ANÁLISE DAS CRÍTICAS AOS TEXTOS ESPÍRITAS

O Espiritismo é uma doutrina de livre exame. Não existem oráculos ou autoridades que nos digam como interpretar a codificação espírita e os livros espíritas. Não existem médiuns ou personalidades espíritas por mais notáveis, que possam determinar a melhor ou a correta interpretação de um texto, afirmação ou conceito. Somos livres para, após ler e refletir, tirarmos as consequências filosóficas, religiosas ou científicas do que lemos.

Se a interpretação é livre, se não existem especialistas em Espiritismo, como determinar qual a interpretação correta da codificação? Quem irá nos esclarecer sobre a veracidade de um romance ou afirmação de natureza espírita? Sendo livre a interpretação, o Espiritismo irá se tornar um conjunto de opiniões pessoais e ficará ao gosto da supremacia de instituições ou líderes carismáticos? Prevalecerá a opinião dominante, sem que isso diga nada a favor de sua veracidade?

Allan Kardec instituiu o Espiritismo através do controle universal do ensino dos espíritos superiores. Um conjunto de inúmeros espíritos esclarecidos sob o comando do Espírito de Verdade faziam afirmações racionais, em diferentes países por médiuns que não se conheciam. Se uma mesma afirmação é fornecida por espíritos superiores por vários médiuns, não há motivos para duvidarmos de tal afirmação. A verdade não pode ter pátria, geografia, cultura ou pertencer a indivíduos ou grupos. Este foi o critério usado na elaboração da codificação espirita, livre de todo personalismo e examinada com o crivo da mais fria razão e em concordância com a experiência oferecida pelo laboratório da mediunidade e fenomenologia espiritual.

Se Kardec encontrou a melhor metodologia e o mais confiável critério para a elaboração da teoria espirita, o que nos fornecerá a chave para a sua adequada interpretação? Uma vez elaborado o Espiritismo, o que nos garantirá a sua melhor compreensão? Em quem confiaremos? Kardec responde: a razão de cada um e a experiência de incontáveis grupos. Declara no início de O Livro Dos Espíritos: “fé inabalável, somente o é, aquela que encara a razão face a face em todas as épocas da humanidade” equivale dizer que devemos ter fé naquilo que entendemos racionalmente e que não entra em contradição com o avanço do conhecimento científico e filosófico tanto no passado, nos dias de hoje e nos dias futuros. É realmente o critério de máxima exigência e confiança que se pode ter em uma doutrina.

Muito se tem escrito e falado a favor e contra o Espiritismo. As críticas desfavoráveis que se originam fora do meio espirita, são naturais e esperadas e nada mais fazem que divulgar o que julgam combater. As pessoas presas à sistemas e preconceitos continuarão a ser contrários às idéias espíritas, mas as que estão isentas de preconceitos e desejosas de conhecer a verdade ao estudarem de perto o espiritismo o aceitarão, porque nada é mais convincente que a verdade. O real problema surge quando as críticas contrárias partem do próprio movimento espirita, os espíritas combatendo outros espíritas ou sendo contrários à textos clássicos da literatura espírita e da própria codificação.

Como poderemos separar as críticas pertinentes das destituídas de sentido? Se parte do movimento espirita é favorável à determinada prática, enquanto outra parte é contrária. Se grupos espíritas são favoráveis à determinada produção mediúnica e outros grupos são frontalmente contrários, como sabermos onde se encontra o lado certo? Creio que o primeiro passo é reler a codificação espírita, pois, o ensino dos espíritos superiores é, seguramente, mais confiável que o de uma pessoa isolada ou mesmo instituições.

O segundo critério é avaliar as justificativas dos críticos aos postulados ou práticas espíritas. Suas colocações destinam-se a discutir idéias ou pessoas? No primeiro caso podemos nos dispor a refletir sobre elas, mas no segundo devemos descarta tais críticas, pois, o Espiritismo e o verdadeiro espirita não discutem pessoas e sim idéias e práticas dentro do movimento espirita. Quem faz a crítica elabora argumentos racionais ou especulativos apenas? Apela para o argumento da autoridade somente para nos impressionar? Descreve textualmente o parágrafo ou frase que julga estarem erradas ou, simplesmente, faz afirmações genéricas?

Li hoje críticas desfavoráveis à Léon Dênis, considerado o continuador de Kardec no plano filosófico. Autor respeitado e, seguramente, um dos clássicos do Espiritismo. As críticas foram vagas e pessoais, a própria figura do autor é desprezada ou relativizada em sua importância e tido como uma pessoa que se afastou da codificação espírita. Seu próprio estilo literário é questionado. A maior fraqueza desta crítica é não especificar onde Léon Dênis se afastou da codificação. Todas as afirmações foram categóricas sem jamais se estabelecerem em um argumento racional.

Por que iríamos abandonar um espirita consagrado como continuador de Kardec, uma obra de raríssima beleza lírica e profundidade filosófica para nos aventurarmos a crer em colocações não racionais, repletas de adjetivos e genéricas? Como não desconfiar da competência intelectual do autor do texto que tece suas críticas sem embasamento ? Deveremos acreditar pelo simples prazer de acreditar? Uma crítica bem fundamentada não pode ser um simples falar mal ou um desabafo anti-intelectual, raivoso e melodramático. Se alguém deseja ser levado a sério, deve ao menos despertar em quem lê ou ouve o beneplácito da dúvida. Palavras bonitas e abundância de adjetivos já não impressionam tanto.

João Senna
Salvador , 8/8/2016

POR QUE EXISTE O MAL?

