ALVIN PLANTINGA E A FORMAÇÃO DA CRENÇA

 

Alvim Plantinga é, um dos mais destacados filósofos mais da atualidade em relação ao estudo da religião. Ele nos traz uma perspectiva lúcida e revolucionária para os fundamentos da crença. Muitos filósofos e especialistas em diversas áreas entendem que a concepção de Plantinga seja uma das maiores contribuições para a teoria do conhecimento e, particularmente, no entendimento para os motivos da fé.

Advoga nosso filósofo que existem dois tipos de crenças : crenças básicas e crenças não básicas. Entre as primeiras temos, por exemplo: creio que estou digitando um texto agora, que tenho um tablet em minhas mãos, que tomei café da manhã hoje. São crenças que não precisam de uma justificação racional. E sei, por exemplo, que existem outras mentes além da minha, mas não tenho como provar isso racionalmente. Não existe possibilidade de demonstrar cientificamente, que tudo o que penso não passa de imaginação. Um experimento científico poderia ser fruto da minha imaginação e esta imaginação poderia ter para mim um caráter de pura realidade. Parece estranho questionar tais coisas porque estamos habituados a elas. Algo semelhante acontece quando acordamos de um sonho que parecia ser real.

Existem crenças não básicas como o fato de meu carro ter sido fabricado pela Ford. Existe uma forma de verificar isso, embora, eu acredite nisso, tal crença não é básica. Você, por exemplo, acredita que não é um filho adotado, mas essa não é uma crença básica. Existem meios de constatar isso, como um exame de dna, testemunhas, etc…

O problema maior é definir quais crenças são básicas e quais não são básicas. Quais seriam os critérios para tal distinção? Acredito ter diante de mim um tablet e de estar sentado no sofá, essa crença é justificada, é auto- evidente. Acreditar nelas não exige uso da razão, pois, fundamentam-se na experiência, não exigem outras crenças.

Existem filósofos que acreditam que só podemos crer naquilo que for racional, devemos apenas crer naquilo que nos pareça lógico e isto exige evidências favoráveis a nossas crenças. Creio por ter razões para isso e ter razões significa ter evidências que estão além do meu desejo, que não dependem de mim. O problema é que se eu não acredito em algo por não ter evidências, então, para deixar de crer nesse algo devo acreditar também que tais crenças não justificadas não mereçam crédito. Ora, isso eu não tenho. Não tenho evidências para acreditar que crenças sem evidências sejam crenças falsas. Ainda assim, poderiam ou podem ser verdadeiras. Ao não crer em algo sem evidências, acabo por descrer sem ter evidências. Essa concepção em crer somente naquilo que existem evidências é uma forma de crença sem evidências.

No livro O Evangelho Segundo O Espiritismo está escrito: “acostumai-vos a não descrer naquilo que não compreendeis” É interessante que 150 anos antes de Plantinga, os espíritos já defendiam um concepção considerada revolucionária para os dias de hoje. Os fundamentos últimos da crença são de natureza metafísica. A própria ciência materialista tem fundamentos metafísicos que não estão submetidos a uma concepção materialista da existência, concepção que em que se fundamenta a ciência contemporânea. A existência de uma ordem universal é pré-requisito para se fazer ciência, mas uma ordem universal é elemento estranho a um universo material, o único mundo admitido pela ciência.

Plantinga defende que a crença em Deus é uma crença básica. Não exigiria evidências externas para termos essa crença como justificada e racional. Cremos em Deus por percebermos intuitivamente, congenitamente, que o universo tem uma ordem. Que ter gratidão, sentir culpa, ter a noção de certo e errado, que existem coisas belas. Tudo isso é de apreensão imediata. São crenças básicas assim como a crença em Deus. Crer em Deus ou na beleza ou sentir gratidão são elementos que formam o nosso entendimento da vida, são pré-requisitos onde encontramos significado no mundo e em nós mesmos. Todas as outras crenças são derivadas destas crenças básicas, onde a crença em Deus seria a mais básica de todas.

Allan Kardec pergunta aos espíritos: o que se deve pensar ou que conclusões devemos tirar sobre a crença em Deus, crença que observamos em todas as culturas? Os espíritos simplesmente respondem: que Deus existe.
Kardec prossegue: mas estas crenças não poderiam ser fruto da cultura, do aprendizado? E os espíritos respondem: E os vossos selvagens, de onde tiraram a crença em Deus? Aliás, sobre tais assuntos, os selvagens pensam muito melhor que muitos homens ditos civilizados.

O Espiritismo advoga uma fé baseada na razão, mas não declara que o fundamento da fé seja a razão. Tem como lema”Fé inabalável somente o é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade” Tal, porém, não significa que uma fé não racional não seja verdadeira ou que não seja oportuna e útil. Simplesmente, diz que é mais conveniente aceitarmos nossas crenças baseados também (não exclusivamente) na razão.

Se aceito algo que, no fundo, é irracional, então, amanhã tal crença poderá se revelar falsa, daí ser abalada. Podemos ter fé em certas idéias porque no fundo, no nosso inconsciente, nas nossas vidas anteriores, já aprendemos que tal crença é verdadeira, mesmo que no momento não tenhamos argumentos racionais para se crer. Evidentemente, é um risco não saber se algo é realmente verdadeiro ou falso, mas é um certo risco que se corre pelo fato de se estar vivo. Não podemos submeter todas as nossas crenças ao uso da razão sob pena de vermos paralisada a própria vida. Tudo o que fazemos é baseado em crenças.

