serem seguidos.

5-Processo obsessivos

Todos estamos sujeitos à perturbação, apenas os espíritos puros como Jesus estão imunes a tal processo. Os espíritos podem perturbar o entendimento através de fascinação, o tipo de obsessão onde as idéias e comportamentos mais absurdos são aceitos como normais. Temos visto tal realidade em palestrantes, grupos de estudo, grupos espíritas, médiuns e, em alguns momentos em nós mesmos. É um estado de difícil resolução, quase sempre tem a vaidade como principal motivação.
6- Intelectualismo

Muitos possuem a tendência a um racionalismo radical não confirmado pelos fatos. Apegam-se a aspectos de elevada abstração. Desconsideram fatores emocionais e o sentimento para tudo justificarem através de processos, aparentemente, lógicos. Utilizam termos pouco compreensivos que vão buscar em áreas estranhas ao Espiritismo e fazem muito sucesso nas pessoas que se deixam influenciar por palavras bonitas e pensamentos que revelam conhecimentos desconhecidos pelos próprios espíritos superiores.

7- Cientificismo

Redução do Espiritismo a evidências científicas. Transformação dos grupos espíritas em cientistas improvisados cujo conhecimento se encontra em local desconhecido e incerto.  Raramente um grupo espírita oferece condições para a pesquisa espírita ou para o desenvolvimento exclusivo de temas científicos. Fatores culturais e sociais limitam esse desenvolvimento. Não se pode fugir à realidade social sob pena de se fazer uma caricatura de ciência espirita e não uma real ciência espirita. Temos visto algumas tentativas, quase sempre desastrosas. Felizmente o Espiritismo no Brasil não enveredou, ou melhor, não super-valorizou o aspecto científico do Espiritismo. Ainda não temos pessoas capacitadas para tanto, talvez, em institutos e federações Espíritas  possamos encontrar embriões deste aspecto.

8-Igrejismo

Em que pese o respeito às diversas religiões, o Espiritismo não se adequa à condições estranhas ao seu corpo de conhecimento. Certamente, nem todos os grupos espíritas podem ter uma desenvoltura maior no aspecto filosófico e científico do Espiritismo, mas tal realidade não implica em tornar o Espiritismo uma religião idêntica ou muito semelhante à outras religiões. O pensamento mágico, o formalismo e a idolatria de médiuns, dirigentes  e palestrantes não é admissível nos grupos espíritas, são hábitos que transportamos de antigas religiões a que estivemos linguados. Troca-se o santo pela figura do médium insuperável e infalível.
O Espiritismo é uma religião no sentido filosófico, mas não se confunde com as demais religiões tanto em seu conteúdo doutrinário, em seus aspectos formais e na sua estrutura social.

9-Conclusão

Muitos outros aspectos poderiam ser abordados em relação ao centros espíritas. No Brasil, o maior país espirita do mundo, o aspecto religioso é mais evidente. Por que tal ocorre? Simplesmente porque as pessoas procuram os grupos espíritas em busca de consolação e conhecimento espiritual. Poucos querem ou precisam entender sobre a dinâmica dos fluidos espirituais ou a fisiologia do perispírito. Posteriormente, algumas pessoas irão se interessar por tais temas e poderão se formar grupos de estudos específicos ao interesse dos participantes.

Os aspectos morais ( religião espirita) são mais valorizados por ser este o principal objetivo do Espiritismo. O papel do Espiritismo e, portanto, do grupo espirita é tornar o Espirita uma pessoa  mais bondosa, não uma pessoa mais inteligente ou culta, embora, tal deva ocorrer ao longo da nossa existência. Kardec afirma que conhece-se o verdadeiro espirita por  sua transformação moral e pelos esforços que faz para melhorar-se. Observemos que Kardec não fala sobre transformação  intelectual ou esforço cultural, por que isso cabe às escolas, aos pais, à organização social. O centro espirita diferencia-se de outros locais por ser uma genuína escola de almas onde Jesus é o mestre e a codificação Kardeciana o local seguro onde podemos compreender os seus ensinos.

João Senna.
Salvador, 18/07/2016

É CERTO SER ERRADO ?

Vivemos uma época de grande expansão do conhecimento. Estudos revelam que a cada cinco anos dobra a quantidade de conhecimento some-se a tal fato a facilidade e a velocidade com que o mesmo se dissemina. Bem, isso não é novidade e não precisaríamos comentar o óbvio. O problema é que o óbvio, por ser óbvio, nem sempre é percebido. Hoje, qualquer pessoa pode escrever e falar ao grande público. Se digo qualquer pessoa, não quero com isso desmerecer ninguém, mas apenas dizer que nem sempre o que se diz na tribuna ou para o grande público das redes sociais é algo que se ensina ao próprio filho. Hoje, como no Velho Oeste, o conhecimento e os meios de comunicação são terra de ninguém.