Uma resposta óbvia a esta questão é que o mal existe porque é uma possibilidade inerente aos seres humanos. Podemos considerar o mal como sendo uma escolha, pois, se fosse uma necessidade estaria dentro da estrutura do universo e, portanto, seria não somente inevitável, mas muito natural. Falar em mal é afirmar um componente moral ao próprio conceito, pois, do contrário não haveria nada de errado no mal e poderíamos ser maus da mesma forma como poderíamos ser bons. Ateus e crentes concordam em que ser mal é uma escolha ruim, embora, possam discordar algumas vezes na definição dada ao mal, na explicação sobre a gênese do mal, mas em termos gerais todos concordam quando algo é bom ou mal.

Evidentemente ao considerarmos o mal uma possibilidade, estamos afirmando que o bem é uma necessidade ou uma possibilidade, mas como todos preferem o bem, somos levados a crer que o bem é muito mais que um desejo, pois, é antes uma necessidade. Mesmo quando não alcançado, torcemos para que o bem prevaleça no final. É algo muito maior que um desejo querer ser bom, não parece que o bem seja uma questão de gosto ou de cultura, mas algo tão real como o ar que respiramos. Assim, todos admiram uma pessoa bondosa e repudiam alguém mau.

Ao desaprovarmos o mal, implicitamente afirmamos que ser mal é uma escolha e nunca uma necessidade. Não reprovamos alguém por ser branco ou negro, homem ou mulher e isto porque tais condições não foram o resultado de escolhas e, tampouco, fazem parte de nossa essência. Tais condições nada dizem sobre o que somos. Portanto, o mal existe porque o bem é uma necessidade plenamente realizável dentro das nossas possibilidades, pois, se assim não fosse não haveria razão para chamarmos alguém de honesto ou desonesto, bom ou mal. O bem é admirado porque foi uma escolha entre o errado e o certo. Acreditamos em certo e errado não por uma questão maniqueísta ou uma simplificação inocente da existência, mas por acreditarmos que a vida deve caminhar em direção ao Bem.

A possibilidade do mal não nasce da liberdade que temos, embora, somente seja possível ser mau por sermos livres. Quem não é livre não pode ser bom ou mau. Apenas pode ser o que é, sem mérito ou demérito, sem culpa ou honra por ser o que se é. Deus não poderia criar seres humanos que não fossem livres, pois, se assim fizesse criaria robôs ou animais amestrados. A condição de humanidade é indissociável do livre arbítrio. Mesmo o escravo era livre para pensar e a desculpa usada para que pudesse ser escravo era dizer que não era humano. Da mesma forma acreditamos em que um comportamento é normal ou anormal na medida em que acreditamos que sejam certos ou errados para as situações em que se revelaram.

Confunde-se muitas vezes o ato de ser livre com a finalidade da liberdade. Muitas vezes dizemos que não é bom tal pensamento ou comportamento. Nesse momento alguém pode perguntar: e o livre arbítrio? Aparentemente, a pessoa que pergunta acredita que a liberdade é uma permissão para fazer loucuras, uma senha ou ingresso dado por Deus ou pela natureza (materialismo) para se fazer o que se quer. Poderíamos perguntar: a criança é livre para não ir à escola e nunca estudar? Ser livre é ser preso aos vícios, é ser fanático da ciência ou da religião? Evidentemente, a liberdade pode ser usada para retirar a liberdade do próprio indivíduo. Não estamos nos colocando como juízes do comportamento alheio, mas apenas estabelecendo que a liberdade e o livre arbítrio não são valores em si mesmos, mas serão o que a pessoa fizer de tais direitos.

O bem é tudo o que se harmoniza com as leis de Deus. O mal é tudo o que se afasta destas leis. Ser mau é uma forma de estacionar ou atrasar o progresso moral e intelectual. O mal é o resultado da ausência do bem, onde este bem era necessário. O mal pode ser também entendido como a forma errada de se alcançar algo bom. Todos precisam de dinheiro, o ladrão foi aquele que obteve um meio errado de alcançá-lo. O Espiritismo afirma que todo ser tem alguma quantidade de bondade, mesmo que seja imperceptível à nossa avaliação. Todos os seres humanos, gradativamente, caminham em direção à bondade e os seres angélicos ou espíritos superiores são o exemplo onde esta caminhada foi totalmente concluída.

João Senna.
Salvador, 7/06/2016

MORALIDADE E ÉTICA

Nos meios intelectuais ou que dele se aproximam por simpatia, é comum um certo subjetivismo e relativismo na abordagem de ideias divergentes, visões de mundo, estudo de variadas culturas. Tal atitude é intelectualmente útil se considerarmos que, na busca do conhecimento, não devemos nos fechar em idéias preconcebidas. Parte-se do pressuposto que não sabemos tudo e isso nos deveria levar a ouvir e refletir sobre opiniões e costumes diversos dos nossos e, caso nos apresentassem um motivo razoável, mudaríamos de opinião. Abandonaríamos velhas crenças por considerá-las como não verdadeiras ou pertencentes a um tempo que não existe mais.

Tal estado de coisas ou maneira de ver o mundo, se útil como princípio, pode levar a resultados indesejáveis quando levados à última consequência. Imaginemos que eu torça para o glorioso Corinthians e você torça para o grande Bahia ou Vitória. Nada existe de errado nisso, talvez, você tenha mais fé do que eu ou, simplesmente, consiga ver o futuro ou perceber um valor romântico no seu time. Não é errado ou certo torcer para o Corinthians ou para o Vitória ou para o Bahia. Certos gostos, valores estéticos ou convicções não trazem um erro ou algo nocivo aos que neles acreditam, também não podemos catalogar tais preferências como mais corretas ou erradas, boas ou más. E porque não podemos? Simplesmente porque não temos critérios objetivos para avaliá-las, não surgiram de uma reflexão racional ou de provas materiais, não se originam de fatos. São, simplesmente, gosto e opinião.

