A HARMONIA DO SER

Um aspecto importante da existência é a harmonia do ser. Em uma perspectiva materialista, não poderíamos usar o termo harmonia, porque surgiria a pergunta: harmonia em relação a que?  A um Deus, estranho a esta concepção do mundo? Harmonia em relação a um universo material estranho aos nossos desejos e boas intenções? Harmonia em relação a uma geração futura ou a um desejo generoso ( ecologia)?  Em termos materialistas poderíamos usar o termo equilíbrio ou adaptação ao meio, mas nunca harmonia.  Este é o motivo de estudarmos a harmonia na perspectiva espiritualista, a única possível do ponto de vista lógico.

Que é o ser? Um projeto de Deus, nos revela a codificacão espírita. Diferente da concepção espiritualista comum, a perpectiva espiritualista de natureza espírita define que o ser, que é espírito, é criado simples e ignorante. Significa dizer que não nasce pronto, não é luz ou trevas, mas um material a ser trabalhado pelo meio e por si mesmo a fim de alcançar a plenitude: a perfeição espiritual. Este ser irá adquirir luz ou trevas, caminhará em direção ao bem ou ao mal, atingindo por fim a condição de ser angélico. A caminhada evolutiva não é padronizada, embora, obdeça à leis que revelam a inteligência infinita, a bondade infinita e a onipotência de Deus. Através do livre arbítrio, este ser caminhará na busca de refletir em si mesmo a ordem e a beleza universal na harmonia do seu ser.

Aprendemos na mitologia grega que Harmonia é uma deusa, filha de Afrodite ( deusa do amor) e Ares ( Deus da guerra). Estranho casal que poderá nos ensinar o objetivo da harmonia em nós. A primeira indagação é esta: por que o amor escolheu a guerra para se casar? Não poderia ter escolhido a fé, a esperança, o trabalho, a liberdade? Certamente que sim, mas para que serviria a harmonia sem ter um trabalho a fazer? Assim como a calma serve para os momentos difíceis, a harmonia é útil para a conciliação dos contrários e nada mais contrário ao amor do que a guerra.

A harmonia nasce da aceitação do outro, não de situações favoráveis. Esperamos que tudo esteja do nosso gosto para alcançarmos a paz, mas a paz e a harmonia  são necessárias não somente na tranquilidade, mas sobretudo para nos manter tranquilos e em paz nos momentos difíceis. Se não estamos em harmonia, procuramos aquilo que nos faz mal e nos afastamos daquilo que nos faz bem. Jesus nos disse “a minha paz vos deixo, a minha paz vos dou”, mas também revelou: “no mundo tereis aflições” Esta é a função da harmonia, nos manter em equilíbrio em meio ao desequilíbrio reinante.

De fato, a harmonia é um instrumento para a evolução do ser, não um estado final do ser. Nascemos para a perfeição, a harmonia é um meio, o amor ao próximo é o fim. Este é o motivo de no Espiritismo valorizarmos a meditação e a prece, mas como meios e não fins. A vida contemplativa e em constante meditação ou oração sem exercer a caridade, é uma fuga egoísta para o prazer. Podemos favorecer a harmonia com meditações e preces que são instrumentos poderosos para o equilíbrio existencial, mas que não são suficientes para nos levar à verdadeira harmonia. É indispensável uma confiança ardente na bondade de Deus como revelado em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Quando buscamos no outro o complemento daquilo que nos falta, quando exigimos do outro aquilo que não possuímos totalmente e que o outro ainda não pode nos dar, o que estamos fazendo? Muitos dirão estar procurando o amor, mas um amor mais parecido com um negócio. Amar não é colocar-se em uma situação de felicidade inalterável ou na conquista do que se procura, isso bem sabem as mães em relação a muitos filhos. O mesmo podemos dizer em relação à harmonia e à fé.

Esta perpectiva espírita revela o processo dinâmico da evolução espiritual, onde o mal se transforma no bem, onde a simplicidade é o ponto de partida da plenitude, onde a luz, o amor e a sabedoria eterna são alcançados  por um ser simples e ignorante, criado imortal a fim de que o Reino de Deus nele se instale de forma permanente e generosa, abrindo-se para vida  em frutos de caridade, sabedoria e fé.

 

 

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