A SALVAÇÃO, A FÉ, A CARIDADE.

 

Fora da caridade não há salvação. Esta é a bandeira do Espiritismo, o seu lema principal. O objetivo do Espiritismo não é fazer a multiplicação do número de espíritas ou expandir o Espiritismo na busca de uma hegemonia tão ao gosto dos poderes terrenos. O alvo, a razão de ser do Espiritismo é tornar o homem melhor e isso se faz tornando o homem um ser caridoso. Não se é melhor apenas quando se é mais inteligente ou culto, embora, tais aquisições sejam um bom começo quando se sabe o que fazer da cultura e da inteligência. O problema de muitas nações ou pessoas não está, propriamente, na sua falta de inteligência ou cultura, mas no excesso de “esperteza”, que é o resultado da união da inteligência e da cultura na pessoa que não ama.

Creio que muitos interpretam a caridade de uma forma superficial e passam a considera-lá uma pessoa, um ser que, pessoalmente, viria nos salvar. Ouvi mesmo muitas críticas ao Espiritismo devido a esta interpretação equivocada sobre o papel exato da caridade na vida de cada um. Muitos religiosos de outras filiações dizem: mas o espirita salvará a si mesmo através da caridade? Nossos irmãos se esquecem que poderíamos retrucar: e vocês salvarão a si mesmos através da fé? Claro que nem a fé ou a caridade poderão vir nos salvar. Se você está se afogando, certamente, pede socorro a quem estiver perto, não pedirá que a caridade o salve. A caridade é uma construção de amor que o indivíduo faz em si mesmo, não apenas um conceito, é uma atitude prática na vida que revela a intimidade do seu ser, daquilo que é em profundidade.

A questão é o caminho que pode nos levar à salvação. A fé não é apenas um conjunto de crenças, não é apenas confiança em Deus, mas é o resultado desta confiança. Se você realmente acredita em Deus, se acredita em Jesus, então, se lembrará da parábola do bom Samaritano. O homem que amou o próximo não foi o crente ou o descrente, mas aquele que ajudou o homem caído na estrada. Perceba que não se pode amar o próximo sem ser caridoso, pelo menos é o que Jesus nos ensinou. Um amor indiferente, um amor que não ajuda, que não se preocupa com a sorte dos pobres e doentes, que não melhora as condições sociais, isto pode ser tudo, mas não é amor.

Os espíritas compreendem que a caridade que cresce na graça de Deus e se multiplica, essa caridade é impossível sem a fé, que a caridade é o resultado de uma fé esclarecida, de uma fé não egoísta que não pensa somente em si, esquecendo-se que os demais são também filhos de Deus. A caridade é o produto da fé cristã, da fé em um ser superior e bondoso. A verdadeira fé não existe onde não existe a caridade. Você pode ser sincero na fé, mas se sua fé não o faz ajudar o próximo, então, é uma fé morta e filha da cegueira espiritual.

A fé e sua consequência, a caridade, é o critério para que Jesus possa nos salvar, para que os bons espíritos possam nos salvar. A salvação de Deus não pode ser arbitrária, não pode ser fruto de algo não merecido. Sem Deus não há espíritos, não há universo. Tudo existe e se move em Deus. São seres reais que nos salvam, não somos salvos por conceitos, crenças ou opiniões. Quando dizemos que fora da caridade não há salvação, estamos declarando que o critério de que Deus se utiliza para nos salvar é a caridade que fazemos. Não estamos dizendo que é a caridade em pessoa que nos salva, porque isso seria transformar a caridade em um ser mágico com poderes de se materializar no mundo da realidade para nos salvar de um incêndio ou coisa pior.

Evidentemente que a salvação não é algo instantâneo e que ocorra apenas uma vez, mas é um processo gradual e que acontece todos os dias. Salvar é livrar do perigo, não é tirar férias permanentes longe de qualquer aborrecimento. Estou convicto de que, ao não acreditar na reencarnacão, a maioria das religiões tiveram que eleger a fé como único critério da salvação. É óbvio que, por mais que façamos algo bom, ainda assim seria pouco diante de nossos erros. Se formos sinceros com nossa própria vida, se analisarmos os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes, reconheceremos que fazemos muito mais o mal que o bem. Se nós percebemos isto, como será a percepção de Deus?