O Espiritismo advoga uma fé racional por possuir argumentos racionais e experimentais para tal declaração. Nunca disse que outros crentes estavam errados em crer sem fazer uso da razão, apenas declara que uma fé não racional poderá e será abalada em alguns aspectos, embora, essencialmente, esteja ou possa estar correta em inúmeros outros aspectos. Declara que a religião que não melhora o crente é falsa ou foi falseada em seus princípios. Talvez seja este o melhor critério para identificarmos uma crença verdadeira.

João Senna.
Salvador, 7/04/2016

DEPOIS DA MORTE

É muito saudável esperar algo mais de si mesmo. Existe um senso de satisfação pessoal com aquilo que se é, a própria insatisfação sugere que poderíamos ser melhor. Assim é que somente os anjos estão plenamente satisfeitos. Quando digo insatisfação, não me refero àquele sentimento de incompreensão diante do inevitável ou a indignação improdutiva em não aceitar o que poderia ser oportunidade de crescer emocionalmente. Ao acreditar na imortalidade você não mais ficará satisfeito com o que é, mas procurará ser tornar cada vez melhor. É para isso que serve a imortalidade.

A forma como entendemos o que ocorrará depois da morte modifica profundamente o que somos e sentimos agora mesmo, neste mundo dos chamados vivos. A perspectiva de encontrarmos a nós mesmos em outra dimensão após a morte nos dá novas responsabilidades, aliás, revela novas responsabilidades e atitudes na forma de vivermos a vida que vivemos agora. A grande novidade que o espiritismo revela é que não há novidade alguma. Após essa vida você continuará a viver, sendo você mesmo com a felicidade que todo dever cumprido traz a todos nós.

Qundo lemos ” viva a sua vida como se fosse o último dia, viva a sua vida intensamente porque você só tem uma” ficamos perplexos porque isso é exatamente o que quase todos fazem. O homem vive como se fosse acabar com a morte e, por isso, vive preocupado apenas consigo mesmo e quando muito com seus familiares. O que é o egoista senão aquele que vive cuidando apenas de sua vida?

Viva como se nunca fosse morrer, cuide do próximo como se fosse encontrar esse próximo após essa vida e fosse precisar dele. Cuide de sua mãe e amigos e irmãos como se fosse fosse ficar frente a frente com eles em um futuro distante ou não tão distante quanto vocé imagina. Cuide bem deles para que o remorso ou a vergonha não o acompanhe depois de transpor a morte. Faça isso, não é favor que você e eu fazemos, senão a nós mesmos, porque depois da morte existe vida.

COMO SE MORRE?

 

A morte é um tema pouco atraente porque acreditamos que seja o nosso fim. Usamos muitos eufemismos quando a ela nos referimos: foi dessa para melhor, descansou, está com Deus, subiu para o andar de cima. Todas essas expressões traduzem a vontade de amenizar o que a morte representa ou parece representar: o nosso fim. Nos Estados Unidos é hábito maquiar o morto para dar-lhe uma aparência melhor. Os judeus não podem mexer no corpo, não podem, por exemplo, colocar algodão no nariz, etc… Negando a morte através de enfeites ou venerando o corpo morto, o fato é que a morte não é nada popular.

Quem poderia nos dizer o que é morrer? Como se processa o momento da morte? Bem, quem poderia nos dizer o que é cozinhar, senão um cozinheiro ou o que é ser professor, senão um professor? Do mesmo modo, a melhor pessoa para nos dizer o que é morrer, naturalmente, é o morto. Como é morrer? Ora, pergunte para quem já morreu. E foi isso que o Espiritismo fez. Allan Kardec pergunta aos espíritos: é doloroso o momento da morte? E os espíritos respondem: geralmente não, sofreis muito mais quando estais vivos. Outra pergunta: por que se morre? E os mesmos respondem: esgotamento do corpo. O corpo é que abandona o espírito. Não tendo mais como se ligar a um corpo morto, o espírito naturalmente se liberta do mesmo. Enquanto estais vivos, sois prisioneiros do corpo.

Outra questão respondida é se a morte seria igual para todos. Os espíritos respondem: certamente que não. A forma da morte dependerá, em parte, do tipo de morte. Nas mortes violentas ou inesperadas tende a ser maior o aturdimento do espírito. Seu estado de confusão ao chegar no mundo espiritual é maior. Nas mortes naturais e naquelas onde o encarnado não negou para si mesmo que iria morrer, o estado tende a ser melhor. A compreensão espiritual do encarnado o ajuda muito. Se ele sabe que irá continuar a viver depois de morto, é muito mais fácil entender a sua situação ao chegar no mundo dos espíritos.

Qual o principal fator que favoreceria uma libertação mais tranquila do espírito e seu futuro estado no mundo espiritual? Sem dúvida o fator preponderante e favorável a uma melhor situação do recém desencarnado é a sua condição moral. As pessoas de bem são recebidas imediatamente e com júbilo por amigos e familiares no mundo espiritual. Quanto menor o apego as circunstâncias da terra e quando maior a fé em Deus, tanto melhor será a situação do morto. O apego aos vícios como cerveja, cigarro, sexo sem equilíbrio emocional e desvinculado do amor, apego excessivo ao trabalho, a filhos e parentes chegando ao sentimento de posse, o remorso, a vaidade, enfim, todos os fatores contrários à caridade são reais dificuldades a serem enfrentadas pelo recém desencarnado.

