O HOMEM QUE SE MATOU.

Não sei se ainda é o tempo do homem que se mata. Tinha um amigo que adorava dizer: no fim é o nada. Coisa estranha esse meu amigo. Nunca vi tamanha alegria em se acabar com a morte. E vivia assim de fazer propaganda dessa estranha certeza e ai daqueles que lhe contrariassem tal grave certeza tentando lhe dar um pouco de esperança. Algumas vezes lhe falava que por certo Deus não iria nos criar para nos matar e que mal não faria quem há viveu tanto, viver para sempre. Meu amigo me falava: mas que valor terá isso? Não vês que a finitude dá beleza à vida e que só tem valor o que se pode perder? Meu amigo era difícil de entender, e mais difícil era querer que encontrássemos alegria em suas palavras. Nos velórios nunca quis falar e ninguém o pediu.

Que dizer desta morbidez que ataca o mundo? Esse viver agoniado como se tudo fosse acabar? Nos pede a razão que esperemos que morram e vejam que não morreram, mas isso parece desforra. Viver como se fosse morrer é o mesmo que estar morto em vida. Tira a graça e o prazer, e quanto mais a vida for bela e digna, mais deveríamos lamentá-la, porque no final haveria o fim de tudo. Achar que morte tudo mata é a forma perfeita de dar sentido ao que é ruim e desmerecer o que foi bom e deu trabalho.

Assim era esse meu amigo e mesmo depois de morto não se conforma de estar errado e diz ter suas dúvidas se viverá para sempre, porque acha que um dia tudo pode acabar. O que percebo é que não vive feliz, esse meu amigo. Não tenho condições, mesmo depois de morto, de entender certas questões da alma. Somente sei que meu amigo é o homem que se matou em vida e continua morto agora.

médium: João Senna.

espirito: não identificado.

TENHO SAUDADES QUE VIRÃO

SOU FEITO DE SAUDADES DAS COISAS QUE VIRÃO.

BATE SEMPRE ESSA TRISTEZA FEITA DE UM TEMPO QUE AINDA NÃO CHEGOU. É UM TEMPO DIFÍCIL DE SE SABER, MAS QUE TEM O GOSTO DAS COISAS VINDOURAS, COMO A ESPERA DO FILHO OU O COMPROMETIMETIMENTO COM A PROMESSA FEITA

SOU FEITO DESSAS CERTEZAS FEITAS DE FUTURO, PORQUE NINGUÉM AS TEM NAS MÃOS, NINGUÉM AS PODE DETER. É UMA SENSAÇÃO GOSTOSA E SIMPLES, COMO DEVEM SER AS COISAS CERTEIRAS QUE O FUTURO NOS TRAZ. CHAMO A ISSO DE ESPERANÇA, PORQUE É ISSO QUE SE CHAMA O ESPERAR DO FUTURO.

AS COISAS QUE ESPERO, NÃO AS FAÇO POR VOCAÇÃO, MAS POR UMA NATUREZA DE ACREDITAR NAS COISAS QUE VIRÃO. É ALGO QUE SE APEGA A MIM DESDE CRIANÇA. ESSE OTIMISMO DOCE QUE NOS PERSEGUE SEM QUE NOS DEMOS CONTA.

NÃO HÁ MAL ALGUM EM CONFIAR EM ESPERANÇAS, DA MESMA FORMA QUE NÃO ME PREOCUPO SE ACORDAREI AMANHÀ, MAS DURMO TRANQUILO ESSE SONO DO FUTURO. NÃO VEJO NECESSIDADE DE COISAS RUINS, DE DESESPERANÇA OU AMARGURA, DE MÁGOAS OU REBELDIAS. NÃO ME DOU POR VENCIDO EM NADA, PORQUE SE O FUTURO EXISTE, ALGO MAIOR EXISTE QUE ESSA ÂNSIA DO PRESENTE. ACREDITO QUE O FUTURO EXISTE, É GUARDADO POR DEUS, LONGE DOS OLHOS DISTRAÍDOS E BULIÇOSOS DO BICHO HOMEM.

