SOMOS TODOS EGOÍSTAS?

A ação moral legítima exige que o bem seja feito sem segundas intenções. No evangelho Jesus ensina que “a nossa mão direita não deve saber o que faz a nossa mão esquerda” revelando que devemos fazer o bem ao próximo sem ter a intenção de ser elogiado por outras pessoas. Assim, o bem legítimo somente o é, aquele que representa a nossa real intenção e não o desejo de ser elogiado ou ter outro ganho secundário ao fazer o bem.

Observamos que em nenhum momento, Jesus exige que não sintamos prazer em fazer o bem, que não possamos ter no bem uma real satisfação ou um objetivo que dê sentido à nossa existência. O próprio Cristo revelou que seu desejo era fazer o desejo de seu Pai que estava nos céus. Paulo afirma que a caridade se rejubila com a justiça e com a virtude, que tudo suporta, que tudo crê. Não há incompatibilidade entre a ação caridosa e a alegria de servir.

Uma corrente de filósofos e psicólogos defende a tese que todos agem por egoismo. Alegam que a caridade não só representaria o amor, mas a satisfação de se sentir poderoso ao ajudar alguém. A pessoa caridosa estaria provando a si mesma e aos outros que possui recurso superior àquele que foi ajudado por ela. A piedade não seria originada do desejo de diminuir o sofrimento do outro, mas em perceber que o outro poderia ser nós mesmos no futuro e dessa forma, no fundo, estaríamos ajudando a nós mesmos, mesmo sem o sabermos.

Não é fácil entender como esses filósofos chegaram a essas conclusões ( talvez observando comportamentos inadequados de algumas pessoas que fazem o bem por interresse?) O mais difícil é entender como de um conjunto restrito de pessoas, estenderam o conceito para todas as pessoas.

Não há duvidas que muitos estudam somente para passar de ano ou tirar boas notas como se diz comumente. Não existiriam, então, pessoas que gostam de estudar? Por que muitos não percebem o valor do estudo, estaria o estudo destituído de valor? Não poderia a cultura e o estudo serem valores reais para muitas pessoas? Estariam destinados ao imediatismo e, por que não dizer, relegados ao mundo das frivolidades? Por que a abnegação, a benevolência e a piedade não poderiam estar em igualdade de situação? Quantas pessoas perdoaram, sem que o mundo ou o perdoado ficassem sabendo?

O egoísta não é aquele que deseja o bem somente para si. Esta pessoa seria melhor classificada como desequilibrada mental, não egoísta. Por que alguém iria querer todo o bem somente para si? Alguém deveria ou poderia lucidamente querer todos os carros somente para si?  Todo o dinheiro ou toda a felicidade para si e passar a viver em um mundo de loucos e infelizes? Este não é o egoísta.

O egoísta é aquela pessoa que está disposta a prejudicar o outro para obter seus interesses. Aquela pessoa infeliz em si mesma que, raramente pensa no bem alheio, exceto, quando este bem poderá beneficiar a si mesma. A que calcula todo benefício prestado, que não fere o menor interesse para beneficiar o próximo. Que nada faz sem esperar recompensa, que só ajuda as que podem ajudá-la.

o cristão sabe que fazer o bem é seu maior interrese, mas não exige que seu interesse seja colocado em primeiro lugar ou que o bem do próximo seja diminuído. Não aceita que seu bem seja mantido ou aumentado em detrimento do bem alheio. O cristão esquece o benefício que presta, porque aprendeu a ser feliz com o bem que realiza. Não faz o bem como demonstração de suposta superioridade, mas por amar seu semelhante. Prejudica o seu sustento material e a própria alegria se for preciso, para servir o seu semelhante.

Não é ser egoísta sentir felicidade ao servir, isto é ser humano. É compreender que o bem encontra-se na estrutura do universo e assim como nos sentimos satisfeitos após nos alimentarmos, assim também devemos sentir alegria após um gesto de amor. Os egoístas, os endurecidos do sentimento, os indiferentes, todos eles são os que ainda não aprenderam a alegria de amar.

joão Senna.

salvador, 30/08/2016

COMO IDENTIFICAR OS ESPÍRITOS?

 

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Uma dificuldade na atividade espírita é a identificação dos espíritos. O que é identificar alguém? Os espíritos nada mais são que as almas dos  homens e mulheres que, vivendo na Terra, deixaram este nosso mundo para continuar vivendo. A diferença é que nem todos os vêem ou percebem, apenas os médiuns. São, portanto, pessoas como todos nós e mantém suas características. A morte não os transforma em anjos ou demônios, sábios ou heróis.

O mesmo critério utilizado para caracterizar as pessoas com quem conversamos será o que utilizaremos na identificação dos espíritos. Em, O Livro dos Médiuns, Kardec descreve como será realizada esta identificação. Se observarmos bem veremos que tudo se pauta pelo bom senso, naturalidade é um uso criterioso da razão.

Em nossas conversas percebemos se alguém é educado através de seus modos, se é gentil através de sua disposição para ajudar e como executa essa ajuda. Identificamos uma pessoa culta pelo seu vocabulário bem empregado, pela vastidão de seus conhecimentos. Compreendemos a sabedoria de alguém pela beleza de seus ensinos, pela justiça em suas colocações. Assim devemos fazer com os espíritos.

Se alguém convive com pessoas desonestas e o faz com prazer, se adquire seus vícios com satisfação, poderemos acreditar que pessoas honestas queiram conviver com tal pessoa e elaborar atividades úteis por grande período de tempo? Se dispõe de pessoas honestas e de boa vontade para se vincularem ao trabalho do bem, por que escolheria as menos dispostas para junto a esta pessoa realizar o trabalho da caridade e do esclarecimento espiritual junto à sociedade? Assim, os espíritos bondosos também se vinculam às pessoas bondosas, honestas e dispostas ao sacrificio de seus interesses imediatos para servirem a uma causa maior.

Devemos observar o comportamento moral do médium como um dos critérios para acreditarmos na veracidade de suas comunicações. Não significa que os espíritos bondosos sejam preconceituosos, tal fato revela apenas que não podem pedir algo para alguém que não tem esse algo para oferecer. Simples questão de lógica e respeito ao grau evolutivo de cada um.

Poderá um espírito muito evoluído utilizar um médium pouco moralizado, pois, todos podem participar no trabalho do bem, mas não é possível fazê-lo por longo período ou utilizar esse médium em detrimento de um médium com melhores disposições morais. Os motivos já foram expostos acima.