Ninguém morre da mesma forma. Cada individualidade irá se libertar do corpo conforme o gênero de vida, idéias e sentimentos que cultivou. Muitos irão para as regiões de sofrimento do mundo espiritual onde se libertarão após tempo variável a depender de sua realidade espiritual, outras ficarão presos a situações da vida corporal tentando em vão continuar a viver como se pertencessem ao mundo dos encarnados. Por fim, existirão aqueles que retornarão ao mundo espiritual como vencedores de si mesmos, como leais cumpridores da lei de Deus, os que muito amaram e compreenderam seus irmãos. Os homens e mulheres de bem retornam à pátria espiritual onde são recebidos com júbilos por amigos e familiares para, felizes prosseguirem a caminhada em busca da própria redenção no trabalho incessante do bem ao próximo. O apóstolo Paulo os descreve: a alma do justo não verá a segunda morte.

MUITOS MEDOS

 

Jamais saberemos todos os medos, eles são profundos e se não nos prendessem à terra, certamente subiríamos aos brilhos das estrelas. São tão profundos e misteriosos quanto a alma de quem ama e podem sussurrar nos ouvidos dos amantes ou daqueles que mergulharam na amargura. Mas são muitos os seus nomes e de nós são conhecidos como espectros de sombras que se não fossem inconvenientes, bem que poderiam ser nossos amigos.
O medo de estar errado -arrogância.
O medo de estar certo-timidez.
O medo de sentir-se abandonado-solidão.
O medo de não ser compreendido-insegurança
O medo de perder o amor-ciúmes.
O medo de compreender-intolerância.
O medo de não se sentir capaz-inveja.
O medo de encontrar a paz-irritação.
O medo de ser amado-indiferença.
O medo de perdoar-mágoa.
O medo de encontrar a paz-agressividade.
O medo de ser imortal-materialismo.
O medo de amar-egoísmo.
O medo de acreditar no futuro-descrença.
O medo de ter medo-prepotência.
O medo de ser feliz-amargura.
O medo de ser ajudado ou amado-agressividade.
Mas há também um conjunto de luzes que tornam a vida plena de imensidade e tal verdade penetra nossa existência como um coro de anjos ou como um beijo de mãe, consola como a esperança e traz abrigo como a fé. Tem certezas que esclarecem e brisas que refrescam, traz a luz das estrelas e o canto dos passarinhos, eleva-se sobre as montanhas, visita a profundeza dos oceanos e se ergue muito além das estrelas. Não se mostra aos que não podem vê-la, desvela-se aos corações humildes, aquece os que muito amam, protege os aflitos. Se puderes encontrá-la chame-a e não a deixes partir mesmo que os séculos terminem ou que o infinito se acabe, porque ao seu lado nada te faltará e se quiseres chamá-la , ela atende por muitos nomes, mas o principal deles é-CARIDADE.

João Senna. 26/5/2015

A SALVAÇÃO, A FÉ, A CARIDADE.

 

Fora da caridade não há salvação. Esta é a bandeira do Espiritismo, o seu lema principal. O objetivo do Espiritismo não é fazer a multiplicação do número de espíritas ou expandir o Espiritismo na busca de uma hegemonia tão ao gosto dos poderes terrenos. O alvo, a razão de ser do Espiritismo é tornar o homem melhor e isso se faz tornando o homem um ser caridoso. Não se é melhor apenas quando se é mais inteligente ou culto, embora, tais aquisições sejam um bom começo quando se sabe o que fazer da cultura e da inteligência. O problema de muitas nações ou pessoas não está, propriamente, na sua falta de inteligência ou cultura, mas no excesso de “esperteza”, que é o resultado da união da inteligência e da cultura na pessoa que não ama.

Creio que muitos interpretam a caridade de uma forma superficial e passam a considera-lá uma pessoa, um ser que, pessoalmente, viria nos salvar. Ouvi mesmo muitas críticas ao Espiritismo devido a esta interpretação equivocada sobre o papel exato da caridade na vida de cada um. Muitos religiosos de outras filiações dizem: mas o espirita salvará a si mesmo através da caridade? Nossos irmãos se esquecem que poderíamos retrucar: e vocês salvarão a si mesmos através da fé? Claro que nem a fé ou a caridade poderão vir nos salvar. Se você está se afogando, certamente, pede socorro a quem estiver perto, não pedirá que a caridade o salve. A caridade é uma construção de amor que o indivíduo faz em si mesmo, não apenas um conceito, é uma atitude prática na vida que revela a intimidade do seu ser, daquilo que é em profundidade.

A questão é o caminho que pode nos levar à salvação. A fé não é apenas um conjunto de crenças, não é apenas confiança em Deus, mas é o resultado desta confiança. Se você realmente acredita em Deus, se acredita em Jesus, então, se lembrará da parábola do bom Samaritano. O homem que amou o próximo não foi o crente ou o descrente, mas aquele que ajudou o homem caído na estrada. Perceba que não se pode amar o próximo sem ser caridoso, pelo menos é o que Jesus nos ensinou. Um amor indiferente, um amor que não ajuda, que não se preocupa com a sorte dos pobres e doentes, que não melhora as condições sociais, isto pode ser tudo, mas não é amor.

Os espíritas compreendem que a caridade que cresce na graça de Deus e se multiplica, essa caridade é impossível sem a fé, que a caridade é o resultado de uma fé esclarecida, de uma fé não egoísta que não pensa somente em si, esquecendo-se que os demais são também filhos de Deus. A caridade é o produto da fé cristã, da fé em um ser superior e bondoso. A verdadeira fé não existe onde não existe a caridade. Você pode ser sincero na fé, mas se sua fé não o faz ajudar o próximo, então, é uma fé morta e filha da cegueira espiritual.