Uma só existência seria impossível para nos levar à salvação através da caridade, por isso, os que não creem na reencarnacão não tiveram escolha senão acreditar que a simples crença em Deus os pudesse salvar. Aceitar Jesus como Salvador, mesmo que tenha assassinado centenas de pessoas, que tenha estuprado centenas, que tenha sido ladrão ou tudo isso junto. Se você, no último minuto da sua existência, se arrepender e aceitar Jesus, então, irá para o céu e terá todas as delícias de conviver com os anjos. Tal atitude seria o suficiente para alguém ser salvo, ou seja, viver honestamente ou não, ser assassino ou não, nada importaria se você se arrependesse no último segundo e se convertesse a Jesus.

Pode parecer estranho para alguns tal idéia, mas se você não tem outra vida ( reencarnacão) para corrigir seu erro, que poderá fazer senão esperar ser salvo através da simples aceitação de Jesus como seu único e suficiente salvador? Não é uma colocação imoral ser salvo apenas pelo arrependimento, é simplesmente uma concepção desesperada que surge da própria crença em única existência.

Outra questão que se apresenta ao raciocínio é esta: qual a diferença entre o arrependimento ocorrido na terra e no mundo espiritual? Se eu me arrepender antes de morrer sou salvo, se me arrepender um minuto depois, vou para o inferno. Qual a lógica disto? Se me arrependo com sinceridade, se me decido a aceitar Jesus, se desejo seguir o caminho do bem, da fé e da caridade, estou impedido pelo fato de já ter morrido? Deus impede agora que eu siga o caminho do bem? Claro, não sei tudo o que Deus é, não sou seu representante, mas não acredito que Deus deva ser o carcereiro do bem. É um absurdo lógico e moral acreditar que Deus possa impedir alguém de se tornar bom.

Os que acreditam na reencarnacão podem imaginar o seguinte cenário. Você não é tão ruim para ir para o inferno, mas não tão bom para ir para o céu. Que fará então? É muito simples: volte à Terra e faça melhor. Quando você estiver tão bom quanto Francisco de Assis, então, poderá se mudar ( se quiser) para outros mundos onde as condições são muito melhores. Gradativamente, você irá morar em mundos com maior beleza e felicidade. Mundos sem doenças, sem guerras, sem miséria moral ou material. Este é o céu dos espíritas. Chegaria um ponto onde você não mais necessitaria reencarnar e iria morar permanentemente no mundo espiritual de natureza superior. Paulo relata que em êxtase foi transportado para o sétimo céu. Percebemos que é uma gradação, pois, deve existir o sexto céu, o quinto céu, etc…

Na concepção espirita não existe o inferno como um lugar de penas eternas, embora, existam regiões de sofrimento imenso tanto na Terra como no plano espiritual. O mal, porém, é temporário, nunca permanente. Somente o bem tem o caráter de eternidade por estar ligado a Deus, um ser eterno. Outro aspecto nunca lembrado é o fato de o inferno existir. Se fosse verdade que muitos vão para o inferno, então, seria verdade que parte da criação de Deus seria constituída de fracassados. Como um ser perfeito poderia criar seres fracassados? Já imaginaram se um montadora de carros construísse milhares de unidades com defeito de fabricação? Que não pudesse nunca consertá-los? A diferença é que a montadora de carros não é um ser perfeito como Deus e, por isso, pode errar, apesar de não ser algo bonito para se fazer.

Gradativamente, a humanidade concebe Deus e o universo de forma mais justa e lógica. Aos poucos conhecemos “novas” verdades que se somam a “velhas” verdades. Percebemos que muitas coisas qua nos pareciam estranhas, tornam-se óbvias. Outras que nos pareciam óbvias, se tornam absurdos. Todas as verdades permanecem e somam-se a verdade recentemente descobertas por nós, embora, já existentes. Como nos ensina o espírito de Castro Alves: tudo evolui, tudo sonha, na imortal ânsia risonha de mais subir, mais galgar. Deus somente é o seu amor, o universo é o seu altar.

Joao Senna.
Salvador, 28/05/2016

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