Outra forma de identificação dos espíritos é a sua linguagem. Não é possível que espíritos zombeteiros e maldosos se utilizem de uma linguagem com alto conteúdo  moral. Podem, evidentemente, tentar imitar algumas frases de efeito, mas o conteúdo geral da mensagem revela a superficialidade ou a maldade de que são imbuídos. Em uma mensagem ou outra acabarão se revelando. Um espírito que se diz filósofo não poderá falar obviedades ou tratar de assuntos pueris e de forma a fugir de uma lógica básica. Da mesma forma um espírito que se identifica como físico não poderá cometer erros grosseiros de física em contradição com o que revela a mais básica ciência. O mesmo se aplica aos poetas e espíritos pintores. Se o grupo que irá analisar a mensagem não possui os recursos culturais e intelectuais para tal análise, procure em outros grupos ou pessoas a orientação necessária. É importante que grupos e médiuns não se isolem, pois, podem estar sob o jugo de um processo de fascinação coletiva por parte de espíritos obsessores.

Se a mensagem tem um caráter familiar, se é endereçada a um membro específico da família? Neste caso a análise é mais rigorosa, sobretudo, se trata de mudanças de conduta ou conselhos aos familiares. Deverá o espírito oferecer provas de que é realmente ele que escreve ou fala. Estas provas serão mais específicas na medida em que a mensagem assume um comprometimento maior da parte de quem a recebe. Não pode ser genérica, mas precisa conter fatos e informações que somente o espírito e o familiar poderiam saber. Na mensagem de filhos ou filhas desencarnadas o médium deverá oferecer nomes de familiares que desconhece, datas, pormenores impossíveis de o médium saber. Em respeito à própria respeitabilidade do espiritismo, deve ser assim. Se assim não for, irão se multiplicar falsos médiuns na busca de aplausos, pois, a fraude ou  manifestação de animismo poderá ter muitos motivos além do financeiro. O médium, sobretudo, o médium espírita não poderá cobrar, mas o fato de não cobrar em dinheiro, não faz que sua mensagem seja automaticamente autêntica.

Análise racional de tudo o que for recebido. Não importa se o médium é famoso nacional e mesmo internacionalmente. O médium, mesmo que tenha um trabalho de caridade imenso, ainda assim sua mensagem mediúnica deverá passar pelo crivo da razão. Não estamos analisando o médium, mas a mensagem transmitida através do mesmo. Não importa se você se sente bem junto a este médium, se ele o faz feliz. Não podemos transformar a atividade espírita em uma questão pessoal, de disputa e prestígio de grupos ou pessoas. A atividade espírita é uma questão de amor e racionalidade livre de personalismos. A identificação dos espíritos se utiliza da moralidade e da biografia do médium, mas não termina nesse ponto. Este é apenas um dos aspectos da análise de um texto espírita.

Existem questões em que a fidelidade do médium, sua capacidade mediúnica e sua caridade são essenciais para acreditarmos em suas mensagens. Muitas informações do mundo espiritual não são passíveis de serem demonstradas racionalmente. A existência de automóveis no mundo espiritual é, de certa forma racional, pois, nem todos os espíritos tem capacidade de volitacão como aprendemos em O Livro dos Espíritos. A existência de ministérios ou funções desconhecidas por nós, devem ser analisadas dentro de um contexto maior. A moralidade do médium, sua capacidade de filtrar com grande neutralidade a mensagem, sem componentes anímicos intensos. A linguagem do espírito, a lógica interna do livro. Um exemplo é o livro Nosso Lar. Neste livro percebemos grande coerência lógica e com linguagem adequada ao que propõe decrever. Enfim, exige estudo, bom senso, moralidade, humildade  e análise crítica a identificação dos espíritos. Não é algo sempre fácil, mas está longe de ser impossível.

João  Senna.

salvador, 29/08/2016

 

 

 

O AMOR E A FELICIDADE

A felicidade é o objetivo a ser alcançado pelos espíritos em evolução. Podem variar o que nos faz feliz, mas uma vez lançado o estado de felicidade, nada mais parece ser necessário. Aristóteles define-a como o ser em seu estado de máxima potência. É tão relevante que perguntamos ao ser amado: eu te faço feliz? Ou ao menos prometemos a felicidade para alguém. Juramos fidelidade eterna para que esta promessa não seja desfeita pelas dificuldades do caminho e não venhamos abandonar o ser amado na busca de nossa própria felicidade. É verdade que temos objetivos diversos na existência e que procuramos ser feliz à nossa maneira e com nossos sonhos, mas ninguém foge da felicidade.

A questão inquietante e que nos deixa perplexos é que não encontramos alguém plenamente feliz, mas com momentos de felicidade. Não parece ser da nossa natureza manter um grau de alegria constante, sem flutuações, invulnerável as contradições e tristes surpresas do mundo. A simples perspectiva de que o ser amado não é tão feliz como nós, enfraquece ou anula a nossa própria felicidade. Não se pode ser verdadeiramente feliz sem amar. Como ser feliz se aqueles a quem amamos não estão felizes? Ou encontram-se doentes ou com problemas financeiros ou emocionais? Parece que, pelo menos na Terra não existe lugar para aquilo que procuramos, o maior tesouro da existência e a quem chamamos felicidade.

Se a felicidade plena não pode ser o objetivo maior da existência, por nos faltar aptidão e condições para segurá-la firmemente ao ponto de nunca escapar, qual seria o objetivo maior? Para aqueles que acreditam em Jesus este objetivo é o amor ao próximo. Nada preenche-nos de tanta alegria que fazer feliz aqueles que amamos. A felicidade de uma mãe ao ver passar o filho no vestibular é maior do que qualquer coisa que ela poderia alcançar para si mesma. É tão verdade isso que muitas mães ficariam doentes no lugar de seus filhos e existiria maior alegria que está? Se possível fora não daria a mãe a sua vida para salvar o seu filho e não ficaria exultante se isso fosse possível? Assim, descobrimos que o amor é maior que a felicidade e que tão juntos se encontram, o amor e a felicidade, que impossível é separá-los. O contrario do amor é a indiferença para com o próximo e ninguém é feliz quando não ama.