A fé e sua consequência, a caridade, é o critério para que Jesus possa nos salvar, para que os bons espíritos possam nos salvar. A salvação de Deus não pode ser arbitrária, não pode ser fruto de algo não merecido. Sem Deus não há espíritos, não há universo. Tudo existe e se move em Deus. São seres reais que nos salvam, não somos salvos por conceitos, crenças ou opiniões. Quando dizemos que fora da caridade não há salvação, estamos declarando que o critério de que Deus se utiliza para nos salvar é a caridade que fazemos. Não estamos dizendo que é a caridade em pessoa que nos salva, porque isso seria transformar a caridade em um ser mágico com poderes de se materializar no mundo da realidade para nos salvar de um incêndio ou coisa pior.

Evidentemente que a salvação não é algo instantâneo e que ocorra apenas uma vez, mas é um processo gradual e que acontece todos os dias. Salvar é livrar do perigo, não é tirar férias permanentes longe de qualquer aborrecimento. Estou convicto de que, ao não acreditar na reencarnacão, a maioria das religiões tiveram que eleger a fé como único critério da salvação. É óbvio que, por mais que façamos algo bom, ainda assim seria pouco diante de nossos erros. Se formos sinceros com nossa própria vida, se analisarmos os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes, reconheceremos que fazemos muito mais o mal que o bem. Se nós percebemos isto, como será a percepção de Deus?

Uma só existência seria impossível para nos levar à salvação através da caridade, por isso, os que não creem na reencarnacão não tiveram escolha senão acreditar que a simples crença em Deus os pudesse salvar. Aceitar Jesus como Salvador, mesmo que tenha assassinado centenas de pessoas, que tenha estuprado centenas, que tenha sido ladrão ou tudo isso junto. Se você, no último minuto da sua existência, se arrepender e aceitar Jesus, então, irá para o céu e terá todas as delícias de conviver com os anjos. Tal atitude seria o suficiente para alguém ser salvo, ou seja, viver honestamente ou não, ser assassino ou não, nada importaria se você se arrependesse no último segundo e se convertesse a Jesus.

Pode parecer estranho para alguns tal idéia, mas se você não tem outra vida ( reencarnacão) para corrigir seu erro, que poderá fazer senão esperar ser salvo através da simples aceitação de Jesus como seu único e suficiente salvador? Não é uma colocação imoral ser salvo apenas pelo arrependimento, é simplesmente uma concepção desesperada que surge da própria crença em única existência.

Outra questão que se apresenta ao raciocínio é esta: qual a diferença entre o arrependimento ocorrido na terra e no mundo espiritual? Se eu me arrepender antes de morrer sou salvo, se me arrepender um minuto depois, vou para o inferno. Qual a lógica disto? Se me arrependo com sinceridade, se me decido a aceitar Jesus, se desejo seguir o caminho do bem, da fé e da caridade, estou impedido pelo fato de já ter morrido? Deus impede agora que eu siga o caminho do bem? Claro, não sei tudo o que Deus é, não sou seu representante, mas não acredito que Deus deva ser o carcereiro do bem. É um absurdo lógico e moral acreditar que Deus possa impedir alguém de se tornar bom.

Os que acreditam na reencarnacão podem imaginar o seguinte cenário. Você não é tão ruim para ir para o inferno, mas não tão bom para ir para o céu. Que fará então? É muito simples: volte à Terra e faça melhor. Quando você estiver tão bom quanto Francisco de Assis, então, poderá se mudar ( se quiser) para outros mundos onde as condições são muito melhores. Gradativamente, você irá morar em mundos com maior beleza e felicidade. Mundos sem doenças, sem guerras, sem miséria moral ou material. Este é o céu dos espíritas. Chegaria um ponto onde você não mais necessitaria reencarnar e iria morar permanentemente no mundo espiritual de natureza superior. Paulo relata que em êxtase foi transportado para o sétimo céu. Percebemos que é uma gradação, pois, deve existir o sexto céu, o quinto céu, etc…

Na concepção espirita não existe o inferno como um lugar de penas eternas, embora, existam regiões de sofrimento imenso tanto na Terra como no plano espiritual. O mal, porém, é temporário, nunca permanente. Somente o bem tem o caráter de eternidade por estar ligado a Deus, um ser eterno. Outro aspecto nunca lembrado é o fato de o inferno existir. Se fosse verdade que muitos vão para o inferno, então, seria verdade que parte da criação de Deus seria constituída de fracassados. Como um ser perfeito poderia criar seres fracassados? Já imaginaram se um montadora de carros construísse milhares de unidades com defeito de fabricação? Que não pudesse nunca consertá-los? A diferença é que a montadora de carros não é um ser perfeito como Deus e, por isso, pode errar, apesar de não ser algo bonito para se fazer.

Gradativamente, a humanidade concebe Deus e o universo de forma mais justa e lógica. Aos poucos conhecemos “novas” verdades que se somam a “velhas” verdades. Percebemos que muitas coisas qua nos pareciam estranhas, tornam-se óbvias. Outras que nos pareciam óbvias, se tornam absurdos. Todas as verdades permanecem e somam-se a verdade recentemente descobertas por nós, embora, já existentes. Como nos ensina o espírito de Castro Alves: tudo evolui, tudo sonha, na imortal ânsia risonha de mais subir, mais galgar. Deus somente é o seu amor, o universo é o seu altar.

