SURGES COMO A MANHÃ

Quando você surge, manhã primeira,
Não é a manhã, é você tão inteira.
Surge da vida, como surge o trigo que gera o pão,
És nutriente da vida, dos que fazem sofrer e dos que se alegram.
Não é mais que a vida, pois que é a própria vida que se faz e se refaz.
E surge sempre nesta certeza das coisas indizíveis.
És tudo para alguns e nada para outros.
É o que permanece e se esvai, mas que começa sem nunca ter nascido.
Um sabor de festa nas aflições de todos.
Por que não nasceste para mim com hora marcada?
Por que não te fizeste como mulher amada e não te disfarçaste
No trágico segredo de cada vida?
Se és repleta, por que não esta sempre presente e toda em cada um?
Se te esperam, por que não surge distante e fria, e não te esconde
Por entre o povo?
A lua tem seu brilho, não o brilho que vemos, mas aquele esperado por todos os homens,
Esta luz cintilante, lâmina de argila, cascata de súbito tesouro.
Permanece entre nós como a noiva esperada, brilhe por entre os céus como ave de prata
Da cordilheira dos Andes.
Nasce e renasce tantas vezes quiseres, pega as nossas mãos como se fossemos teus filhos.
Nós, os homens de esmalte e argila, de prata e cobre, de miséria e medo, de pedra e pão.
Vem e se mostra inteira, para que te abracemos como o filho pequeno se dilui e se completa no colo de quem ama.
Ouve os gemidos dos que padecem, afugenta a loucura que nos embala como serpente em cesto de festa.
Ilumina com seu escudo invencível, com a flor de mel e ouro que trazes em tuas veias.
Vem e diz, sem medo, para que todos te ouçam: sou a Esperança.

Médium: João Senna.
Espírito: Pablo Neruda
15/02/2017, Salvador, Bahia.

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