Que é, então, a felicidade? Será mera ilusão do ego como querem alguns? Será uma busca inútil a fim de disfarçar a falta de significado para a vida como querem os existencialistas? Ou a satisfação dos desejos e sonhos como advoga o materialismo, que nada enxerga além do que os olhos vêem? Aprendemos no Espiritismo que a felicidade não é deste mundo, mas que esta destinada a todos, desde que a procuremos na prática da caridade. Se a nossa felicidade for fazer ao outro feliz, então, poderemos ser feliz mesmo que nos falte tudo. Este estado de consciência é raramente alcançado neste mundo.

A felicidade não é uma finalidade ou algo que precise ser buscado, a felicidade é o estado dos espíritos que possuem o amor, o combustível e a razão da felicidade.  A felicidade é o resultado, o amor que permite a perfeição é a causa. Não podemos ter o efeito antes da causa, portanto, amar primeiro, ser feliz como consequência. Não devemos procures a felicidade como um desesperado ou um mendigo espiritual, pois, somos filho Deus. Se amamos  realmente o próximo, nada nos será impossível, a felicidade nos será dada por Deus em acréscimo de misericórdia, brilhará dentro de nós como chama imperecível  no coração dos que muito amam.
João Senna
Salvador, 23/08/2016

POR QUE NO BRASIL O ESPIRITISMO É TAMBÉM RELIGIÃO?

Um motivo de dúvida, inquietação e, às vezes, indignação é ter no Brasil o Espiritismo assumido um caráter religioso. Alguns vêem nisso um desvirtuamento das finalidades do Espiritismo, enquanto outros percebem neste aspecto o que ele tem de melhor. As opiniões se dividem sem chegar a nenhum objetivo prático, pois, mesmo os que pretender ser a doutrina apenas uma ciência, fazem suas orações e pedidos para os espíritos. Não é muito diferente de alguém que faz um pedido de casamento para Santo Antônio ou uma cura para São Lázaro. Poucos se socorrem da codificação e da Revista Espírita onde Kardec discorre mais minuciosamente sobre o fato de ser ou não o Espiritismo uma religião.

Em O Livro Dos Espíritos e em O Que É O Espiritismo, Kardec declara não ser o Espiritismo uma religião, enquanto na Revista Espirita ( dezembro de 1868) declara ser o Espiritismo uma religião no sentido filosófico. Escreve textualmente ” Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvidas, senhores! No sentido filosófico o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a doutrina que funda os vínculos de fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da natureza.”

Esclarece Kardec que, quase sempre, as pessoas associam religião à dogmas, hierárquica e rituais, práticas que são incompatíveis com a visão espírita. Deste fato social, desta visão um tanto estreita do real caráter da religião, Kardec não teve outra opção a não ser caracterizar o Espiritismo como não sendo religião a fim de que a sociedade não visse na nova doutrina uma variação das velhas concepções religiosas. O codificador em sua prudência não poderia ir contra as idéias enraizadas na sociedade que não compreendia, como não compreende em nossos dias, o que caracteriza a religião.

Na Revista Espírita o próprio Kardec declara que uma religião se caracteriza pelo sentimento que uma pessoa tem com Deus, religião é um laço, pois, une todos os homens na comunhão do bem. Uma reunião de caráter religioso se caracteriza pela comunhão de pensamentos em direção a um objeto superior, o que também caracteriza uma reunião de natureza espírita. Não se ora para Deus cientificamente, tampouco filosoficamente, mas religiosamente. O passe magnético é um ato de amor, não um ato científico, embora tenha ciência em sua aplicação.

A finalidade da religião é tornar o homem melhor. Ora, para isso não necessita de rituais, imagem ou hierarquia. Tais características associadas à religião, na verdade, são formas sociais da construção da religião, não a essência da religião. Se não existissem, nem por isso as religiões deixariam de cumprir as suas reais finalidades. O Espiritismo não é contra tais práticas que se estabeleceram nas religiões formalmente constituídas, mas não faz destas práticas uma necessidade para se caracterizar uma religião. Ligar o homem à Deus é o que o Espiritismo faz de melhor e temos neste fato ser o Espiritismo uma religião.

O que caracteriza a religião é a sua finalidade, não a forma exterior em que se apresenta. Portanto, o Espiritismo é também uma religião, mas não no sentido como o povo entende a religião. Interessante que Kardec declara que se orgulhava de ser o Espiritismo uma religião, nesse aspecto já mencionado. Isto deixa transparecer não haver qualquer inconveniente em assim caracterizarmos o Espiritismo, desde que entendamos qual o sentido que damos a este termo.

No Brasil o Espiritismo assume todos os seus aspectos: filosófico, científico e religioso. Os que são contrários ao aspecto religioso se utilizam da definição que Kardec dá ao Espiritismo quando afirma “O Espiritismo é a nova ciência que explica a natureza, a origem e o destino dos espíritos, bem como sua relação com os homens”. Esquecem de também apresentar a afirmação de Kardec quanto este declara ser o Espiritismo uma religião no sentido filosófico, como já exposto acima.

Por que no Brasil assume a doutrina este aspecto religioso? Simplesmente porque em nosso país o Espiritismo foi totalmente aceito, não somente nas partes mais convenientes ou inteligíveis as pessoas, enquanto, na própria França é apenas pálida sombra do que foi à época de Kardec. O aspecto científico do Espiritismo é sua base de demonstração, são a prova material do que afirma. São os fatos catalogados e submetidos à experimentação mediúnica. Enfim, são as evidências de que os espíritos existem, influenciam nossa conduta em variados aspectos. É a base do Espiritismo e nunca lhe negamos o valor insubstituível.

O aspecto filosófico são as respostas que retiramos da ciência espírita. Somos seres espirituais e imortais? Então, devemos viver de acordo com esta realidade. Nossas ações boas e más praticadas nesta vida tem consequências após nossa morte? Então, devemos viver com vistas a essa outra realidade que nos espera. De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Eis as respostas que a filosofia espírita nos apresenta. Entretanto, é uma filosofia diferente, pois, suas conclusões derivam dos fenômenos obtidos nos experimentos mediúnicos, não é um conjunto de especulações que se fundamentam apenas em jogos de raciocínio ou axiomas aceitos pelo senso comum. É, pois, uma filosofia científica, a única no mundo.

