ÂNSIA DE DEUS
(Cassimiro de Abreu, espírito)

Que saudades, que lamentos
Perdendo-me em pensamentos
Acordar a noite inteira
E dormir à luz do dia.

Quadras da minha infância,
Dos olhos de minha irmã.
Corria por arvoredos
Tremia dos próprios medos
Depois sorrir amanhã.

Qual criança ainda me sinto
Nestas paisagens astrais…
Do meu peito surge um grito
Lançado pro infinito
Chegando perto de Deus.

Terra das minhas lembranças
Terra dos amores meus
Todas as ânsias são ânsias
Que buscam o amor de Deus.

ESPÍRITO: Cassimiro de Abreu
Médium: João. Senna:

Enviado do meu iPhone

MINHA ALDEIA

As mais Belas paisagens, sinto afinal
Talvez, seja a minha pequena vila
Nascida em Portugal.
Quantas lembranças tenho,
Não me levem a mal
Depois de tanto tempo
São lágrinas de Portugal !

Canta-se assim a lira
Que a poesia consome
Que a ninguém mais fira
Pois todo o mundo é o homem.

As terras em que nascemos
São também nascidas em nós
E quanto mais as esquecemos
Mais nos perseguem, afinal.

Quem canta a imortalidade
Parece chegar tarde
A sua própria existencia.
Ou se sente e não se sabe
Ou não se sabe e sente.

Cantando essas novas paisagens,
Perdendo-me nessas imagens
Esquecido dos poetas que se foram
E dos lugares que ficaram.

Todas as lágrimas do mundo
Tem um sabor tão profundo
Que nos fazem despertar.
Chorar é abrir-se a alma.
É ter a imagem tão calma
Da vida que nos embala.
Quem tem vida, não tem fala.
Amigos, não me levem a mal,
Todas as lágrimas
São lágrimas de Portugal!

TENHO SAUDADES DE MIM

Por que tenho saudades de mim,
Nem me despeço, nunca de mim me despeço.
Peça-me qualquer coisa
Que pedir se possa.
A posse da partida
É como faca que fere e fica
Como uma ferida que não fecha.
Ou uma água distante e esquecida
Talvez água de banho que se
Tomou na infância, mas só a tua água
Que eu não tenho infância.
Não sou de partidas, aqui estou
Como um presente que não passa
Ou algo de imaterial que não se gaste.

Tenho silêncios que desconheço,
Que surgem como algo intransponível que de tão insuportável finge que parte na sua imóvel certeza.

Um talvez, quem sabe, me define mais que todas as coisas que poderia eu mesmo dizer do que fui, mas não por que “fui” é também partir e não parto.

Repeti a mim mesmo nessa angústia que a monotonia carrega, que o SER carrega porque é ser que de si jamais se distancia.
Quanto mais me defino, mas me sinto ausente. Nada peças de mim, por que dar é também partir.

ESPÍRITO: Fernando Pessoa.
médium: João Senna.

ALVIN PLANTINGA E A FORMAÇÃO DA CRENÇA

 

Alvim Plantinga é, um dos mais destacados filósofos mais da atualidade em relação ao estudo da religião. Ele nos traz uma perspectiva lúcida e revolucionária para os fundamentos da crença. Muitos filósofos e especialistas em diversas áreas entendem que a concepção de Plantinga seja uma das maiores contribuições para a teoria do conhecimento e, particularmente, no entendimento para os motivos da fé.

Advoga nosso filósofo que existem dois tipos de crenças : crenças básicas e crenças não básicas. Entre as primeiras temos, por exemplo: creio que estou digitando um texto agora, que tenho um tablet em minhas mãos, que tomei café da manhã hoje. São crenças que não precisam de uma justificação racional. E sei, por exemplo, que existem outras mentes além da minha, mas não tenho como provar isso racionalmente. Não existe possibilidade de demonstrar cientificamente, que tudo o que penso não passa de imaginação. Um experimento científico poderia ser fruto da minha imaginação e esta imaginação poderia ter para mim um caráter de pura realidade. Parece estranho questionar tais coisas porque estamos habituados a elas. Algo semelhante acontece quando acordamos de um sonho que parecia ser real.