SOU FEITO DE FUTUROS COMO AS MANHAS SÃO FEITAS DE SOL, COMO AS GALINHAS CRIAM SEUS PINTAINHOS E OS PROTEGEM DA INSENSATEZ DOS HOMENS. SEMPRE ME SENTI UM POUCO AVE DE PANTANAL QUE PARTEM APENAS POR NECESSIDADE, MAS QUE RETORNAM NO TEMPO BOM. SOU FEITO DO BARRO DA ESPERANÇA.

 

médium: João Senna.

espírito: Manuel de Barros.

NASÇO DAS TUAS MÃOS

Das tuas mãos fiz as minhas mãos

feita de manhãs companheiras.

Dos teus sorrisos e que tecço as saudades

esparramadas no chão.

Os meus sorrisos pode levá-los

que novamentente os renovo

das coisas que tão alegres

e que recolho do chão dos ribeirinhos.

Sou movido à esperanças

como era movido à lenha o forno de minha avó.

Recolho de tempos antigos pedaços de

sentimentos com as sementes jogadas

no solo dos corações. Nem sempre vingam as

sementes, é terra difícil onde só crescem amores e flores,

mas destes que não se vão. mas jogues o que quiser,

não sou feito de mágoas, mas de benção que se

derramam no terreno de muitas vidas.

hoje estou plantando amizades e depois de um tempo,

que espero distante, vou colher belas saudades.

E assim vamos viver plantando a luz da fé que ilumina caminhos,

Colhendo esperanças dispersas feitas de sorrisos de crianças.

Não deixe o tempo passar sem jogar tuas sementes.

Médium: João Senna.

Espirito: Manuel de Barros (  ? )

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NASCI NUM DIA QUALQUER

Nasci num dia qualquer

como nascem os meninos

de manhã, de tarde, que importa?

ninguem viu bater os sinos.

E se houvesse alguém, decerto não

pensaria, que coisa tão pequenina

Valesse o bater dum sino. No sertão

sino só bate no nascimento do rico,

Ou na morte de um coitado.

Mas minha mãe me sorriu

ao ver nascer seu menino.

Mais fé quisera ter pra aliviar o destino,

Mas quem há te botar fé num menino

pequenino? Quem há de comemorar

e torcer pro seu destino?

Se o povo tivesse mais fé, certamente

investiria, não só em mim, mas em todos

os meninos sem destino. E não só louvaria Deus

em igrejas e conventos ou em tempos de eleição.

colocaria amor em tudo, não só naquilo que pega.

E olharia as manhãs como quem se surpreende

ao ver a amada chegar antes da hora marcada.

E faria o amor ao próximo fazer parte do currículo,

Pois não há nada mais importante na parte de qualquer vida.

que será deste menino?

Médium: João Senna.

Espirito. Não identificado.

 

 

EU TE DIREI

NÃO ENCONTRAS A ESTRELA QUE PROCURAS?

MAS SÃO TANTAS E TÃO BELAS,

PEGUE UMA DELAS E SEGUE CANTANDO.

ONDE O AMOR HABITA A ALMA SE SENTE ALEGRE.

NÃO BUSQUES NA LEMBRANÇA DOS QUE PARTIRAM

O QUE SOMENTE O AMOR TE PODE DAR.

NÃO  TE SURPREENDE QUE TODAS AS COISAS

SÃO BELAS E QUE NUNCA NOS CANSAMOS DE

OLHAR AS ESTRELAS? TUDO NÃO É UM MISTÉRIO

QUE SE REVELA SEMPRE MAIS BELO?

OLHA AMIGO, NÃO TE INQUIETES NAS PAISAGENS

DO MUNDO. TUDO TÃO DEPRESSA SE DESFAZ

QUE SOMENTE A ETERNIDADE LHES DÁ SENTIDO.