Ciência e filosofia: fatos e consequências. Que dizem para nós? Serão apenas objetos de especulação filosófica? Ou de experimentação científica? Iremos a grupos espíritas para observar a realidade do fenômeno para depois retirarmos algumas conclusões? Seremos orientados por cientistas do Espiritismo ou por seus filósofos?  Todos os países onde o movimento espírita permaneceu apenas nestes dois aspectos da doutrina, duas coisas aconteceram: o Espiritismo desapareceu ou ficou restrito a pequenos grupos sem importância ou influência social. Tornou-se uma reunião de “filósofos” ou “cientistas”

No Brasil o Espiritismo encontrou o seu completo desdobramento. As reuniões espíritas não são apenas encontros de natureza intelectual ou científica, mas um aspecto importante na vida pessoal de cada elemento do grupo. O Espiritismo nos une à Deus porque nós permitimos que ele assim o fizesse. Nós fomos dóceis aos ensinos dos bons espíritos, não fomos apenas aqueles que questionaram, mas também aqueles que exerceram a caridade. O amor ao próximo não é uma consequência da ciência espírita, como não é de nenhuma ciência. A ciência espírita apenas revela a existência do amor, na continuidade da vida dos nossos entes queridos que vivem no além túmulo, mas a ciência não desperta inevitavelmente o sentimento que nos une ao Espiritismo.

A filosofia espírita informa onde vamos, mas não que devamos ir de mãos dadas. Podemos nos informar e aceitar os aspectos filosóficos e científicos do Espiritismo, mas este é o ponto de partida, não possuem o poder de nos tornar melhor, apenas mais esclarecidos. Muitos permanecem nessa fase do Espiritismo. Kardec os denomina de espíritas imperfeitos ou espíritas experimentadores.

A religião espirita é o que acontece quando a ciência espirita e a filosofia espírita passam a fazer parte indispensável da nossa vida, e não apenas um dado da cultura ou um fato experimental. Quando a filosofia e a ciência espírita passam a fazer a fazer parte importante do ser, nasce a religião espirita. O Espiritismo não nasceu apenas para demonstrar a imortalidade da alma e a comunicação com os espíritos, veio para tornar o homem melhor. Não devemos perguntar por que o Espiritismo tem no Brasil um aspecto religioso, como também não nos perguntamos por que O Evangelho Segundo O Espiritismo faz parte da codificação, pois é um livro nada científico e muito religioso. Devemos nos perguntar por que, em algumas nações, o Espiritismo não assumiu um caráter também religioso e por que desapareceu ou se tornou pouco relevante para essas nações.

João Senna
Salvador, 19/08/2016

QUE É SER ESPIRITA?

O ser humano é algo que supera a biologia. Seria mesmo impróprio classificá-lo como um mamífero ou o produto da seleção natural. Claramente vivemos de forma diferente daquilo que se esperaria de um ser regido apenas por fatores fisiológicos ou mero produto da adaptação das espécies. Em nós a biologia adaptou-se ao nosso modo de ser. Isso ocorre porque somos muito mais o resultado de nossas crenças que o resultado de nossas células.

O Budismo entende perfeitamente a influência de crenças sociais e individuais no equilíbrio do ser. Fundamenta-se em um conjunto de propostas: pensamento correto, desejo correto, sentimento correto, linguagem correta e, por fim, ação correta.

O Espiritismo concorda com o Budismo nos aspectos acima mencionados, mas acrescenta a caridade como alvo maior do indivíduo, subordinando pensamento, desejo, sentimento e ação à realização de uma vida caridosa.

Se o indivíduo supera o condicionamento biológico através de suas crenças, o Espirita deve viver de acordo com o Espiritismo que, afinal, é sua crença maior. Percebemos porque apesar de ser útil, lógico e belo, o Espiritismo ainda não foi recebido de braços abertos pela humanidade. É por que tem de  lutar com crenças muito queridas, idéias e desejos que estão sedimentadas no inconsciente coletivo e individual. Sua batalha é muito mais o resultado  da luta que tem de travar contra os interesses pessoais ou institucionais e não a consequência de lhe faltar provas ao que afirma ou não ser condizente com as exigências da razão.

Ser Espirita é ter no amor ao próximo não somente uma virtude dos santos, mas uma obrigação das pessoas comuns.

Ser espírita é fazer o bem a todos e não somente para os seus irmãos em crença.

Ser Espirita é ajudar o próximo sem interesse, mesmo sabendo que o interesse maior de todo espírito é amar o seu irmão.

Ser Espirita é abdicar de um céu fácil e maravilhoso, para retornar à Terra quantas vezes for necessário para adquirir o amor e a sabedoria indispensáveis à sua felicidade.

Ser Espirita é ter a fé que remove as maiores dificuldades, que pode encarrar a razão face à face em todo lugar e a qualquer tempo.

Ser Espirita é ser cristão. Ter como maior objetivo a esperança no futuro, a consolação do aflito, a proteção à criança e ao idoso, o prestígio às obras de caridade, a exaltação à cultura, o enobrecimento da inteligência. É ter irrestrita  a confiança em Deus.

Ser Espirita é estudar os ensinos de Jesus, procurando viver de acordo com o que nos ensina o evangelho.

Ser Espirita é  acolher o desconhecido, mesmo que este tenha comportamento e idéias contrários ao que acredita.

Ser Espirita é ser contra o erro e o desespero, mas ser amigo de quem erra e o abrigo dos que se afligem.

Ser Espirita é permitir ao outro ser o que é, sem ofender ou falar mal daquele que erra, sabendo que cada um faz o que acredita ou deseja, mas que deverá prestar contas de seus atos à Deus e não ao espírita.

Ser Espirita é seguir os bons conselhos e a glória de Jesus de Nazaré e como nos ensina Emmanuel, entre os males desta Terra não falar mal de ninguém.

João Senna
Salvador, 18/08/2016

O MOVIMENTO ESPÍRITA É TÍMIDO ?

Todos sabemos que o Espiritismo é uma doutrina filosófica, científica e religiosa ( moral ). Em que pese esta característica, nossa doutrina não se encontra solta no mundo ou escondida dentro de bibliotecas, lares e livrarias. Não, pois, ela vive dentro do ambiente social que convencionou-se chamar de movimento espírita. Nesta organização viva e vibrante, o Espiritismo se expande com seus frutos de esclarecimento e consolação. Influencia o ambiente cultural, o meio jornalístico, novelas da televisão, cinema e a vida de milhões de simpatizantes. Podemos dizer com absoluta convicção que a idéia espírita está no ar e contamina mesmo aqueles que não a conhecem.