Existem crenças não básicas como o fato de meu carro ter sido fabricado pela Ford. Existe uma forma de verificar isso, embora, eu acredite nisso, tal crença não é básica. Você, por exemplo, acredita que não é um filho adotado, mas essa não é uma crença básica. Existem meios de constatar isso, como um exame de dna, testemunhas, etc…

O problema maior é definir quais crenças são básicas e quais não são básicas. Quais seriam os critérios para tal distinção? Acredito ter diante de mim um tablet e de estar sentado no sofá, essa crença é justificada, é auto- evidente. Acreditar nelas não exige uso da razão, pois, fundamentam-se na experiência, não exigem outras crenças.

Existem filósofos que acreditam que só podemos crer naquilo que for racional, devemos apenas crer naquilo que nos pareça lógico e isto exige evidências favoráveis a nossas crenças. Creio por ter razões para isso e ter razões significa ter evidências que estão além do meu desejo, que não dependem de mim. O problema é que se eu não acredito em algo por não ter evidências, então, para deixar de crer nesse algo devo acreditar também que tais crenças não justificadas não mereçam crédito. Ora, isso eu não tenho. Não tenho evidências para acreditar que crenças sem evidências sejam crenças falsas. Ainda assim, poderiam ou podem ser verdadeiras. Ao não crer em algo sem evidências, acabo por descrer sem ter evidências. Essa concepção em crer somente naquilo que existem evidências é uma forma de crença sem evidências.

No livro O Evangelho Segundo O Espiritismo está escrito: “acostumai-vos a não descrer naquilo que não compreendeis” É interessante que 150 anos antes de Plantinga, os espíritos já defendiam um concepção considerada revolucionária para os dias de hoje. Os fundamentos últimos da crença são de natureza metafísica. A própria ciência materialista tem fundamentos metafísicos que não estão submetidos a uma concepção materialista da existência, concepção que em que se fundamenta a ciência contemporânea. A existência de uma ordem universal é pré-requisito para se fazer ciência, mas uma ordem universal é elemento estranho a um universo material, o único mundo admitido pela ciência.

Plantinga defende que a crença em Deus é uma crença básica. Não exigiria evidências externas para termos essa crença como justificada e racional. Cremos em Deus por percebermos intuitivamente, congenitamente, que o universo tem uma ordem. Que ter gratidão, sentir culpa, ter a noção de certo e errado, que existem coisas belas. Tudo isso é de apreensão imediata. São crenças básicas assim como a crença em Deus. Crer em Deus ou na beleza ou sentir gratidão são elementos que formam o nosso entendimento da vida, são pré-requisitos onde encontramos significado no mundo e em nós mesmos. Todas as outras crenças são derivadas destas crenças básicas, onde a crença em Deus seria a mais básica de todas.

Allan Kardec pergunta aos espíritos: o que se deve pensar ou que conclusões devemos tirar sobre a crença em Deus, crença que observamos em todas as culturas? Os espíritos simplesmente respondem: que Deus existe.
Kardec prossegue: mas estas crenças não poderiam ser fruto da cultura, do aprendizado? E os espíritos respondem: E os vossos selvagens, de onde tiraram a crença em Deus? Aliás, sobre tais assuntos, os selvagens pensam muito melhor que muitos homens ditos civilizados.

O Espiritismo advoga uma fé baseada na razão, mas não declara que o fundamento da fé seja a razão. Tem como lema”Fé inabalável somente o é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade” Tal, porém, não significa que uma fé não racional não seja verdadeira ou que não seja oportuna e útil. Simplesmente, diz que é mais conveniente aceitarmos nossas crenças baseados também (não exclusivamente) na razão.

Se aceito algo que, no fundo, é irracional, então, amanhã tal crença poderá se revelar falsa, daí ser abalada. Podemos ter fé em certas idéias porque no fundo, no nosso inconsciente, nas nossas vidas anteriores, já aprendemos que tal crença é verdadeira, mesmo que no momento não tenhamos argumentos racionais para se crer. Evidentemente, é um risco não saber se algo é realmente verdadeiro ou falso, mas é um certo risco que se corre pelo fato de se estar vivo. Não podemos submeter todas as nossas crenças ao uso da razão sob pena de vermos paralisada a própria vida. Tudo o que fazemos é baseado em crenças.

O Espiritismo advoga uma fé racional por possuir argumentos racionais e experimentais para tal declaração. Nunca disse que outros crentes estavam errados em crer sem fazer uso da razão, apenas declara que uma fé não racional poderá e será abalada em alguns aspectos, embora, essencialmente, esteja ou possa estar correta em inúmeros outros aspectos. Declara que a religião que não melhora o crente é falsa ou foi falseada em seus princípios. Talvez seja este o melhor critério para identificarmos uma crença verdadeira.