Se transportarmos o raciocínio acima para questões morais e éticas, não teremos o mesmo resultado, aliás, o resultado será desastroso e explicaremos porque mais adiante. Primeiro definiremos ética e moral a fim de que possamos nos entender. Ética: “princípio universal e invariável que busca a reflexão de valores que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano” percebamos o aspecto universal, não cultural e invariável da ética.

Moral: “reunião de inferências socio-culturais acerca de valores morais reunidos em um conjunto que denominamos moralidade.” Percebemos que a moralidade esta ligada a costumes, a hábitos, estão relacionados a uma sociedade e, por isso, podem variar na forma como se manifestam. Não significa que sejam naturalmente aleatórios, mas que podem variar. No oriente médio está dentro de parâmetros morais um homem ser casado com quatro mulheres, mas somente se o homem for casado. Aliás, as penalidades impostas a este desacordo pode acarretar castigo físico.

Percebemos que o homem evolui intelectual e moralmente e modifica costumes, mas os valores éticos não se modificam. Os valores morais se modificam para se harmonizarem com os valores invariáveis da ética. A pessoa favorável ao aborto não considera o aborto um assassinato, pois, não considera o feto uma pessoa. Se considerasse o embrião ou o feto uma pessoa e com todos os direitos de uma pessoa, então, iria considerar o aborto um assassinato e seria contra o aborto. Mesmo na guerra onde se pode matar, há crimes de guerra. Compreendamos que os valores morais e éticos não são subjetivos e não se encontram emoldurados em um relativismo onde nada é verdadeiro, mas expressa apenas um costume.

É comum igualar costume e ética e concluir, apressadamente, que ética e moral sejam valores subjetivos e relativos e, portanto, modificáveis ao longo da história. Nada mais enganoso que confundir ética com costume. Os valores morais variam para se adequar a um senso de justiça e correção, mas os valores éticos são permanentes por se fundamentarem em valores universais e atemporais. Em qualquer sociedade atual ou passada, torturar crianças sempre foi errado. Ser desonesto nunca foi elogiado. Mesmo o ladrão sente-se indignado quando é roubado. O estuprador acha um grande erro quando sua filha é estuprada e clama por justiça. É muito frequente no meio acadêmico ligados à antropologia , à psicologia relativizar valores morais e éticos e colocá-los na coleção de simples costumes ou mesmo preconceitos.

Existe uma cisão entre o que o acadêmico acredita na acadêmica e defende no meio social e o que ele acredita intimamente. O que ele acredita intimamente esconde do mundo para não parecer politicamente incorreto ou religioso ( tido em muitas universidades como um resquício de pensamento mágico ou imbecilidade incorrigível). O mesmo psicólogo ou antropólogo que defende que a ética é subjetiva, pessoal e, portanto, arbitrária e não uma necessidade lógica… Esse mesmo indivíduo defende a ética na política e a moralidade no comportamento… Como se pode ver, falar de subjetividade e relativismo é muito fácil em um mundo imaginário como uma palestra ou defesa de tese de mestrado ou doutorado onde o mais importante é agradar os examinadores da banca, mesmo que aquilo que foi defendido se mostre falso amanhã.

O politicamente correto pode ser admirável em muitas de suas propostas, mas pode ser usado ideologicamente para nos afastar de convicções religiosas, morais e conscienciais plenamente objetivas, consistentes e justificáveis. Abolir a convicção de que existem coisas certas e erradas, morais e imorais, éticas e anti-éticas pode ser muito elegante nos meios acadêmicos, em certos ambientes sociais ou na defesa de um doutorado, mas não ajudam em nada para se alcançar um mundo melhor, um mundo onde liberdade e justiça, amor e fraternidade sejam mais que costumes, sejam mais que opiniões.

Onde não existe a noção do certo e do errado, do bom e do mau, do normal e do patológico, neste mundo existirá qualquer coisa. E, acredite, “qualquer coisa” pode ser muito bom para o desonesto e o cruel. Se você não é capaz de acreditar na verdade, que implica a existência de valores morais objetivos, assim como valores éticos, então, certamente você não pode ser ouvido, porque, se nada é verdadeiro ou certo ou errado, como poderá você nos oferecer senão palavras que nada significam? Como iremos levá-lo a sério e acreditarmos nas suas palavras se estas sempre representarem apenas verdades relativas ou preferências pessoais?

João Senna.
30/05/2016

O INFINITO E O SER ESPIRITUAL

Em O Livro Dos Espíritos a primeiro pergunta é qual a definição de Deus e, logo em seguida, temos a segunda questão onde se pergunta aos espíritos o que é o infinito. Observemos que não se trata de mera curiosidade, mas de uma necessidade lógica, desde que Deus é descrito como sendo a inteligência suprema do universo e causa de todas as coisas e apresentado qualidades em grau infinito. Temos a bondade infinita em Deus, seu poder infinito, sua onisciência e onipotência. Todas essas características envolvem o conceito de infinito e, portanto, nada mais natural que saibamos o que é o infinito.

Os espíritos respondem que o infinito é aquilo que não tem começo e não tem fim, estendendo-se daquilo que conhecemos até aquilo que desconhecemos. Nesta etapa de nossa leitura devemos estar atentos para a necessidade de usar a imaginação. Qual o limite da imaginação? Como iremos ter controle sobre “suas descobertas”? O limite será dado pela razão. Não é porque algo seja fruto da imaginação que esse algo possa ou deva ser irracional. Assim, adentraremos em um pouco de metafísica a fim de que possamos compreender certas questões espirituais.