Os resultados tão promissores de nossa bela filosofia espiritualista gera entusiasmo em muitos de seus adeptos. Ora, o entusiasmo não é algo inócuo, tem seus efeitos e um deles foi a ânsia que muitos possuem de que o Espiritismo ganhe o mundo e vença, de um só golpe, a teimosia dos incrédulos, a ignorância espiritual de muitos e o medo de alguns. Acreditam, nossos amigos entusiasmados e preocupados, que devemos acelerar o passo. Queixam-se da morosidade com que o movimento espírita se apresenta. Crêem que deveríamos implementar propagandas arrojadas, mudar a linguagem da própria doutrina para que esta se adapte aos novos tempos encontrando o seu lugar seguro junto às forças sociais. Reivindicam mudanças de paradigmas, novas formas de fazer palestras, uma nova pedagogia no ensino doutrinário, uma didática moderna para que, enfim, o Espiritismo mostre ao mundo toda a sua utilidade.

Em que pese a boa vontade que muitos espíritas revelam ao querer acelerar os passos do movimento espírita, temos que refletir se tais idéias possuem respaldo nos princípios espíritas. Será que a aceitação do Espiritismo será o resultado de uma propaganda mais agressiva e abrangente, de uma mudança no modo de ” fazer” Espiritismo? Bastará que juntemos forças e dinheiro para melhor divulgar a nossa doutrina, a fim de que a mesma possa mudar para melhor a paisagem moral do mundo?  Na Revista Espírita e no livro O Que É O Espiritismo, Kardec nos revela que não.

Kardec declara que o Espiritismo não veio para competir com as religiões estabelecidas, mas auxiliá-las a comprovar o que elas mesmas tem como artigos de fé. Se o Catolicismo e o Protestantismo declaram que sobrevivemos após a morte, o Espiritismo traz os mortos para conversar conosco. Se as religiões de origem cristã afirmam a virtude da fé, o Espiritismo enfatiza a fé racional demonstrando ser a fé não apenas um desejo ou necessidade psicológica, mas uma realidade que se revela nos fatos e na existência de cada um. Quando as religiões declaram a justiça de Deus e a excelência de uma vida virtuosa, o Espiritismo traz o depoimento de espíritos que choram e lastimam não terem vivenciado a virtude do amor ao próximo e do perdão, traz ainda a declaração do estado feliz destinado aos espíritos que na Terra viveram para o bem e são os próprios espíritos que assim descrevem a realidade que a todos nos espera.

Não tem interesse o Espiritismo em converter católicos ou evangélicos, se a estes a fé que professam os tornam felizes e homens de bem. Não, nossa doutrina não deseja roubar fiéis, mas fortalecer a fé dos que a possuem e fazê-la se desenvolver nos que duvidam. O Espiritismo destina-se aos ateus, demonstrando que uma vida sem Deus e com a expectativa do nada é uma vida que não merecem. Nossa doutrina vem mostrar a eles que suas vidas são mais preciosas do que imaginam e, por isso, não podem extinguir-se. O Espiritismo vem trazer a paz para as mães em desespero pela morte de seus filhos. Haverá maior dor que esta? A fim de realizar esta tarefa não se faz necessário que o mundo se converta ao Espiritismo, mas se torna indispensável que o espírita compreenda a sua doutrina para melhor representá-la. Não são necessários recursos pedagógicas ultra-modernos, basta apenas a palavra amiga e sincera que convence mais que belos discursos.

O mundo não pode tornar-se espírita por decreto ou por propaganda. Quem não conhece no Brasil Chico  Xavier? Quem não ama ou despreza o Espiritismo? Ninguém lhe é indiferente. São duzentos milhões de brasileiros e seis milhões de espíritas. O Espiritismo não é uma questão de número, mas de fidelidade ao que se crê. Não pode estabelecer-se nas almas imaturas, nos que se comprazem nos vícios ou nas que permanecem voluntariamente indecisos. Não se destina aos que possuem uma crença sincera, uma religião que os anima a se tornarem homens e mulheres de bem. A aceitação dos postulados espíritas é uma questão de maturidade do senso moral como declara Kardec, não uma questão de propaganda, maneiras diferentes e criativas de realizar palestras ou atrair multidões. O Espiritismo precisa que a humanidade amadureça e abandone as paixões que lhe atravancam o progresso moral. Certamente uma filosofia espiritualista verdadeira e racional poderá facilitar tal objetivo, mas cabe ao próprio homem dar o segundo passo em direção ao Espiritismo, porque o primeiro já foi dado a cento e sessenta anos.

João Senna.
Salvador, 18/08/2016

É PRECISO CORAGEM PARA ABRAÇAR A VERDADE

Inicialmente pensava em dar outro título a este texto. Coloquei que deveríamos ter coragem para encontrar a verdade, mas lembrei-me que cada um pode ter uma visão diferente do que seja a verdade, embora, a verdade como todas as coisas, deva ser uma só. Não temos dois amarelos, dois tipos de honestidade ou dois sapatos direitos de um mesmo par, por que existiriam um par de verdades? O nosso problema fundamental não é se podemos descobrir a verdade e nem mesmo se ela existe, o problema maior é: uma vez encontrando a verdade poderemos nos ligar a ela? Poderemos abraçá-la com a mesma disposição e alegria que abraçamos alguém que amamos?

Gosto de assistir vídeos no you tube para saber o que pensam nossos mais famosos filósofos, nossos políticos e pessoas comuns como eu, sobre as infindáveis questões que com razão ou não, nos afligem ou despertam a curiosidade. Qual o comportamento dos espíritas e religiosos sobre questões que discordam? Quais os argumentos de que se utilizam? O quanto realmente se debruçaram sobre o pensamento alheio para compreendê-lo ou apenas se entristeceram ao encontrar alguém que não compartilhava de suas idéias. Somos rigorosos para avaliar se o pensamento alheio é acertado, conseguimos usar a mesma racionalidade e rigor em relação às nossas próprias convicções?

Podemos analisar o grupo espírita a que pertencemos com a mesma isenção usada para analisar o grupo alheio? Não irei me referir as demais religiões, pois, não fazem parte da minha realidade existencial. Conseguiremos compreender o defeito dos outros grupos como compreendemos os do nosso grupo ou não vemos defeitos em nossa casa, deixando-os como exclusividade para a casa alheia? Imagino que seja muito trabalhoso perceber a própria imperfeição, mas haverá forma melhor de nos aperfeiçoarmos? Se não percebermos o defeito que existe em nós, como iremos evoluir espiritualmente? Concordamos somente com o que admiramos ou sabemos concordar com aquilo que não gostamos? Sabemos distinguir idéias de pessoas ou concordamos com tudo o que diz nosso amigo e discordamos sempre das pessoas que nos são antipáticas sem nos importarmos se estão certas ou não?