João Senna.
Salvador, 7/04/2016

DEPOIS DA MORTE

É muito saudável esperar algo mais de si mesmo. Existe um senso de satisfação pessoal com aquilo que se é, a própria insatisfação sugere que poderíamos ser melhor. Assim é que somente os anjos estão plenamente satisfeitos. Quando digo insatisfação, não me refero àquele sentimento de incompreensão diante do inevitável ou a indignação improdutiva em não aceitar o que poderia ser oportunidade de crescer emocionalmente. Ao acreditar na imortalidade você não mais ficará satisfeito com o que é, mas procurará ser tornar cada vez melhor. É para isso que serve a imortalidade.

A forma como entendemos o que ocorrará depois da morte modifica profundamente o que somos e sentimos agora mesmo, neste mundo dos chamados vivos. A perspectiva de encontrarmos a nós mesmos em outra dimensão após a morte nos dá novas responsabilidades, aliás, revela novas responsabilidades e atitudes na forma de vivermos a vida que vivemos agora. A grande novidade que o espiritismo revela é que não há novidade alguma. Após essa vida você continuará a viver, sendo você mesmo com a felicidade que todo dever cumprido traz a todos nós.

Qundo lemos ” viva a sua vida como se fosse o último dia, viva a sua vida intensamente porque você só tem uma” ficamos perplexos porque isso é exatamente o que quase todos fazem. O homem vive como se fosse acabar com a morte e, por isso, vive preocupado apenas consigo mesmo e quando muito com seus familiares. O que é o egoista senão aquele que vive cuidando apenas de sua vida?

Viva como se nunca fosse morrer, cuide do próximo como se fosse encontrar esse próximo após essa vida e fosse precisar dele. Cuide de sua mãe e amigos e irmãos como se fosse fosse ficar frente a frente com eles em um futuro distante ou não tão distante quanto vocé imagina. Cuide bem deles para que o remorso ou a vergonha não o acompanhe depois de transpor a morte. Faça isso, não é favor que você e eu fazemos, senão a nós mesmos, porque depois da morte existe vida.

COMO SE MORRE?

 

A morte é um tema pouco atraente porque acreditamos que seja o nosso fim. Usamos muitos eufemismos quando a ela nos referimos: foi dessa para melhor, descansou, está com Deus, subiu para o andar de cima. Todas essas expressões traduzem a vontade de amenizar o que a morte representa ou parece representar: o nosso fim. Nos Estados Unidos é hábito maquiar o morto para dar-lhe uma aparência melhor. Os judeus não podem mexer no corpo, não podem, por exemplo, colocar algodão no nariz, etc… Negando a morte através de enfeites ou venerando o corpo morto, o fato é que a morte não é nada popular.

Quem poderia nos dizer o que é morrer? Como se processa o momento da morte? Bem, quem poderia nos dizer o que é cozinhar, senão um cozinheiro ou o que é ser professor, senão um professor? Do mesmo modo, a melhor pessoa para nos dizer o que é morrer, naturalmente, é o morto. Como é morrer? Ora, pergunte para quem já morreu. E foi isso que o Espiritismo fez. Allan Kardec pergunta aos espíritos: é doloroso o momento da morte? E os espíritos respondem: geralmente não, sofreis muito mais quando estais vivos. Outra pergunta: por que se morre? E os mesmos respondem: esgotamento do corpo. O corpo é que abandona o espírito. Não tendo mais como se ligar a um corpo morto, o espírito naturalmente se liberta do mesmo. Enquanto estais vivos, sois prisioneiros do corpo.

Outra questão respondida é se a morte seria igual para todos. Os espíritos respondem: certamente que não. A forma da morte dependerá, em parte, do tipo de morte. Nas mortes violentas ou inesperadas tende a ser maior o aturdimento do espírito. Seu estado de confusão ao chegar no mundo espiritual é maior. Nas mortes naturais e naquelas onde o encarnado não negou para si mesmo que iria morrer, o estado tende a ser melhor. A compreensão espiritual do encarnado o ajuda muito. Se ele sabe que irá continuar a viver depois de morto, é muito mais fácil entender a sua situação ao chegar no mundo dos espíritos.