REPOUSA  A ALMA NO AMOR QUE TUDO PREENCHE,

AMANHÃ RENOVAREMOS OS VOTOS DE AMIZADE.

HOJE PARTIREMOS CEDO NA CARRUAGEM DA ESPERANÇA

E COLHEREMOS ESTRELAS NO CAMINHO E CANTAREMOS

O AMOR SEMPRE PRESENTE. HOJE BEM CEDO SEREMOS OS

ETERNOS AMIGOS QUE, VIVENDO A IMORTALIDADE,

RENOVAREMOS A AMIZADE EM OUTRAS MIL VIDAS.

NÃO IMPORTA SE NÃO NOS LEMBRARMOS DO QUE JÁ

FOMOS. O AMOR, MEU AMIGO, NÃO PRECISA DE LEMBRANÇAS.

VEM COMIGO E TE MOSTRAREI A AMIZADE FEITA DE ESTRELAS.

MÉDIUM: João Senna.

ESPÍRITO: Não identificado.

QUAL O SIGNIFICADO DE SER IMORTAL?

Uma questão inquietante é a imortalidade. Muitos acreditam ser uma pressunção acreditar-se imortal, são os materialistas. Como não podem conceber um ser de infinita bondade e poder que decrete a morte dos seus filhos no final de cada existência, então, não podem ou não querem acreditar em Deus. Uma pergunta oportuna seria essa: se é pressunção acreditar-se imortal, não seria um menosprezo a si memo acreditar que com a morte tudo se acabe? Não é fazer pouco caso de si mesmo e do outro acreditar que o valor da vida não seja tão grande para merecer a imortalidade?

Não é algo sem sentido acreditar que a crença na imortalidade seja um ato de orgulho ou medo da nossa finitude. Poderíamos, hipoteticamente, afirmar que acreditar-se imortal revele um desejo de grandeza ou um medo em relação ao nada. Que é um desejo infantil ou uma fuga da realidade não aceitar que a morte seja mesmo o fim de qualquer pretensão. Os materialistas acreditam que a crença em Deus e na imortalidade seja um pensamento mágico ou uma mentira piedosa que contamos para nós mesmos e para os parentes daqueles que faleceram.

Existe outra visão em relação à imortalidade. Não seria a imortalidade um símbolo do grandioso significado da vida? Que a vida seja a experiência digna da imortalidade? Que o amor que sentimos é algo não só belo e grandioso, mas que se eternize com a nossa imortalidade? Que não se gaste ou se acabe com o tempo? Que não seja um objeto de valor relativo, mas um valor absoluto, algo que deva ser preservado para sempre?

Se morrêssemos, tudo o que somos e temos se acabaria, inclusive, o amor. Também teriam o mesmo fim a vida nobre e a mesquinhez diária, que teriam o mesmo destino com a morte de seus representantes. O religioso não advoga a imortalidade como um passaporte gratuito para a felicidade. Ela envolve consequências diversas para quem amou ou não soube amar. O retorno ao mundo espiritual é garantido pela imortalidade, mas a situação boa ou ruim após a morte é garantida pela situação moral de quem retorna.

Imagine que hoje fosse o último dia da sua vida. O que você faria? Você poderia dizer para quem ama, o quanto essa pessoa é amada por você. Você poderia se vingar de quem detesta fazendo algo terrível. Poderia dizer muita coisa para seu chefe. Se a morte é o fim de tudo, inclusive de você mesmo, se você irá morrer hoje, então, qual o problema? Se não existe a imortalidade e qualquer consequência para seus atos, seja você uma ótima pessoa ou mereça receber o troféu de pior homem ou mulher do ano, qual a diferença entre o que você faria no último dia de sua vida?