Uma atitude desastrosa para quem deseje abraçar a verdade é ser fã de uma pessoa ou instituição. A idolatria é uma atitude de infantilidade emocional. Podemos amar sem precisar concordar sempre, podemos ser amigos sem precisar aceitar tudo. É quase regra idolatrar pessoas no movimento espírita. Formam-se grupos partidários de tal pessoa, espírito ou grupo espirita e passamos a ser contrário aos outros. Deveríamos discordar de idéias e condutas, analisar idéias e nunca analisar pessoas. Outra questão é achar que o que é diferente de nossa forma de ser e pensar é, necessariamente, falso.

Se um grupo tem uma forma diferente de dar um passe (chamam a isso de técnica do passe), logo surgem desconfianças. Será que não se pode chegar ao mesmo resultado por caminhos diversos? Se digo que vou à Europa, sou obrigado a ir de avião? Não posso ir de navio? Foram realizados estudos realmente científicos com análises estatísticas demonstrando a superioridade de uma técnica de passe magnético sobre outra ou tudo não passa de partidarismo ou visão apressada de resultados favoráveis? Estamos encantados por nós mesmos? O outro tem de estar errado para estarmos certos? Teríamos a coragem de mudar de opinião se os resultados do outro grupo fossem equivalentes ao do nosso grupo? O que vale para o passe magnético-espiritual, também vale para qualquer situação análoga. Temos abraçado pessoas e livros, não tanto por amor à verdade, mas por amor às nossas próprias idéias, amigos ou ao que nos é familiar.

Dificilmente as discussões de temas espiritas ou espiritualistas ficam restritos ao que a codificação kardeciana revela e observem que Kardec nos aconselha a usar a razão para identificar a verdade daquilo que cremos. Os espíritos superiores nunca nos pediram para seguir um livro, se nós seguimos a codificação espírita é porque a razão e a experiência nos revela que, realmente, é um trabalho de espíritos superiores. Se são espíritos superiores, como abandonar suas concepções para nos apegarmos às nossas?  Mas  tudo o que acreditamos deve passar pelo crivo da razão antes de ser aceito. Não acreditamos em algo apenas por estar na codificação espírita. Se não aprovamos o fanatismo e a leitura literal que outros religiosos tem em relação aos seus credos e livros sagrados, como iríamos aceitá-los dentro do Espiritismo?  Devemos nos lembrar que Kardec propôs que a fé inabalável é a que encara a razão face a face, não o Espiritismo face a face, pois, não somos fundamentalistas, somos racionais.

Enfim, é indispensável muita coragem para abraçar a verdade. É preciso coragem para aceitar a verdade, onde ela se encontrar, com quem estiver e em qualquer tempo. Temos um grupo de estudos de O Livro dos Espíritos onde muito nos esforçamos para estudar com razão e não apenas através com o que aprendemos em palestras espiritas, de amigos e de nós mesmos. Muitas vezes somos questionados por pessoas do grupo que ouviram ou leram idéias contrárias ao que o livro nos revela. Respondemos que cada um tem o direito de ter a sua interpretação ou não ter interpretação alguma caso não tenha lido o livro. Não baseamos nossas discussões no fato de quem disse isso ou aquilo ser famoso ou não. Respeitamos um grande líder espirita da mesma forma que respeitamos alguém que conheceu hoje o Espiritismo. Acreditamos que todos merecem nosso respeito e admiração quando são sinceros em suas convicções. Não analisamos racionalmente pessoas, analisamos racionalmente conceitos, definições e propostas. Sabemos do valor inestimável das palestras, dos amigos e de lideranças espíritas, mas não podendo exigir a perfeição de palestrantes ou instituições, exigimos de nós mesmos o uso da razão e a coragem de abraçar a verdade.

João Senna.
Salvador, 16/08/2016

A REENCARNACÃO É UM PROBLEMA PARA VOCÊ?

A crença em múltiplas existências é compartilhada por expressiva parcela da humanidade. A Índia  com seus novecentos milhões de habitantes é um exemplo. Alguns países da Ásia são reencarnacionistas e espalhados por todos os continentes existem pessoas que nela creem. Certamente a crença ou a descrença na reencarnação não irá determinar sua existência ou inexistência. Verdades não são resolvidas por votação, não são determinam por livros, autoridades e instituições. O que determina a verdade é a realidade, sem prestar reverência a desejos, pessoas ou instituições. Enfim, o que existe não precisa de permissão para existir.

Não iremos  analisar as provas ou evidências segundo alguns, favoráveis à reencarnacão, iremos  falar de algo mais simples e acessível: qual o problema se a reencarnação existir? Em que iria atrapalhar nossos sonhos? O que haveria de imoral em retornar à Terra? Em que diminuiria a missão e o amor imensurável de Jesus? Em que tornaria Deus um ser menos perfeito inteligente ou justo? Qual o obstáculo que acarretaria para nossa felicidade? Falando sinceramente: qual o problema da viver várias vezes, para quem já viveu ou está vivendo, seguramente, pelo menos uma vida? Se você veio uma vez na terra, qual o problema ou a irracionalidade de voltar novamente?

Se você cometeu algo terrível contra alguém, algo que não pode reparar nessa existência, seria ruim que pudesse reparar em vida futura?
Se alguém que você ama profundamente é obrigada a afastar-se de você por problemas econômicos ou de saúde, seria lamentável que você pudesse reencontrá-la em situação mais favorável?

Se pudesses aproveitar a experiência adquirida em anos de trabalho, retornando mais experiente para uma nova carreira, seria enfadonho que tivesse esta oportunidade?

Se você foi obrigado a interromper belos sonhos e ideais a fim de se dedicar a um parente doente ou em dificuldades financeiras, não seria uma felicidade poder ter uma nova oportunidade, vivendo com o mesmo parente em situação mais favorável?

Se abandonaste  um grande amor devido a sua própria incompreensão, você gostaria de aproveitar a oportunidade desprezada para amá-lo com acerto em nova existência?

Se comprometeste a própria saúde por atos impensados, se desprezaste o próprio talento buscando ilusões acalentadas pela leviandade ou inexperiência, não seria você digno de uma segunda chance se, realmente, estivesse disposto a corrigir erros e construir virtudes?