Certamente, se a maioria dos que se aventuram a exporem sua “sabedoria” à opinião pública através de blogs, email ou palestras estivessem preparados para tal atividade, não haveria problema. Mas a questão é que tais precauções quase nunca são respeitadas. Fala-se de física quântica com a mesma naturalidade com que uma cozinheira revela segredos culinários para sua filha. Não é preciso nem saber o que é a tal de física quântica e já se fala em salto quântico, passe mediúnico quântico, sucesso quântico e, ultimamente, corrupção quântica. Aventura-se em quaisquer áreas do conhecimento após a leitura de um único livro. Não haveria qualquer perigo se a pessoa que fala ou escreve expusesse sua “sabedoria” como sendo uma opinião e não uma verdade revelada por Deus. E não haveria inconveniente algum se a platéia que os ouve soubesse separar opinião de fato, desejo de verdade e que no fim, todos saíssem mais esclarecidos ou, ao menos, pensativos.

Recentemente, em um Reino Distante, ouvi certas colocações em uma palestra. Primeiramente, a palestrante nos ensinou que em termos de comportamento não existe certo ou errado, que tudo é relativo na vida e que não há mais local para preconceitos em um mundo pluralista e democrático. O que é certo para você, é errado para mim. Errado? Comecei a ficar confuso na palestra…Lembrei-me da minha professora de português ou de minhas provas de matemática e história e fiquei triste de não ter sabido de tais verdades antes, pois, poderia ter pedido revisão das provas, revelando à insipiência de meus mestres que, afinal, tudo era relativo e que, portanto, deveriam reconsiderar minha nota e aumentá-la em respeito à verdade recém descoberta: não existe o certo e o errado.

Desconfiando da minha inteligência no início, tentei reconsiderar minhas velhas e superadas suposições de que existe o certo e o errado, a verdade e a mentira e todos essas esquisitices de uma geração que está quase no fim. Ao olhar para o rosto dos cerca de oitenta ouvintes, fiquei muito mais preocupado ao perceber a expressão de alegria e aprovação da inebriada platéia que parecia ter presenciado a vitória de seu time em final de campeonato baiano de futebol. Pensei comigo mesmo: estaria enganado todos esses anos? Afinal, quem falava era uma professora de faculdade, uma quase senhora de aparência distinta. Estaria eu com algum distúrbio mental todos esses anos para não perceber que não existem o normal e o patológico, o certo e o errado? Que não haviam comportamentos auto-destrutivos e que tudo, afinal, era apenas uma questão de perspectiva?  Faltando cinco minutos para terminar a palestra, a emérita professora colocou uma tabela apontando os comportamentos inadequados que todos nós temos. Surpreso me lembrei que ouvira em algum lugar a poucos minutos que não existiam verdades ou certezas e, aliviado percebi que não era apenas eu que estava confuso. A confusão era geral e, infelizmente, somente eu estava não somente confuso, mas também perplexo.

Uma questão não se encontrava respondida: por que é tão atraente acreditar-se que não existe certo e errado, o que equivale dizer que não existe a verdade ou que não existe uma forma coerente de se viver ou se comportar? É uma resposta que precisa ser “respondida” com muito cuidado, pois, não somos capazes de penetrar a mente das pessoas para descobrir os motivos e, tampouco, temos esta intenção. Acreditamos que todos podem cuidar da própria vida. O problema é quando convicções particulares se tornam públicas. Neste exato momento, o que eu digo ou que você disser, serão patrimônio comum. Não é possível expor idéias a pessoas que você não conhece eacreditar que, por isso, todos devem concordar.

É, ou parece ser, um pouco antipático falar de comportamento adequado e inadequado, coisas certa e coisa errada. Talvez, essa sensação se origine da intolerância religiosa, da luta política pelo poder sem considerar os reais interesses do público. Talvez, por encontrarmos muita hipocrisia em muitos que expõe a moral para o outro e não a aplicam em si mesmos. Todos estes fatores são verdadeiros, mas impedem que exista a verdade? A hipocrisia de uns, desmerece a sinceridade de muitos? O fato é este: impossível viver como se não existissem valores morais objetivos, onde o certo e o errado são reais e não apenas pontos de vista. Não vivemos apenas baseados em opiniões e, nas questões importantes queremos certezas, não palpites.

É possível viver acreditando que a pedofilia é apenas um comportamento não aceitável, por não ser comum em nossa sociedade? É possível aceitar que as mulheres na Etiópia tenham parte de seu órgão genital externo retirado para que nunca sintam o que é dado aos homens sentirem? É possível defender tal costume bárbaro alegando fatores culturais e deixar as jovens entregues a própria sorte? Muitas morrem de infecção, todas sentem dor e todas terão problemas psicológicos inexistentes em outros países. É aceitável que as crianças do sexo feminino em partes do oriente não possam estudar, sob a alegação de fatores religiosos que não eram praticados há um século atrás e que agora surgem do nada?

Certamente que não sou eu que irá impor certezas e valores para outras pessoas, mas entre saber conviver com a diferença e acreditar que não existam comportamentos ou idéias contraditórias ou claramente funestas, vai uma distância tão grande como a distância que existe entre uma demonstração matemática e promessa de político feita próximo à eleição.

A virtude da tolerância não pode ser usada para o culto ao relativismo moral e comportamental. Na vida privada cada um poderá fazer o que achar melhor, mas quando idéias e comportamentos saem da vida pessoal para se imporem à todos, nessa etapa deve o indivíduo considerar a própria consciência e a racionalidade de que dispõe, sob pena de permitir que outros acabem por dominar o seu modo de ser, pensar, sentir e se comportar, sob pena de imporem a seus filhos e amigos algo que você sabe ser errado.

João Senna.
Salvador, 11/06/2016