Joao Senna.
Salvador, 28/05/2016

EM BUSCA DE ESPIRITUALIDADE

O espírito Emmanuel assevera que precisamos de espiritismo, de espiritualismo, mas precisamos acima de tudo de espiritualidade. Todas as religiões, quando bem conduzidadas, assim como as filosofias que objetivam promover a dignidade humana, buscam a espiritualidade. É a lei de adoração tão bem explicada em O Livro dos Espíritos. E tão pouco entendida por todos. É a busca de transcendencia que nos move para uma situação melhor.

Mesmo o ateismo, embora, não promova ou busque a espiritualidade, não consegue de forma coerente promover a dignidade e o respeito mútuo, por não apresentar qualquer tipo de fundamento para uma espiritualidade legítima. Não significa que o ateu e o materialista não possam ou queiram defender o amor e a justiça. Sim, a maioria deseja, mas suas próprias crenças sabotam suas melhores intenções. Sem um senso de espiritualidade o homem não consegue libertar-se de si mesmo, mantendo-se preso ao chão da terra, embora, sonhe com as estrelas.

O que é espiritualidade? Como podemos alcançá-la? A espiritualidade é um senso de estar ligado ao universo e sob o comando de algo superior que sustenta e dá sentido a tudo. Algo que mantem mundo e seres fazendo parte de um ideal comum, de forma que o homem não se torne estranho a si mesmo e a tudo que o rodeia. Os ensinamentos cristãos são a fonte maior dessa busca, exemplificada em Jesus quando nos fala: eu e o Pai somos um.

John Stuart Mill (1806-1973) acreditava que devíamos agir tendo como principio promover o máximo de felicidade e o mínimo de dor. A ação correta seria sempre a que promovesse maior bem estar com o menor desconforto. Defendia a tese de que podíamos fazer o que bem desejássemos, contanto que não prejudicássemos o próximo. Mill acreditava que fazer a coisa certa é fazer aquela que desse o melhor resultado.

O problema com o pensamento de Mill é que nem tudo o que oferece o melhor resultado é o melhor a se fazer, levando-se em consideração fatores morais. Por exemplo, se todos fossemos testemunhas de Jeová, não haveria problemas para hemotransfusão, ou seja, não seria necessário bancos de sangue. Seriam economizados bilhões de euros todos os anos. O dinheiro economizado poderia ser empregado na educação e no próprio sistema público de saúde. Existe, porém, uma questão: morreriam pessoas devido a não transfusão de sangue. Poderíamos supor que um adulto pode se responsabilizar por suas crenças, mas e os filhos pequenos e recém nascidos de pais testemunhas de Jeová?

Percebemos, intuitivamente, que um sentido de justiça e correção guia o sentimento moral. Não conseguimos reduzir tudo a cálculos de lucro e prejuizo. A existencia não pode submeter-se nem mesmo ao que pareça ser racional. Não achamos justo matar um homem para salvar dez homens, sobretudo, se este homem não tiver culpa em relação aos homens que serão mortos. Esse sentimento de não podermos submeter a vida e a existencia de outros seres a fatores racionais e, aparentemente, justificáveis tem um nome: espiritualidade.

A Pena de morte tem lógica se imaginarmos que um assassino que foi morte como sentença, não irá matar novamente, mas não parece justo que o estado mate pessoas para mostrar que matar é errado. Muitos defendem o aborto sob a alegação de que a mulher é dona do próprio corpo, que será ela que terá de sustentar e amar uma criança que não deseja, mas não parece certo que uma pessoa possa ter outra pessoa como propriedade.

Se a mulher pode abortar até o quinto mês como admitem alguns paises, por que não pode fazê-lo no sexto ou sétimo mês? Se o corpo pertence a mulher, por que não pode engravidar para vender o seu filho? Percebam que mesmo uma sociedade estruturada em profundo materialismo e ignorância da realidade espiritual, não consegue viver sem um mínimo de espiritualidade.

Atualmente, esta se tornando comum falar que a única religião que precisamos é o amor. Os religiosos são acusados de hipocrisia e que muitos religiosos não são em nada melhores que os ateus. Concluem, portanto, que a religião é desnecessária ou mesmo nociva. Por que motivo os ateus não são acusados de hipócrisia? Por que os não religiosos não são acusados de fanáticos da não religião ou de não amarem o seu próximo como a si mesmos? Não seria porque nada esperamos de bom do ateismo, do materialismo e daqueles que são contrários ou indiferentes à religião? Os cristãos são acusados de egoistas, mas os ateus nunca são acusados.

Podemos buscar a espiritualidade na religião ou fora dela, na ciência bem comprendida e na filosofia racional, mas sempre será necessário crer em algo que esteja fora do próprio homem, algo que legitima a sua busca e o seu valor, que se estenda acima da cultura e dos modismos, que se eleve acima da opinião e da incredulidade. Esse algo é Deus, mas não basta nele acreditar, é indispensável trazê-lo para a própria vida, que possa habitar a consciência e não ser sufocado pelo orgulho e egoismo. Não podemos fazer isso se não o amamos. A única forma de se conquistar a espiritualidade plena é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

CHICO XAVIER

Chico Xavier, seguramente, foi um dos maiores médiuns da história em seu aspecto fenômenológico, na mediunidade em si mesma. Apresentava todos os tipos de mediunidade, algo por si mesmo raro. Não foi neste aspecto, entretanto, que se notabilizou. Em Chico a mediunidade transformara-se em mediunato, que é o apostolado mediúnico. Temos apóstolos na ciência, na religião, na filosofia, e temos agora na mediunidade.