Os espíritos são criados simples e ignorantes. Não somos criados inteligentes ou burros, bons ou maus, ignorantes ou sábios. Somos criados apenas simples e ignorantes, significa dizer que nossa evolução espiritual teve início, nossa inteligência e amor tiveram início e nossa capacidade de entendimento também. Da definição que os espíritos nos deram sobre o infinito, podemos perceber que nossa evolução não é um processo infinito, não iremos evoluir infinitamente, pois, tudo que teve início não pode ser infinito.

Nesta altura você poderá estar pensando… E Deus não tem inteligência e amor infinitos? Claro que sim, mas lembre-se que diferentemente de nós, Deus não teve início. Deus é imutável e eterno, sempre foi como é, nunca deixou de ser o que é, sempre será o que é, nunca deixará de ser. Estudando a codificação espirita aprendemos que os espíritos são classificados em espíritos imperfeitos, espíritos bons e espíritos puros. As duas primeiras classes possuem subdivisões, mas a classe dos espíritos puros é sem subdivisões. Kardec em O Livro Dos Espíritos escreve: Espíritos puros: classe única.

Se a evolução espiritual fosse infinita, não poderíamos classificar os espíritos. Não poderíamos dizer que este espírito é bom, Chico Xavier ou irmã Dulce nunca seriam classificados como espíritos bons, mesmo Jesus não seria um espírito bom. E por que motivo? Bem, vamos imaginar que a evolução fosse infinita. Qual a consequência disto? Uma das consequências é que existiriam inúmeros espíritos com evolução milhões de vezes superiores a evolução do Cristo!!! Já imaginaram um Espirito com amor milhões de vezes maior que o amor de Jesus? A simples colocação nos causa mal estar e desconfiança. Se isso fosse verdade, Jesus seria um espírito ruim se comparado a este ser espiritual. E ainda temos outra questão: existiriam espíritos superiores a este suposto espírito que é milhões de vezes superior à Jesus.

Se a evolução espiritual fosse infinita teríamos uma escala infinita com graus infinitos de evolução. O que chamaríamos de excelente em um ponto desta escala, seria péssimo quando comparado a um ponto muito mais adiante. Outra questão: o infinito tem começo? Tem meio? Perceba que em uma escala infinita, por mais que caminhássemos, sempre estaríamos a uma distância infinita do meio desta escala, de um terço, etc… Em verdade não é possível construir uma escala infinita.

Vamos comparar a evolução espiritual com uma estrada infinita. Imagine que a evolução espiritual é semelhante a uma estrada de extensão infinita. Você pega o seu avião super-sônico em máxima velocidade e começa a sobrevoar essa estrada. Daqui a um trilhão de anos, você estaria tão distante do meio dessa estrada como estava no primeiro minuto quando começou a sobrevoar a mesma. Espere um pouco? O infinito não tem meio? Bem, então estamos em pior situação que no início: não andamos nada nessa estrada… E se não andamos nada, nem a milésima parte da estrada da evolução ( qual é a milésima parte do infinito? Não é um infinito também?). Se não podemos chegar a milésima parte dessa estrada, para que serve esta estrada? Onde poderia nos levar?

Perceba você que determinar uma evolução infinita, declarar que Jesus continua evoluindo e outras colocações de semelhante natureza, nada mais é que um exercício de ilogicidade. Determinar que os espíritos puros continuam evoluindo ou fazer subdivisões entre os espíritos puros é um exercício onde a razão não participa. Allan Kardec insistiu sobre a questão do infinito e os espíritos pediram que parasse, pois, era um exercício que estava além de sua capacidade intelectual. Se Kardec possuía claras limitações, imaginam qual o tamanho da nossa?

É verdade que muitos poderão discordar destas colocações, já presenciei muitas vezes tal fato. O que nunca presenciei foi uma justificativa lógica para tais declarações. A codificação espírita não permite falar em evolução infinita e muito menos parece-nos razoável brincar de classificar Jesus. Por que dar nota à Jesus como se fossemos mestres e Jesus nosso aluno? Quando declaramos que Jesus continua evoluindo, significa que não demos nota dez em evolução para o mestre. Tenho certeza que todos os que declaram que nosso senhor continua evoluindo o fazem com o propósito de engrandecerem Jesus, nunca tiveram a intenção de dar notas ao Cristo, mas sem querer acabam, do ponto de vista da razão e da lógica, entrando em uma área que está muito além da nossa capacidade de análise.

Na questão 169 de O Livro Dos Espíritos temos:
É invariável o número de encarnações para todos os espíritos?
Não; aquele que caminha depressa, a muitas provas se forra. Todavia, as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas porquanto o progresso é QUASE infinito”

João Senna.
Salvador, 5/08/2016

FENÔMENO ESPÍRITA OU ESPIRITUAL?

Os fenômenos de natureza espiritual são parte da natureza. Kardec estudou os fenômenos mediúnicos com a mesma naturalidade que se estuda os fenômenos da meteorologia, pois, ambos fazem parte dos fenômenos naturais. Tais fenômenos acompanham a humanidade em todas as suas etapas do seu desenvolvimento, sendo comuns para o homem das cavernas da mesma forma que o são hoje. Pode-se dizer que em ternos de uma lógica rigorosa, não existem fenômenos espíritas e sim, fenômenos espirituais. Os espíritas e o Espiritismo não são proprietários de tais fenômenos, embora, os expliquem de forma racional e baseados na própria fenomenologia com que se apresentam.