Qual o principal fator que favoreceria uma libertação mais tranquila do espírito e seu futuro estado no mundo espiritual? Sem dúvida o fator preponderante e favorável a uma melhor situação do recém desencarnado é a sua condição moral. As pessoas de bem são recebidas imediatamente e com júbilo por amigos e familiares no mundo espiritual. Quanto menor o apego as circunstâncias da terra e quando maior a fé em Deus, tanto melhor será a situação do morto. O apego aos vícios como cerveja, cigarro, sexo sem equilíbrio emocional e desvinculado do amor, apego excessivo ao trabalho, a filhos e parentes chegando ao sentimento de posse, o remorso, a vaidade, enfim, todos os fatores contrários à caridade são reais dificuldades a serem enfrentadas pelo recém desencarnado.

Ninguém morre da mesma forma. Cada individualidade irá se libertar do corpo conforme o gênero de vida, idéias e sentimentos que cultivou. Muitos irão para as regiões de sofrimento do mundo espiritual onde se libertarão após tempo variável a depender de sua realidade espiritual, outras ficarão presos a situações da vida corporal tentando em vão continuar a viver como se pertencessem ao mundo dos encarnados. Por fim, existirão aqueles que retornarão ao mundo espiritual como vencedores de si mesmos, como leais cumpridores da lei de Deus, os que muito amaram e compreenderam seus irmãos. Os homens e mulheres de bem retornam à pátria espiritual onde são recebidos com júbilos por amigos e familiares para, felizes prosseguirem a caminhada em busca da própria redenção no trabalho incessante do bem ao próximo. O apóstolo Paulo os descreve: a alma do justo não verá a segunda morte.

MUITOS MEDOS

 

Jamais saberemos todos os medos, eles são profundos e se não nos prendessem à terra, certamente subiríamos aos brilhos das estrelas. São tão profundos e misteriosos quanto a alma de quem ama e podem sussurrar nos ouvidos dos amantes ou daqueles que mergulharam na amargura. Mas são muitos os seus nomes e de nós são conhecidos como espectros de sombras que se não fossem inconvenientes, bem que poderiam ser nossos amigos.
O medo de estar errado -arrogância.
O medo de estar certo-timidez.
O medo de sentir-se abandonado-solidão.
O medo de não ser compreendido-insegurança
O medo de perder o amor-ciúmes.
O medo de compreender-intolerância.
O medo de não se sentir capaz-inveja.
O medo de encontrar a paz-irritação.
O medo de ser amado-indiferença.
O medo de perdoar-mágoa.
O medo de encontrar a paz-agressividade.
O medo de ser imortal-materialismo.
O medo de amar-egoísmo.
O medo de acreditar no futuro-descrença.
O medo de ter medo-prepotência.
O medo de ser feliz-amargura.
O medo de ser ajudado ou amado-agressividade.
Mas há também um conjunto de luzes que tornam a vida plena de imensidade e tal verdade penetra nossa existência como um coro de anjos ou como um beijo de mãe, consola como a esperança e traz abrigo como a fé. Tem certezas que esclarecem e brisas que refrescam, traz a luz das estrelas e o canto dos passarinhos, eleva-se sobre as montanhas, visita a profundeza dos oceanos e se ergue muito além das estrelas. Não se mostra aos que não podem vê-la, desvela-se aos corações humildes, aquece os que muito amam, protege os aflitos. Se puderes encontrá-la chame-a e não a deixes partir mesmo que os séculos terminem ou que o infinito se acabe, porque ao seu lado nada te faltará e se quiseres chamá-la , ela atende por muitos nomes, mas o principal deles é-CARIDADE.

João Senna. 26/5/2015

DESCARTES E O ESPIRITISMO

 