Nunca alguém se calou tanto, suportou tanto, sofreu tanto para que seus exemplos falassem por si, para os que quisessem e o pudessem compreender. Herculano Pires, parceiro em alguns de seus livros psicografados, o caracterizou como um ser inter-existente. Significa que vivia entre o mundo físico e o parafísico. Falava de suas encarnacões passadas como se estivesse falando de algo acontecido ontem e revelou a muitos de seus amigos o que foram e fizeram em vidas passadas. Tudo o que revelava, todavia, tinha uma finalidade útil, nunca um espetáculo de mediunidade ou um favor aos que de prendem aos fenômenos de natureza espiritual.

Muitas vezes lia os pensamentos de seus amigos e interlocutores, mas sabia calar mostrando-se admirado do que diziam. Também soube  chorar junto àqueles que lhe pediam auxilio, porque sabia não ter solução para tudo. Jamais se colocou como líder ou exemplo, embora, não pudesse impedir que o admirassem. Admirava os ideais católicos e o de todas as religiões no que possuem de verdadeiro e sanctificado. Aceitou o Espiritismo por inteiro, em seu aspecto cientifico, filosóficos e religioso. Nunca se posicionou nas defesas sectarias de pontos de vista, permitindo aos outros pensarem como quisessem, permanencendo, todavia, fiel a si mesmo.

Não via Deus como um ser distante e alheio à vida daqueles que criou, mas o percebia como um amigo com quem podia conversar e chorar. Um Pai quem esta nos céus, como ensinou Jesus e céu, em grego, significa Infinito. Era um homem de ação, mas também de Esperanca. Sabia falar com ricos e com pobres sem lhes considerar a situação econômica, mas a condição Espiritual. Falou certa vez que um homem rico que não conseguia doar poucos reais para obra assistencial: esse nosso irmão é tão pobre que só tem dinheiro. De outras vezes falava sobre uma pessoa pobre: esse nosso irmão já foi muito rico em encarnacão passada, mas não soube viver bem ao lado do dinheiro, vamos ver se agora ele tem mais sucesso.

Porque vivesse profundamente o ideal espírita, muitos o acusavam de ser profundamente religioso, como se nossa ligação com Deus pudesse ser estabelecida por conceitos filosóficos ou através da atividade científica. Não vivia de experimentação científica ou imerso em pensamentos profundos e distantes das necessidades do sentimento. Admirava a ciência Espírita, mas sabia que não era cientista, estudava e aprendia a filosofia dos espíritos superiores, mas sabia que não era um filósofo, embora, admirrasse profundamente Herculano Pires, o maior filósofo do Espiritismo.

Emmanuel, seu mentor e amigo, soube conciliar a profundidade da filosofia, o rigor da ciência, a exelsitude da religião em um todo harmonioso e, as vezes, indistinguível. O homem ciência, o homem pensamento e o homem ligado a Deus se reuniam na mesa da existencia. De Chico apenas exigiu disciplica, pois, sabia que humildade, amor e compaixão, Chico já possuia.

Era perfeito? Certamente que não. Muitas vezes, como ele mesmo declara,  se calou quando devia falar e falou quando nada deveria dizer. Tudo o que fez, entretanto, foi inspirado na amizade legítima que tudo dá e nada espera, na humildade que se apaga para que o amor ao ideal Espírita pudesse brilhar. Psicografou cerca de quatrocentos e cinquenta livros, cujos direitos autorais foram cedidos à Federação Espírita Brasileira e a muitos grupos espíritas.

O que mais nos admira em Chico, não é sua mediunidade. Muitos outros médiuns com potential semelhante passaram e passam por nosso mundo, mas nenhum fez o que ele fez e como ele o fez. De sua boca as palavras dos espíritos sábios eram acrescidas das suas vibrações amorosas. De suas mãos abençoadas não surgiam apenas o pão ou a sopa para o corpo, mas a Esperança que nunca se acaba. Quem seguisse seus passos encontraria, no final, a presença do Cristo. Possuia tanto amor que muitos saiam envergonhados de sua presença. Definia a si mesmo não como Chico, mas como um cisco de Deus. Não era perfeito, mas isso o torna mais admirável. Felizes são os que lhe conhecem a história e bem aventurados os que lhe seguirem os exemplos. Chico Xavier, um monumento ao espírito imortal.

MATURIDADE DO SENSO MORAL

Allan Kardec declara que,  para aceitar o espiritismo, não se faz indispensável um grande intelecto ou uma cultura diferenciada, mas o que se poderia chamar de maturidade do senso moral. Essa maturidade é inerente ao espírito encarnado, ela direciona o seu gosto, suas crenças de tal forma que de encontra acima de fatores culturais e cognitivos. Assim, grandes cientistas vêem o espiritismo como algo sem sentido, enquanto, pessoas do povo o comprendem profundamente e o aceitam.

É surpreendende que seja assim, mas é muito bom que assim seja. O espiritismo não é para uma classe social específica, mas para toda humanidade. Não rendeu graças Jesus por ter o Pai revelado as verdades do céu aos simples e as ter escondido dos sábios e prudentes? Certamente que Deus poderia ter se revelado de forma inequívoca para todos os homens, de tal forma que já não seria possível a descrença.