Poderemos contradizer as linhas acima afirmando que fazemos o que é certo, por que é o certo e não por medo de consequências em um outro mundo, exista este mundo ou não. Sim, de fato, também  pensamos assim. O problema é que este argumento vale para os santos, não para pessoas comuns. Imagine se ninguém fosse para a cadeia ao matar ou roubar. Que fossem abolidas as multas de trânsito, as notas na escola, a fiscalização nas relações de trabalho.

Pense em uma sociedade onde não houvesse punições para nenhum delito. Você consegue acreditar que as pessoas comuns, não os santos, se comportariam de maneira honesta e cordial? Por quanto tempo os belgas e holandeses permaneceriam honestos se fossem abolidos o sistema judiciário em seus países? Se tudo ficasse nas mãos do senso comum de honestidade e bondade inata de seus moradores?

A crença em Deus e na imortalidade são indissociáveis e representam a maior garantia para a justiça na diversidade de consequências a depender da natureza daquilo que se fez. O bem gera o bem, o mal gera o mal. Não importa se você fez o bem sem esperar recompensa, aliás, o que é o ideal. Tampouco importará se você fez o mal na certeza de não responder à justiça dos homens, porque à justiça divina ninguém pode escapar.

A simples crença na imortalidade e suas consequências modifica totalmente a forma de ser no mundo. Os que realmente crêem na imortalidade e vivem essa crença, possuem diante de si uma responsabilidade imensa perante seus atos, mesmo que não existam leis humanas para puni-los ou incentivos para o bem. A imortalidade é amiga poderosa do bem. Muitos religiosos são acusados de hipocrisia, justamente, por viverem como se não acreditassem em Deus e na imortalidade.

Ninguém se espanta com o comportamento do ateu e do materialista, ninguém os acusa de nada e nada lhes cobra, porque suas crenças não envolvem qualquer significado moral, embora, não os impeça de terem valores morais, pois, queiram ou não são espíritos e vivem conforme a evolução espiritual que alcançaram.

Ninguém solicita da filosofia materialista a crença de que todos os homens são iguais ou que a solidariedade seja uma lei universal. Ninguém cobra isso do ateu, não porque ele não seja digno, mas porque o materialismo não favorece o bem. É simples assim e, intuitivamente, sabemos disso e nos escandalizamos muito mais com religiosos cometendo atos indignos e aceitamos ou entendemos com mais  facilidade o mesmo comportamento quando vindos dos materialistas.

COMO ESTAR SEMPRE CERTO?

Não venha dizer que não existe o certo e o errado. Se você disser isso, eu direi que você esta errado, você dirá que eu é que estou errado e, no fim, o certo e o errado voltarão a existir, embora, possamos não saber onde ele se encontre. Quando digo que existe certo e errado, não estou dizendo o que você deve fazer, porque isso é problema seu. Também não significa que eu esteja certo e você errado, pode se dar que ocorra justamente o contrario e aquilo que chamo de certo, esteja errado e o que acho errado, , seja o certo.

Se eu disser que não existe certo e errado, nessa hora sou a pessoa mais radical do mundo, menos democrática. Posso, agora, defender o nazismo e a democracia, porque nada è certo ou errado. Nessa altura, como digo sempre: tudo vale a pena, quando a alma é pequena. Se você não acredita em certo e errado, se você imagina que a verdade é sempre um ponto de vista, tão instável como opinião de político após vencer a eleicão. Se você acredita em tudo isso, então você não acredita em coisas verdadeiras e certas e passou a ser a pessoa mais radical do mundo: aquela que pode defender qualquer coisa.

Um problema surge para os que não acreditam em comportamentos  corretos: manter a fé em suas próprias idéias, ser convincente não para os outros, mas para si mesmos.Ter aquela vida ideal da modernidade, aquela forma de viver sem traumas, sem remorso e sem culpa alguma, nem uma hipótese de culpa ou arrependimento. Ideal, aliás, defendido pelos sofistas na Grécia e que agora resurge com alguma respeitabilidade no chamado relativismo cultural. É verdade que nem tudo precisa ser certo ou errado. Não é errado gostar de pocolé de jiló, só é incomum. O gosto de cada um nem sempre se adequa a categoria de certo ou errado. Claro que parece ser errado gostar de ver crianças sofrendo, mas esse é um caso especial.