Um dos maiores pensadores e matemáticos que a humanidade conhece é Rene Descartes. Formado em letras, estudou no colégio jesuíta de La Flèche. Resolve viajar pela Europa para estudar matemática, física e ciências naturais. Após dedicar-se de forma metódica aos estudos, percebe que seu saber era quase nada e que estava bem distante de ser algo certo. Descobre que mesmo os homens considerados sábios, possuíam uma noção incerta da vida, dos seres, da natureza. Enfim, não eram mistificadores ou charlatães apenas bem intencionados, embora, seu saber fosse incerto.
Por algum motivo misterioso, Descartes resolveu conhecer a natureza das coisas através de si mesmo e da razão. Mas sua alegria foi contrariada por um senso de justiça e responsabilidade intelectual raramente visto. Perguntou a si mesmo porque não falharia onde todos ou quase todos falharam? Excetuando as ciências exatas pouco sobrara do edifício de papel do saber humano.
Onde encontrar a chave para a angustiante busca da certeza? Primeiramente procurou um alicerce sólido de onde poderia se levantar para contemplar o conhecimento real que pudesse alcançar. Resolve tudo submeter à razão, pois, em princípio ela poderia nos enganar, mas de todos os candidatos, afinal, julgou que seria a mais confiável. Começaria a duvidar de si mesmo e aos poucos aceitaria o que sua razão aceitasse como verdadeiro de forma clara e evidente, seja lá o que isto quisesse dizer. Era antes de tudo um compromisso não só intelectual, mas moral.
Dividir toda questão em seus termos mais simples e esgotar as perguntas sobre tal problema, passar para a segunda etapa do problema apenas quando a parte anterior se apresentasse de forma clara e evidente ao seu espírito. Avançar do mais simples ao mais complexo e no final fazer uma crítica rigorosa de todo o problema, percebê-lo em suas partes e no quadro geral para não deixar passar contradições.
Acontece que Descartes ficou preocupado com uma questão-como saberei que o que faço não é fruto de minha imaginação? Como saber que não passa de um devaneio o meu próprio existir, em que se fundamenta a certeza da possibilidade do meu raciocínio. Não poderia ter um gênio maligno colocado em mim a crença de que sou algo, quando na verdade sou um conjunto incoerente de algo sem sentido? Não poderia ter a ilusão de que existo ou que saiba alguma coisa e, no final, ser um fragmento de algo existente que nem chegou a se formar? Após pensar por alguns minutos ( brincadeira) chegou à conclusão que mesmo um gênio maligno não poderia enganá-lo em uma questão: a certeza da sua própria existência, pois, até para duvidar ou se enganar ou ser enganado m haveria de existir. Então, se eu estou pensando, enquanto penso estou existindo. Poderia até imaginar que meu corpo não exista e mesmo existir sem um corpo, mas nunca poderia pensar se não existisse. Penso, logo existo.
Allan Kardec pergunta aos espíritos se o espírito era imaterial. Os espíritos respondem que imaterial não seria o melhor termo, mas incorpóreo. O espírito não é matéria, mas certamente é alguma coisa, embora, não saibamos que coisa seria essa. Declaram, os espíritos, que coisa alguma é o nada e que o nada não existe. Kardec insiste e pergunta-como poderíamos, então, conceber o espírito? E os próprios espíritos respondem-Pelo pensamento. A mesma conclusão a que chegou Descartes para fundamentar o conhecimento e a sua própria existência como condição necessária para se saber alguma coisa. É preciso existir para conhecer e para existir basta pensar.
João Senna 2/6/2015

ANÁLISE DAS CRÍTICAS AOS TEXTOS ESPÍRITAS

O Espiritismo é uma doutrina de livre exame. Não existem oráculos ou autoridades que nos digam como interpretar a codificação espírita e os livros espíritas. Não existem médiuns ou personalidades espíritas por mais notáveis, que possam determinar a melhor ou a correta interpretação de um texto, afirmação ou conceito. Somos livres para, após ler e refletir, tirarmos as consequências filosóficas, religiosas ou científicas do que lemos.

Se a interpretação é livre, se não existem especialistas em Espiritismo, como determinar qual a interpretação correta da codificação? Quem irá nos esclarecer sobre a veracidade de um romance ou afirmação de natureza espírita? Sendo livre a interpretação, o Espiritismo irá se tornar um conjunto de opiniões pessoais e ficará ao gosto da supremacia de instituições ou líderes carismáticos? Prevalecerá a opinião dominante, sem que isso diga nada a favor de sua veracidade?

Allan Kardec instituiu o Espiritismo através do controle universal do ensino dos espíritos superiores. Um conjunto de inúmeros espíritos esclarecidos sob o comando do Espírito de Verdade fizeram  afirmações racionais, em diferentes países por médiuns que não se conheciam. Se uma mesma afirmação é fornecida por espíritos superiores por vários médiuns, não há motivos para duvidarmos de tal afirmação. A verdade não pode ter pátria, geografia, cultura ou pertencer a indivíduos ou grupos. Este foi o critério usado na elaboração da codificação espirita, livre de todo personalismo e examinada com o crivo da mais fria razão e em concordância com a experiência oferecida pelo laboratório da mediunidade e fenomenologia espiritual.