A questão que precisamos compreender é a mente divina. Claro que não a entenderemos em toda sua extenção, pois, não compreendemos nem a nós mesmos. Poderemos, entretanto, comprender o que uma mente onisciente desejaria daqueles que ela criou, ou seja, nós mesmos. Não parece sensato supor que tal mente desejasse impor sua presença a seus filhos, mas que seus filhos livremente procurassem entender e amar quem o criou. Não se impõe amor e temos de nos lembrar que o primeiro mandamento não é acreditar em Deus, mas amar a Deus acima de todas as coisas.

O espírito que somos é criado simples e ignorante, não pleno de luz e muito menos de escuridão. Ao longo de seu aperfeiçoamento intelecto-moral, ele compreende que é auxiliado por outros espíritos, que por sua vez são auxiliados por espíritos que lhe são superiores até chegar aos seres  angélicos como Jesus. Estes, por sua vez vêem e comprendem a Deus e executam os seus designios. É uma corrente quase infinita de amor e sabedoria que une toda criação.

Aceitar essa ordem universal, esse equilibrio que produz justiça e beleza é algo que não se resume a uma comprensão fria e distante do ser que olha o universo como se este fosse algo estranho a si mesmo. Antes, é uma compreensão indistinguível da gratidão e do amor. A esta comprensão da ordem universal, da justiça e finalidade da existencia e sentido da imortalidade, Kardec denominou maturidade do senso moral. Evidentemente, tal coisa não pode ser comprada, não pode ser encontrada ou ensinada nas escolas, pois, é patrimonio inseparável do espírito que a conquistou.

A EVOLUÇÃO ESPIRITUAL É LENTA, NA TERRA.

Um dos aspectos que mais causam  estranheza é o fato de o comportamento dos religiosos não serem diferentes dos que não tem religião. Vários estudos de psicólogos sugerem isso e, se uma evidencia científica não constitui prova decisiva, ao menos é infinitamente melhor que palpites e opiniões. Estaria o problema restrito à religião ou outros fatores estariam contribuindo desfavoravelmente para a ineficiência das religiões em alcançarem seus objetivos?

Por que achamos desanimador que o comportamento de religiosos não se diferencie substancialmente dos não religiosos e ateus? Tal ocorre porque é função da religião tornar o homem melhor.Temos, portanto, duas opções: ou a religião não faz diferença ou as instituições religiosas não estão exercendo adequadamente seu papel. Resta-nos, entretanto, a opção pouco simpática de não terem os homens mais capacitados alcançado os cargos de maior relevancia na hierarquia das instituicões religiosas.

Provavelmente, o que ocorre nos estudos realizados por psicólogos, sociólogos, antropólogos e outros estudiosos do comportamento, seja uma escolha inadequada de representantes que participam de suas pesquisas. Não seria melhor que se escolhessem os melhores representantes do ateísmo e da religiosidade para que fossem comparados o nível de solidariedade? Que fossem realizados estudos prospectivos de longo prazo para se estudar o comportamento de religiosos e ateus frente a situações limites como morte de familiares, guerras, catástrofes naturais ou crises sociais?

Ao estudarem o comportamento de religiosos e não religiosos, a ciência apenas revela que a evolução espiritual dos seres que habitam nosso mundo é muito semelhante. Esses estudos não revelam a importância da prática religiosa e do ateísmo ou uma desvinculação com um senso de transcendência. Muitos materialistas, na prática, raciocinam como se Deus existisse. A maioria dos estudos envolvendo a religião são realizados por pessoas não particularmente religiosas. Não teríamos nesse aspecto a possível contaminação da metodologia dos estudos ou, pelo menos, da interpretação de seus resultados?

É sabido que os humildes são, entre todos os homens, os que menos interresse tem em se tornarem líderes e que somente em caráter excepcional alcançam postos de destaque e influenciam as religiões a que se filiam. Francisco de Assis, Irmã Dulce, Chico Xavier e outros religiosos admimiráveis jamais ocuparam cargos relevantes dentro da instituição religiosa a que se filiaram.

Se analisarmos com mais atenção veremos que os ateus e não religiosos não se notabilizaram por construir instituições beneficentes. Depois dos governos que representam o Estado, com seus impostos e contribuintes, são as instituições religiosas as maiores responsáveis pela rede de proteção social. No Brasil, cerca de um terço do serviço de assistencia social é realizado por grupos espíritas, cerca de dois terços são de responsabilidade dos governos. Aparentemente, se a religião não consegue transformar religiosos em santos, pelo menos é capaz de mobilizar o que existe de melhor em cada pessoa.

Se o número de espíritas corresponde a 2% dos brasileiros e são responsáveis por um terço da assitencia social no país, o que aconteceria se representassem, digamos, 25%? O que diferencia os espíritas dos demais religiosos? Serão naturalmente mais caridosos? Por que isso deveria acontecer? Não parece existir qualquer motivo para pensarmos assim, mas não pode ser uma coincidência que a caridade que os espíritas praticam seja trinta vezes maior que a de todos os outros religiosos reunidos.

Diferentemente de outras religiões, o critério de salvação no espiritismo é a caridade, não a fé. Claro que sem fé não podemos exercer a caridade em grande extensão ou mesmo como prioridade. A função da fé é tornar o homem um ser caridoso, ou seja, espiritualmente melhor. O fato é que a evolução espiritual de cada um é que determinará o seu comportamento, não sua religião. A religião influência a transformação moral e comportamental do religioso, mas cabe a este deixar transformar-se. Se a religião fosse uma fábrica de fanáticos como muitos pensam, milhares ou milhões já se comportariam como Francisco de Assis e Chico Xavier.