Se os cientistas tivessem se debruçado sobre os fenômenos espirituais sem isenção de ânimo, sem preconceitos, teriam chegado às mesmas conclusões à que chegou a codificação espírita. Infelizmente, a ciência e seus representantes deixaram-se encantar por uma visão materialista e, portanto, incompleta da realidade. O Espiritismo explica os fenômenos mediúnicos, não os criou ou subordinou a uma visão preconcebida dos mesmos. Kardec reformula opiniões e conceitos ao longo de seus estudos e pesquisas, de forma que o Espiritismo surge deste amadurecimento e da orientação dos espíritos superiores.

Afirma-se no movimento espirita que a época da fenomenologia espiritual já passou, pois, tais fenômenos já não se fazem necessários. Teríamos alcançado um nível de esclarecimento suficiente para deles não precisarmos. Mas pergunto: nós, quem? Será que os fenômenos espirituais foram feitos somente para os espíritas? Se juntarmos todos os espíritas do mundo teremos não mais que dez milhões de almas. Será este número suficiente para o esclarecimento da humanidade? Certamente que não. No máximo podemos dizer que nós, os espíritas, não precisamos mais deles para nos convencer da realidade espiritual e nunca que o mundo deles também não precise. Mas o fenômeno espiritual não tem somente o objetivo de demonstrar a realidade do espírito, tem inúmeras outras finalidades como a orientação espiritual e a consolação.

O intercâmbio com os espíritos é algo natural, não objetiva apenas a demonstração da realidade da imortalidade da alma. Os espíritos superiores poderiam se materializar com frequência se estivéssemos aptos para aproveitar seus ensinos. Conversar com parentes e amigos falecidos é antes fonte de consolação, não um espetáculo para os descrentes. Acredito que no futuro, quando a sociedade for constituída em sua maioria por espíritos moralmente adiantados e intelectualmente dispostos a aproveitar os ensinos de natureza superior, nesta etapa da evolução humana, será muito mais frequente o intercâmbio ostensivo com os espíritos superiores. É inútil um espírito superior se materializar para ensinar para aqueles que não estão dispostos a aproveitar seus ensinos.

É necessário a sublimação dos sentimentos e uma reformulação do comportamento social a fim de que a fenomenologia espiritual possa se ampliar de forma ostensiva na sociedade. Futuramente teremos aparelhos capazes de materializar os espíritos, de permitir a comunicação visual e sonora com os mesmos. Atualmente, se tais aparelhos existissem, seriam utilizados para o intercâmbio com espíritos inferiores que melhor retratam os anseios de expressiva parcela da humanidade.

A época dos fenômenos espirituais não passou, apenas nós é que não fomos capazes de merecer o intercâmbio mais ostensivo com os bons espíritos. É indispensável reavaliar à nós mesmos para não nos colocarmos como porteiros do intercâmbio entre os dois mundos. Emmanuel revela que, na etapa em que a humanidade se encontra, somente dois fatores justificam a materialização dos espíritos: a pesquisa científica e o trabalho de cura espiritual. Observemos que Emmanuel é prudente e revela: na etapa atual da humanidade e isto significa que, o que impede a abundância de fenomenologia “espírita” é a dureza de nossos corações.

Conversar com os espíritos, evocar os espíritos, materializar os espíritos. Nada disso é coisa do outro mundo. Nenhum desses fenômenos é propriedade dos espíritas. Se Allan Kardec conseguia comunicar-se com grandes personalidades da história universal, tal se deve, não à abundância ou preparo dos médiuns europeus, mas à seriedade e o amor que dedicou à codificação espirita. Se tivéssemos tal seriedade ou preparo intelectual, se a sociedade estivesse realmente interessada em se preparar para a vida que sucede a vida, se tivéssemos a fé do tamanho de um grão de mostarda, então, teríamos uma abundância de fenômenos espirituais e nada nos seria impossível, como nos ensinou Jesus.

João Senna
Salvador, 31/072016

POR QUE CRER EM DEUS?

Percebemos que não se vive sem crenças. Não se trata apenas de uma questão de gosto ou um hábito social, crer é algo inevitável porque faz parte da nossa estrutura mental. Acordamos e dormimos por acreditar que o mundo estará nos aguardando na próxima manhã. E assim vivemos fundamentados na fé em nós mesmos ou no mundo que acreditamos ser regido por uma ordem e que o mundo permanecerá o mesmo, pelo menos, para nossos propósitos existenciais.

O fato de crer, entretanto, não estabelece a realidade. Podemos crer em verdades ou mentiras, em coisas possíveis ou estabelecidas, em fatos ou suposições, podemos confundir opinião com a realidade e esta com desejo. O nosso mundo mental não estabelece a realidade, mas nos faz ver a realidade da forma que a vemos, forma esta que nem sempre corresponde à realidade real, mas a “realidade” que a mente imagina. Existem, portanto, crenças falsas e verdadeiras. Trabalhos científicos bem conduzidos ou mal conduzimos onde utilizamos a estatística para amenizar as incertezas inerentes à atividade da ciência. Da mesma forma existem religiões verdadeiras e falsas religiões, como existem bons hospitais e hospitais ruins, boas escolas e escolas deficientes ou notoriamente de pouco ou nenhum valor. Devemos, portanto, estabelecer se e quando nossas crenças são verdadeiras ou falsas.