Qual a consequência de não existir o certo e o errado? É o fato de você estar sempre certo. Na verdade, quem afirma tal coisa, quer sempre estar certo no que faz, sente e deseja. Não basta ser livre para fazer o que quiser, coisa que muitos já fazem. Eles querem abolir o conceito de certo e errado, o verdadeiro e o falso. De qualquer forma temos alguma regras para você estar sempre certo, pois, é isso o que ocorre quando você afirma não existir o certo e o errado.

1-nunca estude profundamente um assumto. Se voce fizer isso, perceberá que muito daquilo que eu digo e o que você diz nem sentido tem.

2- Fique o máximo possível distante de matemáticos e físicos. Essas pessoas são contra-indicadas para quem sempre quer estar certo. Eles falam de teorias bem fundamentadas e o que é pior: comprovadas experimentalmente.

3- de todas as pessoas inimigas do lema “não existe o certo e o errado” temos os matemáticos. Eles tem o péssimo hábito de defender contas exatas. Por exemplo: 2+2=4.  A soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre 180 graus seja na Paraíba ou em Paris. Afaste-se também dos físicos, pois, defendem que a luz viaja sempre na mesma velocidade em todo universo! Como podemos observar, dizem coisas terríveis para os relatitistas. Claro que os físicos não são terríveis como os matemáticos, mas são bem aborrecidos.

4- permaneça distantes dos médicos. Eles vão te dizer que fumar é errado, que emagrecer não é uma questão estética, mas de saúde. Tem também a mania insuportável de mandar você parar te tomar tanta cerveja. Ora, que cuidem de suas vidas! É verdade que os médicos não pediram para você ir ao consultório ou ao pronto socorro, mas não é desculpa para se intrometerem na sua vida, falando coisas desagradáveis como, por exemplo: existem comportamentos errados.

5- Leia apenas o que lhe agrada. Se você é espírita, afaste-se de obras clássicas. Emmanuel e André Luis não são bons para os que não acreditam na verdada ou, pelo menos, na sua busca. São espíritos contrários à muitos comportamentos, embora, sejam favoráveis à todas as pessoas promovendo o bem de todos. O problema é que eles acreditam na existência de coisas certas e erradas. Prefira os livros de espíritos mais condizentes com o seu pensamento. Que adoram alegorias, coisas fantásticas e sem racionalidade. Aliás, não seja simpático à razão, porque a razão não se intimida com autoridades, opiniões e muito menos vai se importar com suas ideias, opiniões e desejos.

6- procure conversar apenas com pessoas que concordem com você. Afaste-se de grupos de estudos, pois, esses grupos sempre buscam a verdade. Se assim não fosse, para que estudariam? Aproxime-se apenas das pessoas que pensam como você, gostem dos livros que você goste. Não lêem nada contrário ao que acreditam. Não ouvem os que discordam. Para que se aborrecer, se não existe o certo e o errado? O verdadeiro e o falso?

QUE É UM ATO MORAL?

O espiritismo é uma filosofia de consequencias morais. Significa que tem como objetivo atuar na sociedade como elemento transformador de costumes e, para isso, parte do único fator que poderia promover essa transformação: a moralização do indivíduo. Na visão espírita, a sociedade é o reflexo dos indivíduos que a compõe, não o contrário. Não significa que a sociedade não exerça influência no indivíduo, não somos estátuas inflexíveis ao que se passa ao redor, mas apenas afirmando que o indivíduo é o ator e o diretor no palco de sua existência.