Se amaste profundamente teus irmãos, se amparaste os caídos, se defendeste os fracos, se guardaste a fé, se amaste o trabalho honesto e colocaste o interresse do teu irmão acima do teu próprio interesse. Qual o problema em voltares ao mundo para que continues o bom trabalho  que o Senhor te confiou?

Pensa em tudo isso e responde se Deus teria feito bem em criar a reencarnacão como um ato de confiança em você, como demonstração de generosidade e amor incondicional às criaturas que ele mesmo criou.

João Senna
Salvador, 25/08/2016

QUEM FEZ DEUS?

Hoje tive o prazer de ler um artigo publicado em o blog dos Espíritas. O tema foi Paradoxo Espírita: a causa primária. A questão surge quando, O Livro dos Espíritos, em sua questão número um, os espíritos definem Deus como a causa de todas as coisas e a inteligência suprema do universo. O suposto paradoxo surge ao perguntarmos: se Deus criou todas as coisas, quem criou Deus? Eis o paradoxo espirita. Costuma-se responder que essa questão encontra-se acima do nosso entendimento ou que se um dia encontrássemos o criador de tudo, perguntássemos a ele quem o criou. Não é preciso apelar para a nossa suposta ignorância ou insuficiente inteligência ou recorrer à fina ironia para resolvermos o paradoxo espirita.

Os espíritos respondem que Deus é a causa de todas as coisas, mas poderemos dizer que Deus é uma coisa? Teria sentido responder afirmativamente, quando não se está certo em ser Deus uma coisa? Parece-nos que não. Qual o argumento lógico que, afirmaria ser a inteligência uma coisa? Ou, alternativamente, que uma causa é também uma coisa. Os espíritos definem Deus como uma consciência, não lhe atribuem qualidades materiais ou corpóreas que necessariamente implicariam a existência de uma causa.

O que é uma causa, quais suas características? Podemos dizer que algo é causa de outro algo quando sem este algo, não haveria o outro. Assim, a mãe é a causa do filho, pois, sem a mãe não existiria o filho. É também evidente que a mãe nasceu antes do filho, pois, toda causa é anterior ao seu efeito. O filho é um ser material, tem ossos e músculos e, por isso, pôde ser construído no útero materno. Deus não é material para poder ser construído. Como algo poderia ser causa de Deus? Como fazer um ser não material? Assim os espíritos superiores o definem quando descrevem os atributos de Deus: imaterial, onipotente, onisciente.

Uma característica fundamental de Deus, característica exclusiva do mesmo é ser um ente eterno. Não existe nada eterno, senão Deus. Como a causa vem antes do efeito, como poderia existir uma causa para um ser eterno? Se Deus é eterno, nada lhe pode ser anterior e nada poderia ser a sua causa. A causalidade não se aplica a Deus e sim a coisas e coisas que tiveram princípio. Tudo o que teve princípio tem uma causa, mas Deus não teve princípio, logo não necessita e não pode ter uma causa. Não podemos fazer analogias entre a realidade de coisas materiais ou de nós mesmos com Deus. As coisas, nós e Deus são entidades distintas e, portanto, nem tudo que se aplica a coisas e seres vivos pode ser aplicado a Deus. Uma simples questão de lógica. Não se é obrigado a crer em Deus, mas se iremos crer, indispensável pelo menos entender o que estamos crendo.

João senna.
Salvador, 15/08/2016

DEUS CASTIGA? O QUE É UM CASTIGO NA VISÃO ESPÍRITA?

Em O Livro Dos Espíritos poderemos encontrar uma resposta mais confiável e racional para responder a inquietante questão: Deus castiga? Temos que compreender o significado do termo castigo para os espíritos superiores e sobre a ação de Deus em nossas vidas e no universo. Não adiantará procurarmos o significado da palavra castigo no dicionário ou em visões estranhas a concepção espirita. Os filósofos tampouco nos ajudarão, pois, não se trata de um jogo de pensamentos, mas em informações originadas do mundo dos espíritos, que é o local onde grande parte das consequências de nossas atitudes se desenvolverá, sabedores que somos que a lei humana não pode alcançar todas as nossas faltas.
Questão 680 de O Livro Dos Espíritos
Não há homens que se encontram impossibilitados de trabalhar no que quer que seja e cuja existência é, portanto, inútil?
“Deus é justo e, pois, só condena aquele que voluntariamente tornou inútil a sua existência, porquanto se vive a expensas do trabalho dos outros. Ele quer que cada um seja útil de acordo com as suas faculdades”

Percebemos da resposta 680 que a correção de uma falta leva em consideração o grau evolutivo de cada espirito, suas possibilidades, não sendo um mecanismo automático. Não é a condenação de um espírito um ato de vingança, mas decorre de uma necessidade de corrigir um erro. Esta correção tem relação com a necessidade do espírito, não é apenas uma satisfação dada por Deus aos que sofreram.
Sempre é levado em consideração o grau evolutivo porque a correção do erro a que o espírito é submetido tem por finalidade sua evolução, nunca sendo um ato de vinganças ou um simples pagamento de dívidas. Usarei um exemplo para que melhor possamos entender a questão.
Se um homem rouba outro homem, temos sempre um erro. Percebemos, entretanto, que se alguém rouba para alimentar seu filho, então, é menos condenável que aquele que rouba para satisfazer um desejo fútil, comprar um carro esportivo, por exemplo. Em ambos os casos, existe o erro, mas não se pode julgar com a mesma severidade as duas situações.

Questão 258 de O Livro Dos Espíritos
Quando na erraticidade, antes de começar nova existência corporal, tem o Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da vida terrena?
” ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste seu livre arbítrio.”
A) Não é Deus, então, quem lhe impõe às atribulações da vida como castigo?.
” Nada ocorre sem a permissão de Deus, porquanto foi Deus quem estabeleceu todas as leis que regem o universo. Ide agora perguntar por que decretou Ele esta lei e não aquela. Dando ao Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe deixa a inteira responsabilidade de seus atos e das consequências que estes tiverem. Nada lhe estorva o futuro, abertos se lhe acham, assim, o caminho do bem, como o do mal. Se vier a sucumbir, restar-lhe-á a consolação de que nem tudo se lhe acabou e que a Bondade divina lhe concede a liberdade de recomeçar o que foi malfeito. Ademais, cumpre se distinga o que é obra da vontade de Deus do que o é da vontade do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes vós quem o criou e sim Deus. Vosso, porém, foi o desejo de a ele vos expordes visto nisso um meio de progredirdes, e Deus o permitiu”

Do exposto percebemos que as leis de Deus preveem castigos para toda falta. Os espíritos declaram que Deus fez as leis da forma que estas leis são e, se quisermos saber, por que não fez Deus leis diferentes, deveremos perguntar ao próprio Deus. Poderiam as leis não determinar punições para nossas faltas? Bem, se Deus as fizesse dessa forma, certamente, poderia não haver nenhuma consequência dos atos que praticamos e não existiria o carma. O que fosse feito de errado em uma encarnação não traria nenhuma consequência para as próximas encarnações, mas não foi assim que Deus desejou.