A crença em Deus é a mais importante de todas, pois, dessa crença irá depender todas as outras crenças e a mais importante crença: quem acreditamos ser? O pessimista acha que nada irá ser bom, nem ele mesmo. Quem somos, a forma de nos relacionar com o mundo, com as pessoas e o que pensamos à respeito de nós mesmos dependerá, fundamentalmente, se acreditamos ou não na existência de Deus e qual o Deus que acreditamos. Voltaire pronunciou em discurso que fez na Maçonaria: eu não acredito no Deus criado pelos homens, mas acredito no Deus que criou os homens.

Se você e eu somos seres destinados à imortalidade ou se somos destinados ao cemitério. Se nossas vidas tem um significado a ser descoberto e realizado ou se somos seres circunstanciais e contingentes, se o caminho do bem e do mal são caminhos diferentes ou não passam de criações, de convenções sociais, tudo dependerá da existência de Deus. Se Deus não existir, continuaremos a viver, mas da forma que desejarmos, pois, não haverá finalidade para a existência, exceto, a finalidade que inventarmos. Hitler possuía a finalidade de exterminar tudo o que julgava nocivo ao bom futuro da humanidade, madre Teresa acreditava que todas as vidas possuíam uma finalidade, pois, todas foram criadas por um ser de inteligência suprema e causa de todas as coisas. Percebamos que não basta acreditar em Deus, é indispensável saber interpretar a vontade de Deus e se o Deus que acreditamos é o Deus dos vivos e não o Deus dos mortos como ensinou Jesus.

Percebemos que nem todas as coisas são perfeitas ou parecem ter utilidade. Existem pessoas com retardo mental severo e que passam a existência sorrindo sem motivo e nunca conseguirão
formar um frase mais longa e que tenha sentido. Se você acredita em Deus, irá intuir que suas vidas tem valor para si mesmas e para aqueles que dela se responsabilizam. Mesmo que você não acredite na reencarnacão e na lei do carma, ainda assim você compreenderá que Deus sabe a finalidade da vida desta pessoa. Que esta pessoa é de vital importância para a sociedade. Acreditará que seus cuidadores não fazem um favor ao cuidar dessa pessoa, mas que ao cuidarem dela, estão trabalhando para o próprio aperfeiçoamento espiritual. Certamente que os cuidadores, quando a cuidam com amor, tem inestimáveis méritos e virtudes, mas não se trata jamais de um simples favor o ato de amar.

As nações onde o materialismo e sua descrença em Deus são mais prevalentes como Holanda, Bélgica e Suíça, aprovaram em lei a eutanásia para doentes graves ou que se tornarão graves em futuro, às vezes, distante. Estabeleceram em lei a possibilidade do o aborto não terapêutico baseados na opinião da mãe sem necessidade de outra justificativa. A primeira nação a aprovar o aborto foi a Alemanha nazista e, certamente, não foi evocando o nome de Deus. A ausência de Deus nos sentimentos e nos pensamentos ou um pensamento contrário à realidade de Deus, conduzem a funestas consequências.

Acreditar em Deus oferece à alma expectativas grandiosas. Percebemos à nós mesmos como seres destinados à felicidade e não a uma vida efêmera que se sujeita as circunstância da vida como doenças, dificuldades financeiras e emocionais. Em Deus estamos seguros para poder sonhar e viver uma vida em abundância, não apenas um projeto de vida destinado ao fracasso da morte. Não somos estranhos uns aos outros e, tampouco, uma aventura inútil da existência, somos filhos de um mesmo Pai e, naturalmente, irmãos. A natureza não é estranha à nós, fomos feitos para viver em harmonia com a natureza. No Eclesiastes está escrito: a natureza canta as glórias de Deus e contempla a sua face e, nesse Deus acreditamos.

O MÁXIMO DO AMOR

É difícil definir aquilo que nasceu para ser sentido. Não importa o quanto venhamos a compreender o amor, essa perspectiva jamais será comparável ou substituirá a experiência do amor. Mas, se é verdade que nunca definiremos o amor com a mesma grandiosidade com que podemos senti-lo, nem por isso defini-lo será sem proveito. É necessário que, pelo menos, saibamos o que não é o amor a fim de não nos confundirmos. É um empreendimento difícil, porque quase sempre temos falado do amor, sem ao menos vivência-lo em sua plenitude.

Todos amam? Sim, pois, não se pode viver sem amor, sua ausência absoluta reduziria o homem e a mulher mais inteligentes a simples objetos de uso pessoal. Somente os seres cujo psiquismo não alcançou a aurora da razão e da sensibilidade, não amam. Amar é doar-se e todos se doam. Alguns se oferecem ao trabalho e sacrificam saúde, alegria e mesmo a família ao mergulharem na vida profissional. Oferecem todo seu amor ao trabalho e ao se aposentarem, perdem a alegria ao se afastarem do seu amor. Outros se entregam à fama, ao poder político ou econômico, diferentemente de outros que o entregam a si mesmos como Narciso o fez ao se olhar no espelho que as águas do lago refletiam. Pode mesmo o ser amado apresentar-se na forma de objetos inanimados. Assim, o ser mais vil, o ser mais abjeto tem amor por objetos, animais e plantas, mesmo odiando os seres humanos, como nos ensina O Evangelho Segundo O Espiritismo.

Ao analisarmos o amor ficamos maravilhados com a sua grandiosidade e tanto nos encantamos na sua presença que acreditamos ser o amor algo integral, absoluto e que nasceu pronto. O amor, entretanto, como todas as coisas não nasceu pronto, não é igual em todos e possui gradações que sucessivamente progridem: amor simpatia, amor amizade, amor abnegação e, por fim, amor sacrifício da própria vida. Apenas sabemos o grau do amor quando ele se revela em plenitude e, felizmente, não precisamos demonstrar todo o seu poder. Nossa existência não é uma guerra constante, um permanente heroísmo, mas é nessas horas que o amor, quando existe, se revela em plenitude. Ficamos satisfeitos com indícios indiretos do amor. Mas existe uma exceção nesta realidade: o amor de nossas mães, ele se revela em plenitude por não exigir nada em troca e, geralmente, pouco ou nada recebe.

