ALVIN PLANTINGA E A FORMAÇÃO DA CRENÇA

 

Alvim Plantinga é, um dos mais destacados filósofos mais da atualidade em relação ao estudo da religião. Ele nos traz uma perspectiva lúcida e revolucionária para os fundamentos da crença. Muitos filósofos e especialistas em diversas áreas entendem que a concepção de Plantinga seja uma das maiores contribuições para a teoria do conhecimento e, particularmente, no entendimento para os motivos da fé.

Advoga nosso filósofo que existem dois tipos de crenças : crenças básicas e crenças não básicas. Entre as primeiras temos, por exemplo: creio que estou digitando um texto agora, que tenho um tablet em minhas mãos, que tomei café da manhã hoje. São crenças que não precisam de uma justificação racional. E sei, por exemplo, que existem outras mentes além da minha, mas não tenho como provar isso racionalmente. Não existe possibilidade de demonstrar cientificamente, que tudo o que penso não passa de imaginação. Um experimento científico poderia ser fruto da minha imaginação e esta imaginação poderia ter para mim um caráter de pura realidade. Parece estranho questionar tais coisas porque estamos habituados a elas. Algo semelhante acontece quando acordamos de um sonho que parecia ser real.

Existem crenças não básicas como o fato de meu carro ter sido fabricado pela Ford. Existe uma forma de verificar isso, embora, eu acredite nisso, tal crença não é básica. Você, por exemplo, acredita que não é um filho adotado, mas essa não é uma crença básica. Existem meios de constatar isso, como um exame de dna, testemunhas, etc…

O problema maior é definir quais crenças são básicas e quais não são básicas. Quais seriam os critérios para tal distinção? Acredito ter diante de mim um tablet e de estar sentado no sofá, essa crença é justificada, é auto- evidente. Acreditar nelas não exige uso da razão, pois, fundamentam-se na experiência, não exigem outras crenças.

Existem filósofos que acreditam que só podemos crer naquilo que for racional, devemos apenas crer naquilo que nos pareça lógico e isto exige evidências favoráveis a nossas crenças. Creio por ter razões para isso e ter razões significa ter evidências que estão além do meu desejo, que não dependem de mim. O problema é que se eu não acredito em algo por não ter evidências, então, para deixar de crer nesse algo devo acreditar também que tais crenças não justificadas não mereçam crédito. Ora, isso eu não tenho. Não tenho evidências para acreditar que crenças sem evidências sejam crenças falsas. Ainda assim, poderiam ou podem ser verdadeiras. Ao não crer em algo sem evidências, acabo por descrer sem ter evidências. Essa concepção em crer somente naquilo que existem evidências é uma forma de crença sem evidências.

No livro O Evangelho Segundo O Espiritismo está escrito: “acostumai-vos a não descrer naquilo que não compreendeis” É interessante que 150 anos antes de Plantinga, os espíritos já defendiam um concepção considerada revolucionária para os dias de hoje. Os fundamentos últimos da crença são de natureza metafísica. A própria ciência materialista tem fundamentos metafísicos que não estão submetidos a uma concepção materialista da existência, concepção que em que se fundamenta a ciência contemporânea. A existência de uma ordem universal é pré-requisito para se fazer ciência, mas uma ordem universal é elemento estranho a um universo material, o único mundo admitido pela ciência.

Plantinga defende que a crença em Deus é uma crença básica. Não exigiria evidências externas para termos essa crença como justificada e racional. Cremos em Deus por percebermos intuitivamente, congenitamente, que o universo tem uma ordem. Que ter gratidão, sentir culpa, ter a noção de certo e errado, que existem coisas belas. Tudo isso é de apreensão imediata. São crenças básicas assim como a crença em Deus. Crer em Deus ou na beleza ou sentir gratidão são elementos que formam o nosso entendimento da vida, são pré-requisitos onde encontramos significado no mundo e em nós mesmos. Todas as outras crenças são derivadas destas crenças básicas, onde a crença em Deus seria a mais básica de todas.

Allan Kardec pergunta aos espíritos: o que se deve pensar ou que conclusões devemos tirar sobre a crença em Deus, crença que observamos em todas as culturas? Os espíritos simplesmente respondem: que Deus existe.
Kardec prossegue: mas estas crenças não poderiam ser fruto da cultura, do aprendizado? E os espíritos respondem: E os vossos selvagens, de onde tiraram a crença em Deus? Aliás, sobre tais assuntos, os selvagens pensam muito melhor que muitos homens ditos civilizados.

O Espiritismo advoga uma fé baseada na razão, mas não declara que o fundamento da fé seja a razão. Tem como lema”Fé inabalável somente o é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade” Tal, porém, não significa que uma fé não racional não seja verdadeira ou que não seja oportuna e útil. Simplesmente, diz que é mais conveniente aceitarmos nossas crenças baseados também (não exclusivamente) na razão.

Se aceito algo que, no fundo, é irracional, então, amanhã tal crença poderá se revelar falsa, daí ser abalada. Podemos ter fé em certas idéias porque no fundo, no nosso inconsciente, nas nossas vidas anteriores, já aprendemos que tal crença é verdadeira, mesmo que no momento não tenhamos argumentos racionais para se crer. Evidentemente, é um risco não saber se algo é realmente verdadeiro ou falso, mas é um certo risco que se corre pelo fato de se estar vivo. Não podemos submeter todas as nossas crenças ao uso da razão sob pena de vermos paralisada a própria vida. Tudo o que fazemos é baseado em crenças.

O Espiritismo advoga uma fé racional por possuir argumentos racionais e experimentais para tal declaração. Nunca disse que outros crentes estavam errados em crer sem fazer uso da razão, apenas declara que uma fé não racional poderá e será abalada em alguns aspectos, embora, essencialmente, esteja ou possa estar correta em inúmeros outros aspectos. Declara que a religião que não melhora o crente é falsa ou foi falseada em seus princípios. Talvez seja este o melhor critério para identificarmos uma crença verdadeira.

João Senna.
Salvador, 7/04/2016

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