A religião, todavia, tem a função de impulsionar o homem para que este se torne melhor. O problema surge quando as religiões não valorizam a caridade, tornando-a uma virtude dos Santos, não do homem comum. O espiritismo se diferencia das demais religiões neste aspecto fundamental. A caridade é simples obrigação de todo ser espiritual, religioso ou não. O problema é que o processo evolutivo é lento para espíritos pouco propensos ao bem, como é o caso dos espíritos encarnados em nosso mundo.

As religiões  desempenharão o seu papel quando ensinarem ao homem a amar a Deus, não somente acreditar em Deus. Quando tornarem o céu o resultado da caridade que exercemos nesse mundo, e não o resultado da crucificação de Jesus. Tornarão o homem melhor quando ensinarem que acreditar em Deus é importante, mas que mesmo o assassino frio e egoista acredita em Deus, mas não o ama. Quando, finalmente, se lembrarem que aquele que aborrece seu irmão e diz adorar a Deus, está mentindo, pois, se não ama a seu irmão que vê, como amará a Deus que nunca viu? São palavras do apóstolo Paulo, esquecidas ou não incentivadas por grande parte das instituições religiosas, mas condizentes com a verdadeira religião.

É FÁCIL SER ESPÍRITA?

Uma expressão comum que se ouve nos centros espíritas é que não é fácil ser espírita ou que ser espírita não é para qualquer um. Certamente, como todas as iniciativas de valor, ser espírita envolve algumas condicões que devem ser preenchidas a fim de que alguém ou uma instituição possa se dizer espírita. Seria extranho que não houvessem exigências ou condições mínimas para a existência de algo que se acredita importante.

Quando dizemos que ser espírita não é para qualquer um, estamos sem querer sugerindo que os espíritas são melhores que as demais pessoas. Que você só poderá ser espírita caso ” não seja qualquer um” Muitos chegam a alegar que “o espírita não é mais um religioso qualquer”, frase que ofende católicos, muçulmanos, evangélicos e ofende, sobretudo, o espírita ao caracterizá-lo como preconceituoso. Ofende também a maioria dos espíritas que, como eu, consideram que o espiritismo seja também uma religião no sentido profundo, no sentido filosófico do real significado da religião.

Permanece, entretanto, a resposta à pergunta : é fácil ser espírita? E a resposta não poderia ser outra: sim, é fácil. Como haveria de ser difícil ser bom? Que lei do universo colocaria dificuldades ao exercício do amor? Que gênio maligno criaria dificuldades para a harmonia universal, rivalizando em poder contra o próprio Deus? Em um mundo criado por uma inteligência suprema, jamais existirão dificuldades para que nos convertamos ao bem, porque é isso que significa ser espírita.

E por que nos parece ser tão difícil ser espírita? Primeiramente, decorre de uma pequena confusão de conceitos: ser espírita não significa ter atingido a angelitude, a perfeição. Kardec assevera que o verdadeiro espírita é reconhecido pela sua transformação moral e pelos esforços que faz em melhorar-se. Observemos que o verdadeiro espírita não é aquele que atingiu a perfeição, mas aquele que se esforça para ser hoje melhor do que ontem e amanhã, melhor do que hoje.

Percebe-se no espírita sincero uma transformação moral. Seus pensamentos e sentimentos se unem para resultar em uma pessoa com novos hábitos. A cada ano percebemos algo melhor, ou poderá ser percebido se tivermos a capacidade e o interesse para tal. E isso ocorre porque ele agora acredita em coisas que antes não acreditava, sente de forma diversa do que antes sentia, porque ele decidiu ser diferente. Decidiu ser melhor que a si mesmo. Ele é agora “senhor do seu destino” porque agora ele se considera um filho de Deus criado para amar.

E por que muitos afirmam ser difícil tornar-se espírita? Certamente os que assim acreditam confundem o próprio desejo com dificuldades. O difícil é a nossa vontade de deixar de ser aquilo que somos, para nos tornar aquilo que deveremos ser. O difícil é deixar os vícios que nos dão grata satisfação para sentir o prazer de uma conversa com amigos tomando refrigerante ou suco de frutas. O difícil é querer deixar o costume tão corriqueiro de falar mal dos outros e discutir o que não entendemos ou que não nos dizem respeito.

O difícil é nos curvar ante a evidência da racionalidade dos espíritos superiores para abandonarmos as idéias pueris e nocivas que cultivamos como se fossem grandes pensamentos. Esta é nossa dificuldade, que nasce do capricho do eu, não da nossa incapacidade ou inadequação. Somos filhos de Deus plenamente adequados para servir ao amor e abandonar a maldade que mergulhada se encontra em nossos pensamentos e formas de sentir.

É muito fácil ser espírita. Muito difícil é sentir inveja, mas podemos sentir. Muito inoportuno a impaciência, mas a cultivamos diariamente. Extremamente desanimadora a preguiça, mas não amamos o trabalho. É constrangedora a ignorância, mas lemos muito pouco. É aborrecido ter idéias banais, mas gostamos muito delas. Valorizamos muito mais a riqueza suspeita e desprezamos a pobreza honesta.

Devemos nos conhecer mais intimamente para não transferirmos ao espiritismo as dificuldades que, prazerosamente, inventamos e abraçamos. Deixemos de dar desculpas para nossos erros, vícios e preguiça mental e moral. O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO nos revela: ” o homem só permanece vicioso quando não dispõe de uma vontade firme, mas todo aquele que quer, pode se melhorar” , “sede severos para com vossos erros e indulgêntes para com o erro do vosso irmão” Não é preciso dizer mais nada.