De onde nasce o amor? Nasce de Deus, pois, algo tão grandioso somente poderia surgir de algo igualmente grandioso. Pelos efeitos remontamos às causas. Certamente, Deus poderia não ter nos criado ou nos criado perfeitos para que pudesse contemplar de uma só vez a plenitude de sua obra. A questão é que Deus não nos criou por uma necessidade da razão, mas por ato de seu amor. A vida, portanto, é uma graça divina como nos ensina a teologia católica, espírita e protestante. Se fôssemos criados perfeitos, nunca teríamos a alegria de sermos perfeitos, pois, perceberíamos a perfeição como algo trivial. Quando admiramos alguém que participa de uma maratona, por que fazemos isso? Certamente, pela dificuldade. A mesma admiração não teríamos quando alguém participasse de uma corrida de trinta metros. O mérito e a admiração está associado ao sacrifício.

Quais os tipos de amor? Há gradações e tipos de amor? O amor é único em sua essência porque sua fonte é única, sua origem é Deus. A questão surge quando o amor passa a fazer parte da nossa existência. Somos estruturalmente criados para evoluir, para atingir a plenitude da razão e do sentimento. O amor é a sublimidade do sentimento, seu ápice evolutivo, sua conquista maior. O amor, ao se transportar para nossa realidade, reveste-se de nossa roupagem espiritual, da mesma forma que um belo traje pode vestir um corpo disforme. Sendo imperfeitos, não se pode esperar que o amor em nós se manifeste em sua plenitude. O nosso amor reflete nosso entendimento do que seja o amor, limita-se à nossa capacidade de amar. Surge o amor mesclado ao egoísmo e à vaidade, à precipitação e aos preconceitos que tão bem nos revelam.

Percebemos em nós mesmos as gradações do amor. Na adolescência temos o amor escandaloso, o amor que tudo quer enfrentar, mas que se desvanece ao sopro das primeiras dificuldades. São os beijos e abraços que não podem ser contados, mas apenas calculados, os bilhetes de amor cor de rosa e perfumado, as ligações intermináveis e as juras de amor eterno que, dificilmente, duram doze meses. O amor pegajoso e desconfiado, as pequenas e intermináveis discussões por bobagens e os risos sem grande motivo. É o amor infantil, o amor paixão que quer apenas receber e que se consome ao apagar das luzes da empolgação. Certamente existem exceções, mas não são comuns.

Na maturidade, quando o ser espiritual consegue desvencilhar-se da adolescência, temos o amor um pouco mais equilibrado. Ainda não temos a plenitude do amor, mas um pouco mais de discernimento. Nessa fase existe, em muitos casos, o uso da reflexão, a análise um pouco mais demorada em relação ao ser que se deva amar. Claro que o amor tem suas surpresas, mas já temos um controle melhor daquilo que desejamos e daquilo que devemos querer. O amor já não reina como um rei despótico que tudo põe abaixo para alcançar seus objetivos. Sabemos que nem tudo que queremos podemos ter, nem tudo que agrada aos olhos faz bem ao coração. Em uma visão otimista, o homem e a mulher adultos não esperam o príncipe encantado ou a mulher maravilha, mas tampouco se satisfazem com o homem das cavernas ou a bruxa de plantão.

Amar é compreender o outro sem abdicar das próprias convicções. É dar tudo de si, sem violentar a consciência. É ser parceiro, sem diluir-se no outro. É conquistar o direito de entregar-se sem economia, mas sem fazer loucuras. Caminhar juntos, mas na direção do que for justo. É não preocupar-se em medir o amor, porque o amor que se mede é também o amor que se irá cobrar. E sentir-se preso voluntariamente, estar vazio para preencher o outro e sorrir sem motivo. É fazer da alegria do outro a sua própria alegria e esconder a tristeza de si mesmo se for necessário para que o amor não seja diminuído.

A expressão máxima do amor é o amor das mães que nada pedem e quando esperam o fazem em silêncio. É um pouco do amor de Deus transportado para o mundo, é o futuro do amor. Um elo de natureza espiritual une todas as coisas, governa os mundos e dirige os seres. O amor das mães é um ensaio bem sucedido desta força espiritual. Em Jesus alcançamos a gradação máxima do amor, amor capaz de dividir a história e inspirar santos e heróis e transformar criminosos em homens de bem.

Em Cristo alcançamos o máximo do amor. Sua simples presença curava as doenças do corpo e da alma e o Reino de Deus era transportado das regiões celestes para o coração dos que o viam e ouviam. Não possuía técnicas especiais ou talismãs, poderes secretos ou recursos econômicos, não comandava soldados e, tampouco, possuía heróis ao seu serviço. Era a luz dos séculos sem fim, o filho do Deus vivo, não o Deus dos homens, o Deus acanhado. Era o filho que alcançara a plena comunhão com seu Pai, que o revelara, não com palavras, mas com a cruz do calvário e o sacrifício da própria vida.

TRANSE MEDIÚNICO: CONTROLE DO ESPIRITO OU DO MÉDIUM?

 

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Foto: rede amigo espírita

O Transe Mediúnico é um estado alterado da consciência onde a mente de um espírito desencarnado entra em contato mais acentuado com a mente do escarnado (médium). A despeito da interação mental entre espíritos ser algo constante, pois, a mente pode ser comparada a uma estação receptora e transmissora de pensamentos, chamaremos o transe a um aprofundamento desta interação. Este fenômeno é conhecido como incorporação ou psicofonia.