A idéia de que é o indivíduo que faz a sociedade e não o contrário, é repudiada por sociólogos e antropólogos. Provavelmente isso reflita um hábito adquirido na faculdade ou apenas revele um desejo imenso de valorizar a própria atividade profissional elevando a sociedade ou a cultura como seu produto, como causa e solução de todas as coisas. É uma visão adequada e mesmo previsível para aqueles que desconhecem a realidade do ser espiritual como entidade real e autônoma. Compreendemos isto, embora, não aceitemos.

A ética é a parte da filosofia que estuda os valores morais, que nos informa o que é certo ou errado, bom ou mal, verdadeiro e falso, honesto ou mentiroso. Não é objetivo da ética dizer ou determinar como você vai viver, mas como você deve viver. E faz difetença? Sim, faz toda diferença. Dizer o que você e eu deveríamos fazer é esclarecer, é acreditar em valores que, provavelmente, você já acredita. Dizer o que você vai fazer ou impor o que você deve acreditar, desejar e fazer é ter poder sobre o outro e isso é imoral.

Na medida em que refletimos sobre a natureza de nossos sentimentos e atitudes, melhor podemos decidir por nós mesmos o que fazer, como fazer, quando fazer e para quem fazer. Muitas vezes nos arrependemos do que fazemos, simplesmente, porque percebemos que não foi o melhor que deveríamos ou mesmo  poderíamos ter feito. A filosofia espírita permite que todos possam melhor compreender a natureza de si mesmos, de suas atitudes e das consequências de seus atos. Por esse motivo tem consequências morais.

Quando afirmamos que o indivíduo é mero reflexo de forças sociais irresistíveis, estamos desvalorizando esse indivíduo e transformando-o em um boneco de carne. Estamos também admitindo que ninguém deva ser responsabilizado por seus atos, tornando crimes, contravenções e qualquer coisa que desaprovemos em algo indesejável, mas não passível de penalidade. Se o indivíduo é produto do meio, como poderemos responsabilizá-lo? Como iremos colocar o assassino ou o estuprador ou o corrupto na prisão ou impor a eles qualquer desestímulo para que não cometam o mesmo erro? Não deveríamos, antes, pedir desculpas a eles e responsabilizar apenas a sociedade?

Afinal, que é um ato moral? Entendemos, como Kant e o espiritismo, que é todo ato que tem por base uma lei imposta pelo próprio indivíduo a si mesmo. Esse ato moral não se fundamenta em consequencias ou meios, mas é um fim em si mesmo. Tratar pessoas e instituições como fins e nunca como meios é praticar um ato moral. O Espiritismo revela que as leis de Deus estão na consciência de cada um ( não que o indivíduo faça essas leis ou julgue a si mesmo). Kant declara que a razão confrontada com a prática diária seria capaz de determinar leis morais, independente, dos indivíduos.

Embora fosse religioso, Kant não considerou Deus Indispensável para fundamentar leis morais. Possivelmente, não desejou alegar fatores teológicos ou metafísicos para determinar o certo e o errado a se fazer. Não significa que Deus não possa ser a origem e sustentação das leis morais, o ser que lhes dá legitimidade e não somente coerência lógica. É um tema complexo que foge à minha competência ou objetivos teste blog.

Um exemplo nos fará comprender melhor o que é um ato moral. Se, digamos, faço o bem para ir para o céu, tal intenção é racional. Quem não desejaria ir para o céu? Até o ateu deseja, apenas não acredita que o céu exista. Seria, entretanto, um ato moral? Certamente que não. Devemos fazer o bem mesmo que fossemos para o inferno. Qual a mãe que não trocaria de lugar com o filho que se encontra no umbral? Percebemos que fazer o que é correto, é mais importante que a felicidade. É algo extranho de se dizer, mesmo para o espírita. Afinal, o espiritismo é uma proposta grandiosa, que nos valoriza muito mais do que nós próprios nos valorizamos.