Se Kardec encontrou a melhor metodologia e o mais confiável critério para a elaboração da teoria espirita, o que nos fornecerá a chave para a sua adequada interpretação? Uma vez elaborado o Espiritismo, o que nos garantirá a sua melhor compreensão? Em quem confiaremos? Kardec responde: a razão de cada um e a experiência de incontáveis grupos. Declara no início de O Livro Dos Espíritos: “fé inabalável, somente o é, aquela que encara a razão face a face em todas as épocas da humanidade” equivale dizer que devemos ter fé naquilo que entendemos racionalmente e que não entra em contradição com o avanço do conhecimento científico e filosófico tanto no passado, nos dias de hoje e nos dias futuros. É realmente o critério de máxima exigência e confiança que se pode ter em uma doutrina.

Muito se tem escrito e falado a favor e contra o Espiritismo. As críticas desfavoráveis que se originam fora do meio espirita, são naturais e esperadas e nada mais fazem que divulgar o que julgam combater. As pessoas presas à sistemas e preconceitos continuarão a ser contrários às idéias espíritas, mas as que estão isentas de preconceitos e desejosas de conhecer a verdade ao estudarem de perto o espiritismo o aceitarão, porque nada é mais convincente que a verdade. O real problema surge quando as críticas contrárias partem do próprio movimento espirita, os espíritas combatendo outros espíritas ou sendo contrários à textos clássicos da literatura espírita e da própria codificação.

Como poderemos separar as críticas pertinentes das destituídas de sentido? Se parte do movimento espirita é favorável à determinada prática, enquanto outra parte é contrária. Se grupos espíritas são favoráveis à determinada produção mediúnica e outros grupos são frontalmente contrários, como sabermos onde se encontra o lado certo? Creio que o primeiro passo é reler a codificação espírita, pois, o ensino dos espíritos superiores é, seguramente, mais confiável que o de uma pessoa isolada ou mesmo instituições.

O segundo critério é avaliar as justificativas dos críticos aos postulados ou práticas espíritas. Suas colocações destinam-se a discutir idéias ou pessoas? No primeiro caso podemos nos dispor a refletir sobre elas, mas no segundo devemos descarta tais críticas, pois, o Espiritismo e o verdadeiro espirita não discutem pessoas e sim idéias e práticas dentro do movimento espirita. Quem faz a crítica elabora argumentos racionais ou especulativos apenas? Apela para o argumento da autoridade somente para nos impressionar? Descreve textualmente o parágrafo ou frase que julga estarem erradas ou, simplesmente, faz afirmações genéricas?

Li hoje críticas desfavoráveis à Léon Denis, considerado o continuador de Kardec no plano filosófico. Autor respeitado e, seguramente, um dos clássicos do Espiritismo. As críticas foram vagas e pessoais, a própria figura do autor é desprezada ou relativizada em sua importância e tido como uma pessoa que se afastou da codificação espírita. Seu próprio estilo literário é questionado. A maior fraqueza desta crítica é não especificar onde Léon Dênis se afastou da codificação. Todas as afirmações foram categóricas sem jamais se estabelecerem em um argumento racional.

Por que iríamos abandonar um espirita consagrado como continuador de Kardec, uma obra de raríssima beleza lírica e profundidade filosófica para nos aventurarmos a crer em colocações não racionais, repletas de adjetivos e generalizações vagas? Como não desconfiar da competência intelectual do autor do texto que tece suas críticas sem embasamento ? Deveremos acreditar pelo simples prazer de acreditar? Uma crítica bem fundamentada não pode ser um simples falar mal ou um desabafo anti-intelectual, raivoso e melodramático. Se alguém deseja ser levado a sério, deve ao menos despertar em quem lê ou ouve o beneplácito da dúvida. Palavras bonitas e abundância de adjetivos já não impressionam tanto.

João Senna
Salvador , 8/8/2016

SOMENTE EU

 

Em tudo um pouco de mim,
Um pouco de mim pus em tudo
E cabe a mim despertar
Estou aqui, e não mudo.

Quisera crer que quisera
A Esperanca sempre esquecida
Mas muito mais deu-me a vida
Que a esta alma consumida.

Que outros tenham, não sei
Essa doença que canto.
Que outros vivam em espanto
E só eu viva em mim.

Que outros cantem o que são.
Só eu Viva em segredo
Cantando como quem canta
A solidão de um degredo.

Só eu sou o que não era.
Só eu que vivo em luto.
Sendo o que sou, eu não sou,
Mas quando fui, já não era.

ESPÍRITO: Fernando Pessoa.
MÉDIUM: João Senna.