Ao conjunto de fatores que estabelecem a ligação entre médium e espírito comunicante denominamos sintonia mediúnica. Não se trata apenas de uma capacidade orgânica de assimilação de fluidos espirituais que permitam a interação. Apesar do processo ser orgânico, suas causas são inteiramente espirituais. Sintonizamos com os espíritos que se assemelham com nosso forma de sentir, pensar e agir. Se gostamos de filosofar atraímos espíritos de filósofos ou mais filosóficos, se preferimos temas místicos,  teremos a companhia de místicos. Muitos preferem ter a bebida alcoólica como companhia e atrairão, naturalmente, espíritos vinculados ao álcool. Ao praticar a caridade, atrairemos espíritos vinculados ao bem, se preferimos a maledicência e outros vícios, estaremos em companhias que se afinam a tais tipos de comportamento. Nas reuniões mediúnicas, os mentores do trabalho direcionam os espíritos para determinado médium na dependência dos recursos que este médium ofereça às necessidades do espírito que irá manifestar-se.

O momento do transe mediúnico é aquele em que o intercâmbio espirito-médium se dá da forma mais intensa. Podemos dizer que o espírito comunicante, por momentos, passa a vivenciar a vida de encarnado. O mergulho nos fluidos do médium pode se apresentar como recurso terapêutico favorável à estruturação do perispírito e das emoções daquele que se comunica. Poderá ainda favorecer que o espírito possa visualizar outros espíritos que o queiram ajudar. O restabelecimento de seu equilíbrio emocional pela atuação terapêutica dos fluidos do médium amplia, automaticamente, o seu campo perceptivo e assim poderá visualizar amigos e parentes no plano espiritual. Esse expediente apresenta-se de inestimável valor no seu reequilíbrio espiritual.

Até que ponto médium deverá  “entregar-se” à comunicação mediúnica? Certamente até o ponto em que isto for favorável ao processo que se realiza. A função da comunicação mediúnica não é permitir que o espírito faça o que desejar, mas que seja feito o que for favorável ao seu equilíbrio. O médium tem, portanto, o papel de controlar o processo, afinal, é ele que deve estar em equilíbrio emocional, não o espírito que irá ser auxiliado. Poderá o doente submetido a um procedimento cirúrgico ter o controle sobre o cirurgião, sobre a equipe cirúrgica e o sobre a própria cirurgia?  O médium, como o cirurgião, deve ter o controle do processo. O espírito deve expor sua emoção, mas o médium não precisa assimilar a emoção desequilibrada do espírito como se fosse o seu desequilíbrio, porque se o fizer passará ele mesmo ser outro espírito em desequilíbrio. Muito menos o médium fará parceria com o espírito que se comunica passando ambos a viverem em identidade de propósitos. O médico não necessita ficar doente para cuidar do doente e o mesmo se aplica ao médium. Linguagem vulgar, reações motoras intempestivas ou gestos obscenos deveram ser impedidos pelo médium que, afinal, deve ter um equilíbrio emocional melhor do que o do espírito que se comunica, da mesma forma que o cirurgião deve estar em melhor situação que o paciente que vai operar, sobretudo, quando o paciente se encontra em grave estado.

O médium não necessita mimetizar nos mínimos detalhes os sentimento, as palavras  e o modo de ser do espírito comunicante. Não se trata de uma peça teatral onde o melhor ator é o que melhor representa o personagem. Não é a comunicação de auxílio aos espíritos sofredores   um expediente para a identificação de espíritos ou para se provar a imortalidade através das características exatas do espírito que se comunica. Não é uma competição o ato mediúnico, mas um ato de amor. O amor exige disciplina acima de tudo. Deverá o médium ajudar o doutrinador, não fazer uma parceria com o espírito comunicante. Aumentar a força de um espírito perturbado intelectualmente e doente emocionalmente nada mais é que concordar e fortalecer seu desequilíbrio.

Em relação à comunicação dos mentores do médium e da equipe espiritual que coordena o trabalho, a comunicação poderá se processar de forma diversa. Idealmente, o médium deverá permitir que tais espíritos se expressem com a máxima desenvoltura a fim de que a comunicação se dê com máxima fidelidade. Quanto melhor o espírito se comunique, quanto mais livre for para expressar pensamentos, gestos e linguagem, tanto mais bela e proveitosa será a comunicação. É a situação diametralmente oposta à comunicação de espíritos necessitados de orientação e amor, porque no caso dos bons espíritos que se comunicam, é a emoção do médium e seus fluidos que serão equilibrados e não os do espírito comunicante que já se encontra plenamente harmonizado.

Perceba-se que sempre o médium deverá ter o controle da comunicação. No caso dos bons espíritos permitindo que nos auxiliem e favoreçam a harmonia do médium e do ambiente e no caso dos espíritos necessitados, permitindo que uma comunicação controlada favoreça que o equilíbrio espiritual desses espíritos seja restabelecido. Devemos usar o bom senso e a racionalidade em todas as situações. O Livro dos Médiuns deverá ser estudado e refletido por todos os médiuns que queiram fazer da comunicação mediúnica um elemento de amor e aprimoramento espiritual. Nele encontraremos a diretriz segura para nossa conduta diante da complexidade do fenômeno mediúnico, complexidade esta que não poderá ficar totalmente à mercê da experiência pessoal de médiuns, dirigentes, opiniões ou divagações de toda espécie, em que pese o respeito e consideração que devamos ter por pessoas e instituições.