Teremos que reparar o erro cometido, somos livres e esta liberdade abre possibilidades para o erro. Não somos livres, porém,  para não reparar o erro. Um exemplo nos fará entender. Um homem é livre para chutar uma parede, mas não é livre para não sentir a dor corrente do chute. Somos livres para semear, mas a colheita é obrigatória. A bondade de Deus nos permite corrigir o mal realizado. Na doutrina espírita não existe o inferno, pois, se o inferno existisse, representaria a impossibilidade de se corrigir o erro. O inferno é um lugar de sofrimento, não de correção. A ideia do inferno como lugar de sofrimentos eternos não é aceito pelo Espiritismo.

Vamos a outra consideração. Na literatura espirita, nos romances por exemplo. Lemos que um crime cometido em uma encarnação será pago em outra encarnação, quando não houve a possibilidade de ser corrigido na existência em que foi praticado. Nem sempre a correção será na próxima encarnação. É comum passarem-se várias encarnações, para somente então, haver a correção. Tal ocorre porque será nesta encarnação que o espírito estará em condições de aproveitar o aprendizado que virá de sua punição. Se assassinei alguém, posso vir a ter morte violenta alguma encarnações depois, digamos, quinhentos anos depois. Observem que não preciso ser assassinado, mas ter morte violenta. A lei não exige um assassino para matar o homem que cometeu assassinato em encarnação anterior.

O castigo é a punição para a infração cometida. Não se trata de “pagar” uma dívida anterior, pois, sendo assassinado não pagarei nada a ninguém, mas será um evento emocional importante para dar ao que assassinou, a real dimensão de ser assassinado. Nem tudo o espírito aprende intelectualmente, muitos tipos de aprendizado são feitos na prática. Se roubei, menti, trai ou matei,  não significa que terei que ser roubado, traído ou morto no futuro. Nem sempre será necessário este evento, pois, posso beneficiar aquele que prejudiquei através do amor. Poderei, por exemplo, receber a quem assassinei como meu filho em futura existência. Pagarei com amor o mal que lhe fiz. Se, entretanto, persisto no erro, poderei a sofrer as consequências de meus atos, consequências com papel educativo, para meu próprio benefício, mas que não deixam de ser um castigo para as faltas cometidas.

Cada espírito aprende a se corrigir de acordo com suas disposições íntimas. Alguns pelo amor, outros pela dor.  A consciência aceita o castigo ( correção), mas não é o próprio espírito que providência o castigo, mas Deus que o faz. Não temos competência para criar as condições necessárias envolvidas na correção de nossas faltas. Poderemos agir com muita severidade para conosco ou com muita leniência. O espírito não julga a si mesmo, Deus é que julga em última instância. Podemos, é claro, opinar sobre o tipo de correção que será imposta a nós mesmos ou mesmo reivindicar a nossa correção, mas não temos autonomia absoluta sobre o que nos sucederá. Na resposta dos espíritos temos “se um perigo vos ameaça, não fostes vos que o criastes e sim Deus. Vosso, porém, foi o desejo ( a consciência) de a ele vos expordes, por haverdes visto nisso um meio de progredirdes, e Deus o permitiu.” Novamente percebemos que o castigo é um mecanismo para possibilitar a evolução do espírito infrator da lei, não um capricho de Deus.

É o castigo um fato semelhante a um procedimento cirúrgico doloroso em que o doente sofre no pós-operatório, mas em seu próprio benefício. Foi o cirurgião que o operou, mas não por capricho, mas por absoluta necessidade. O doente consentiu por entender ser este o melhor procedimento. Não é a cirurgia uma espécie de castigo ou é um prêmio dado aos doentes? É com prazer que alguém se submeta a uma cirurgia ou é, antes de tudo, uma necessidade?Existem situações em que o paciente chega na emergência médica com risco de morte e o cirurgião irá operá-lo sem o seu consentimento, mas em benefício do paciente. Tal é a situação dos espíritos mais atrasados e que não se dispõe a corrigir o erro, o castigo poderá ser imposto aos mesmos, mas sempre no interesse dos mesmos, sem atender-lhes o capricho ou a vontade mal orientada.

Concluímos que Deus castiga, mas o castigo significa um meio de corrigir o mal praticado. O castigo está na razão direta da consciência que o espírito tem do erro cometido e do benefício que o castigo trará ao espírito. Se você acredita que castigo é uma vingança ou um capricho de Deus, então, você não entendeu a definição que os espíritos superiores tem do castigo e da real finalidade do castigo. Muitos acreditam que o espírito julga a si mesmo no tribunal da consciência e concluem que possuem total autonomia sobre suas vidas e todas as consequências decorrentes de suas faltas. Acreditam que espíritos atrasados ou relativamente atrasados possuem a sabedoria, a iluminação espiritual suficiente para sozinhos julgarem a si mesmos e darem a sentença adequada, nada mais restando a Deus que observar seus filhos inexperientes cuidando sozinhos de seu próprio futuro.

A palavra castigo, condenação e punição aparece inúmeras vezes no O Evangelho Segundo O Espiritismo, no livro O Céu E O Inferno, em O Livro Dos Espíritos. É necessário entender o significado dessa palavras no contexto da codificação. As pessoas discutem e ficam indignadas quando leem estas palavras, porque não compreendem o significado que os espíritos dão a estes termos. Castigo é um conjunto de medidas desagradáveis, mas necessárias à evolução do espírito. Castigo é um meio de aprendizado, não um meio de vingar-se. É um recurso pedagógico adequado ao grau de entendimento do aluno cuja lição necessita aprender. O castigo não é uma satisfação que Deus presta à vítima ( que pode ter sofrido devido a seu carma ou necessidade de aprendizado) e sim um recurso para que o espírito aprenda a se adequar às leis de amor e justiça, leis criadas por Deus em benefício de todos os espíritos.

João Senna.
Salvador, 14/08/2016