É errado querer ir para o céu ou Nosso Lar? É errado desejar acumular bônus hora para ter um quartinho no mundo espíritual? Claro que não! Você quer ir para o umbral? Fazer o que lá? Turismo? Novas amizades? O errado é ajudar o próximo apenas pensando em se “dar bem” Não podemos fazer do próximo uma moeda de troca. Não podemos fazer do próximo ou da caridade um meio para atingirmos nossos objetivos. O próximo, a humanidade, a Caridade e a fé não são objetos para serem usados, são fins em si mesmos.

Chico Xavier atingiu a essencia do que Kant denomina de imperativo categórico e o espiritismo denomina o Dever moral. Deixou-nos a sentença que resume esse texto: “não ame pela beleza, porque a beleza acaba. Não ame por admiração, porque você pode de decepcionar, não ame pelo poder, porque as situações mudam. Ame, simplesmente, por amar. Ninguém pode destruir um amor sem motivo.

 

 

MUNDOS INFINITOS (poesia mediúnica)

Quando olhas para as estrelas, não percebes

Que, talvez, alguém olha para ti?

Que naquela galáxia distante, um belo rapaz ou

moça, se te visse, talvez se apaixonassem?

Não é sem sentido tanta amplidão sem ninguém

para apreciá-la? E não é verdade que teus olhos

jamais contemplaram tão grande beleza?

Vem, prostra-te aos pés, humilha-te, não

para seres pequenos e frágéis como tu, mas para

as estrelas que brilham no céu sem fim.

Repara que agora te acenam, e podes vê-los

e senti-los, já não se calam. Agora, que podes vê-los,

eles vêem a ti e, felizes como o sorrido da manhã

também cantam as belezas do céu. Não percebes

que o canto que sai da alma é feito de amor?

Não compreendes ainda que a tua força é a mesma que habita as

estrelas que habitam a casa de Deus? E se o amor é a alma

da vida, jamais te irás deixar de existir e viverás junto aos que

Habitam  as estrelas, eternamente, no amor de Deus?

Descansa agora, amanhã será preciso partir.

 

Médium: João Senna. Inspiração: Rumi.

 

KANT E O LIVRE ARBÍTRIO: visão espírita dessa questão

Aprendemos em O Livro dos Espíritos que os espíritos são criados simples e ignorantes. Significa dizer que não somos criados inteligentes, mas com a capacidade de nos tornar, assim como não temos livre arbítrio em nosso início como espíritos, pois, que este se desenvolve com a razão e a experiência. Inicialmente, nos primórdios da evolução do espírito, o mesmo é influenciado por outros espíritos e são estes que o arrastam para determinada situação ou atitude. Nos primórdios da evolução espiritual, Deus supre o espírito dessa falta de experiência e de livre arbítrio.

Gradativamente, com o desenvolvimento da razão e o aprendizado da experiência, o ser começa a realizar suas escolhas e o faz cada vez mais influenciado por si mesmo, por seus raciocínios e experiências. É o desenvolvimento do livre arbítrio. Temos desejos, sensações corporais, ou seja, em alguma medida somos comandamos pelos sentidos, somos seres sencientes. Não posso determinar se sentirei sede ou não, pois, é uma necessidade fisiológica ingerir água. Não sou totalmente livre, sou senciente.

A questão é que não são apenas desejos ou sensações ( a dor por exemplo) que nos comandam, somos também seres racionais. Essa é a proposta de KANT e do espiritismo. A razão é capaz de superar o desejo e os sentidos, em querer além daquilo que  “quer” a fisiologia, o corpo. O espiritismo ensina que, enquanto, estamos encarnados não somos verdadeiramente livres, ou seja, totalmente livres. Ainda assim a razão determinará nossas ações morais. Nesse aspecto Kant e o espiritismo estão de acordo. Talvez seja este o motivo da enigmática frase de Jesus: “a alma está preparada, mas a carne é fraca” Razão e instintos ( necessidades fisiológicas) habitam no mesmo ser que somos, pelo menos, enquanto encarnados.

O que é ser livre? Geralmente, a liberdade é considerada como a faculdade de escolher, de seguir caminhos diferentes. Kant afirma algo diferente. Ser livre é agir de acordo consigo mesmo, não de acordo com o desejo ou leis físicas ou fisiológicas. Se, por exemplo, bebo cerveja porque gosto de cerveja e apenas por essa causa, então, não exerço a minha liberdade, porque gostar de cerveja não foi uma escolha. Não dá para gostar ou não gostar de cerveja apenas raciocinando e dizendo a mim mesmo: vou gostar, não vou gostar. Entretanto, sou livre ao decidir não ingerir cerveja ou qualquer coisa ou situação que não dependam de minha plena autonomia, pois, nesse caso não fui escravo do vício ou do desejo a depender de cada caso.

Kant afirma que a razão não é escrava do desejo, das necessidades fisiológicas. Na medida em que consegue vencer os condicionamentos do automatismo fisiológico e psíquico, o livre arbítrio se desenvolve e somos verdadeiramente livres. Para os filósofos empiristas e materialistas, a razão serve apenas para identificar o desejo, as necessidades do corpo e atendê-las. É uma razão instrumental. Kant e o espiritismo discordam, pois, se fosse assim, muito melhor seria ser puro instinto como muitos animais e não ter uma razão escrava do corpo.

Para que serviria a racionalidade se não pudesse fazer nada senão obedecer a leis físicas e fisiológicas? Não estaria na superação pela razão das injunções do corpo um motivo para a Reencarnação? Em O Livro dos espíritos, aprendemos que quando encarnados somos mais nós mesmo. Significa que o corpo força o ser a intensificar seus objetivos, seus nobres ideias ou sucumbir as forças materiais quando não dispõe de uma vontade orientada para os sublimes propósitos da existência.

Somos verdadeiramente livres ao atender a uma lei que impomos a nós mesmos, uma lei de natureza moral que nos diz o que fazer, independente, das consequências e dos nossos próprios desejos. Jesus sintetiza, na cruz, essa realidade ao falar: “Pai, afasta de mim esse cálice ( sofrimento), mas seja feito a tua vontade, não a minha”

À medida que evoluímos, aprendemos a identificar as leis de Deus e submeter nossos desejos a esta lei. Gradativamente, as leis de Deus e as leis que impomos a nós mesmos passam a ser a mesma coisa. É o que chamamos de evolução espiritual. Assim como existem as leis da física que governam o mundo físico, assim também existem as leis morais que também são leis naturais e que governam o mundo moral ou do espírito.

Kant não reivindica a existência de Deus como fundamento da lei moral como o faz o Espiritismo, mas afirma que a lei moral é determinada por um tipo de razão: a razão prática. Por exemplo, se todos mentissem, a mentira cairia em total descrédito, por que ninguém acreditaria em ninguém e mentir não teria uma função. A mentira só tem razão de ser, enquanto, acreditamos nela. É o que Kant chama de razão prática.

Acredita, nosso filósofo, que a razão determina as leis morais e que estas são universais, porque a razão, embora, varie de indivíduo para indivíduo, não chega a ser uma questão pessoal. Racionalmente, todos chegam à conclusão que ser honesto é a única opção viável, assim como ter fé ou exercer a caridade. Isso se torna mais verdadeiro com a reencarnacão, realidade essa não considerada por Kant. Permanece a verdade do fato de que a razão não depende de pessoas ou cultura ou geografia.

Em O Evangelho Segundo O Espiritismo lemos sobre O Dever:”o dever é a lei de Deus. Quem ama o dever, ama a Deus acima das criaturas e as criaturas acima de si mesmo. É ao mesmo tempo juiz e escravo de si mesmo. O dever é a lei moral. Falamos do dever moral e não daqueles que as profissões impõem” Percebemos que para cumprir o dever não basta o princípio da razão como queria Kant. A razão nos faz identificar e comprender o dever moral, mas somente o amor nos faz realizar esse dever. O amor é a ponte que nos une ao próximo e a Deus.